Táxi

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 27/10/2004.

Táxi (Taxi)

Quando A Assassina (1993) chegou aos cinemas, pensei na mesma hora: por que os americanos têm esta mania terrível de querer “refazer” bem-sucedidos longas estrangeiros? Afinal, A Assassina é uma refilmagem ianque do bacana Nikita: Programada para Matar (1990), fita francesa dirigido por Luc Besson. Sei lá, os caras gastam milhões pra “fazer de novo” fitas de outros países que obtém um sucesso considerável por lá, enquanto poderiam estar dando rumo a novas e mais interessantes produções… bem, sempre considerei este pensamento meio ilógico.

O mesmo aconteceu com O Silêncio do Lago (1993), um suspense bem fraquinho que na verdade é uma releitura do drama-quase-terror Sporloos (1988), do holandês George Sluizer – que aliás, também comandou a refilmagem. Enfim, A Assassina entrou em cartaz e até que era divertido, mas não chegou aos pés do Nikita original. E agora, como diria Mel Gibson em Sinais, “está acontecendo”! De novo…

Para entender melhor o que estou tentando dizer, aqui vai uma historinha: Um certo dia, um cineasta francês chamado Gérard Pirès foi contratado pelo diretor/produtor/roteirista Luc Besson para comandar um projeto chamado Táxi. No suposto projeto, um entregador de pizza chamado Daniel muda de emprego e se torna taxista, mas seu sonho mesmo é ser piloto de Fórmula 1. Depois de ser pego pela polícia cometendo uma grave infração de trânsito, Daniel é forçado a servir de chofer para o inspetor Emilien, que não sabe dirigir, na captura de um grupo de assaltantes alemães. Se cooperar, Daniel não perde a carta e o veículo.

Pois é, o filme fez um tremendo sucesso na França, partiu para desbravar novos territórios, repetiu a façanha de sua terra natal e ainda ganhou duas continuações. E eis que surgem os grandes vilões da história toda: os maquiavélicos e gananciosos executivos de Hollywood, que teimam em querer “refazer” Táxi, agora com uma roupagem mais “americana”. Assim, chega às telas Táxi (Idem, 2004), com algumas modificações: a ação agora se passa em Nova York, o entregador de pizza Daniel se tranforma numa taxista falastrona e fã de hip-hop, o inspetor vira um policial desastrado e sem graça alguma e a gangue dos alemães ganham forma em quatro curvilíneas “brasileiras” que falam “portunhol” e são lideradas por uma modelo famosa.

O tal enredo é este: A taxista Belle Williams (Queen Latifah, Chicago), cujo maior sonho é se tornar piloto da Nascar, têm sua vida virada de cabeça pra baixo quando o tira Andy Washburn (o insuportável Jimmy Fallon, mais um humorista saído do Saturday Night Live) entra em seu táxi. Washburn, visto como patético depois de cometer um acidente de carro em plena perseguição a um grupo de traficantes cubanos – e matar um papagaio nessa brincadeira -, está à caça de uma gangue de assaltantes brazucas comandadas pela gostosa Vanessa (Gisele Bündchen). Como o tal detetive tem pavor de volante, esta função acaba caindo de pára-quedas no colo da taxista.

Depois de uma série de erros e acidentes em trânsito – que o impediu de colocar as mãos nas meliantes -, Washburn vê seu emprego ir para o ralo ao ser dispensado pela chefe (e ex-namorada), a tenente Marta Robbins (Jennifer Esposito, de Refém do Silêncio), e Belle perde seu namorado Jesse (Henry Simmons, mais conhecido por seu papel no seriado Nova York Contra o Crime) e também o táxi – na verdade, um ultra-hiper-mega-maxi turbinado automóvel -, que acabou apreendido pela polícia. Sem nada a perder, a motorista e o tira, que se detestam, unem forças para prender as bandidonas e arrumar toda a confusão que causaram.

Vamos direto ao ponto: Táxi é um filme ruim. Muito ruim. A mistura de ação e comédia que funcionou tão bem na película original simplesmente não funciona nada aqui. A “interpretação” de Queen Latifah é fraquíssima e carregada de clichês (para se ter uma idéia, quando Latifah solta algum diálogo, parece que é forçada automaticamente a fazer algum gesto hip-hop). O caso de Jimmy Fallon é pior ainda. O “ator” é totalmente sem graça, o que é muito estranho em se tratar de um comediante vindo do tão popular SNL. Aliás, sempre que Fallon aparece em cena, é aquele show de má interpretação, em particular na cena da “dança dentro do carro”, em que Washburn canta uma música da Natalie Cole pra espantar os fantasmas e conseguir dirigir. E a química entre ele e Latifah simplesmente não existe. E o roteiro é cheio de furos: meu, qual o sentido do tal chefe da gangue das meninas? De onde surgiu aquele cara?

Quanto ao restante, reparem na atuação de Henry Simmons: além de seu personagem existir só pra tapar buraco, o cara ainda não ajuda e consegue ser tão bom quanto o Cigano Igor, ou seja, a mesma expressão de rosto e voz em momentos alegres ou tristes. O mico maior em termos de elenco é ele. Mas e a Gisele Bündchen nesse rolo todo? Olha, até que a nossa super topmodel não é má atriz. Mas também porque ela praticamente não faz muita coisa. Sim, a menina tem um ou outro diálogo, só que a maioria é em português. O que Gisele Bündchen faz aqui, assim como as três modelos que “interpretam” suas capangas, é entrar e sair de uma BMW, arranhar um “portunhol” sofrível e desfilar pela tela como se estivesse numa passarela. Básico!

O máximo mesmo é ter que ouvir uma das capangas gritar “Ai, minha Nossa Senhora” em plena perseguição! Pois é, isso existe no filme, e é um dos três únicos momentos em que o espectador dá um sorrisinho amarelo – os outros dois correspondem à uma tiração de sarro com O Senhor dos Anéis e à “filha branca ilegítima de Barry White” (não vou contar, vai que algum doido aí queira ver o longa…). Se você quiser sofrer 97 minutos só pra conferir estes três momentos, vai fundo!

A única coisa que vale mesmo em Táxi é a presença minúscula da veterana Ann-Margret (como a mãe manguaçeira de Washburn, num papel bem desnecessário mas até que divertido) e Jennifer Esposito, que é boa atriz, mas está bem desperdiçada aqui. E a pobre coitada, junto com a nossa modelo, protagoniza a cena mais sem sentido do ano – mas que fará a alegria dos machões presentes na platéia.

E agora, o que todos tinham medo de ouvir: a culpa toda é da “tentativa de cineasta” Tim Story. Sim, lamento dizer, ele é péssimo diretor. Não dá o tom certo de comédia nas cenas “cômicas”, não consegue sequer empolgar nas cenas “de ação” e faz a platéia adivinhar o final do filme ainda no início. Esse aí ainda tem que comer muito feijão com arroz pra conseguir realizar algum trabalho digno de nota. O que dá medo, quando sabemos que o cara é o resposável pela adaptação para as telonas de Quarteto Fantástico – que, diga-se de passagem, todo mundo já imagina que será meio ruinzinho. É, pessoal. Peguem um táxi e fujam dos cinemas! E vamos todos fazer um abaixo-assinado para impedir futuras refilmagens de sucessos de outros países! Imaginem uma versão gringa de Cidade de Deus… sai fora, meu! :-D

CURIOSIDADES:

• O roteirista-produtor-diretor Luc Besson escreveu o roteiro do primeiro Táxi em menos de 30 dias, no período em que aguardava sinal verde da Columbia Pictures para dar início ao seu controverso O Quinto Elemento.

• Antes da Fox cometer a burrada de chamar Tim Story para comandar esta tentativa de filme, o diretor originalmente escalado era Kevin Bray. Para quem nunca ouviu falar do cara, ele dirigiu o elogiado Com as Próprias Mãos (2004), com The Rock e Johnny Knoxville no elenco. Bem, se fosse com Bray talvez melhorasse alguma coisa…

• O Táxi original foi dirigido por Gerárd Pirès e estreu na França em 8 de Abril de 1998. Os atores principais são os bem populares por lá Samy Naceri e Frédéric Diefenthal. Para se ter uma idéia do sucesso da fita por lá, Táxi permaneceu em cartaz nas telonas por sete meses (!).

• O braço-direito de Vanessa, personagem de Gisele Bündchen, chama-se Redhead (ou Cabeça Vermelha) e é “interpretada” pela modelo portuguesa Ana Cristina de Oliveira. Foi ela que soltou o monumental “ai, minha Nossa Senhora” no meio da cena de perseguição. Apesar de ser muito ruim, a cena deveria ficar marcada na história do cinema…

TAXI • EUA/FRA • 2004
Direção de Tim Story • Roteiro de Robert Ben Garant, Thomas Lennon e Jim Kouf
Elenco: Queen Latifah, Jimmy Fallon, Gisele Bündchen, Jennifer Esposito, Henry Simmons e Ann-Margret.
97 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

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