Nacho Libre

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/01/2007.

Nacho Libre

Nacho Libre (Idem, 2006), aquela comédia com Jack Black, foi sem sombra de dúvida uma de minhas maiores frustrações, senão a maior, de 2006. Nada a ver com a qualidade do resultado final da película, mas sim com o fato de que foi uma tremenda sacanagem ler e divulgar zilhões de notícias legais a respeito do filme, bem como as muitas fotos bizarras e o espertíssimo trailer, para chegar perto de sua estréia no Brasil e saber que sua distribuidora, a Paramount, decidira cancelar sua chegada aos cinemas brazuquinhas para lançá-lo direto às prateleiras das videolocadoras. Aquilo, meu caro, doeu na alma. E olhe que eu já estava mais do que preparado para vestir minha tanguinha de Mucha Lucha (!) e enfrentar o Benício em um ringue de luta livre só para ganhar o direito de comparecer à sessão de imprensa de Nacho Libre. Crap. :'(

Então, Nacho Libre chegou ao DVD. Finalmente. E agora, depois de assistir à fita, devo dar a mão à palmatória e admitir que a estratégia da Paramount me parece bastante correta. É que Nacho Libre, mesmo sendo a divertidíssima comédia que é, não é nem um pouco comercial. Na verdade, não é exagero afirmar que, independente de fazer a alegria de alguns poucos nerds (como eu), a distribuidora certamente sairia no prejuízo se jogasse esta fita no circuitão. Porque o que tem de gente que não vai curtir a película…

Bem, mais ou menos: é certo que Nacho Libre é uma fita esquisita, cortesia do estilo narrativo de seu diretor, o mesmo Jared Hess que apresentou ao mundo uma das criaturas mais bisonhas do universo, aquele ser chamado Napoleon Dynamite. E põe esquisita nisso: quem pôde conferir Napoleon Dynamite, sabe que Jared Hess é adepto de um humor peculiar, calcado em diálogos nonsense, seqüências muito paradas e personagens que interagem como se tivessem acabado de acordar (!). Por outro lado, sabe-se que, por trás destas características incomuns, o trabalho de Jared Hess é recheado de personagens tridimensionais e muito engraçados, além de um roteiro ácido e coeso; o problema é que tudo isto está nas entrelinhas. Para aquela parcela de público acostumada a ter tudo mastigadinho na tela, assistir a Napoleon Dynamite não é uma tarefa das mais gloriosas.

Nacho Libre é nada menos que uma história bem aos moldes de seu antecessor, que utiliza todos os maneirismos que já se tornaram marca registrada de Hess, mas levemente remodelada para o público em geral. Uma produção mais comercial, sim, mas que (graças aos céus) não perde as características que construíram a carreira de seu diretor. Portanto, você curtirá muito mais se estiver familiarizado com o estilão do cara.

A história é mais dinâmica e palpável ao grande público, devemos concordar. Jack Black vive Ignacio, que é um monge e também o cozinheiro oficial de um obscuro monastério em algum canto do México. Logo na seqüência de abertura, vemos que, como várias crianças órfãs, Ignacio cresceu no monastério e passou sua infância inteira sendo podado pelos párocos do local, que enxergavam sua tendência ao wrestling (luta-livre) uma “coisa do demônio”. De um garotinho com um talento fora do comum para as lutas, Ignacio tornou-se um adulto frustrado, avoado e constantemente zombado por seus “superiores”, que não acreditam que o sujeito possa se tornar um “homem de Deus” com louvor. Mas até que Ignacio faz o que pode, tentando dar o máximo de carinho aos meninos órfãos que vivem no monastério e também driblando o amor pela luta, que ainda se manifesta.

A fita começa pra valer com a chegada da estonteante Irmã Encarnación (a belíssima Ana de La Reguera), vinda do Convento da Paróquia de Oaxaca das Irmãs do Coração Imaculado de Nossa Senhora das Montanhas de Guadalupe (!?!). A freirinha, lógico, desperta algumas coisas em Ignacio… e só deixa o cara mais frustrado ainda. Novos ventos parecem soprar quando Ignacio descobre que haverá um torneio de luta-livre na cidade, e que o campeão será recompensado com belas 200 pratas. Tentado pela possibilidade de ganhar algum respeito perante a sociedade, e também pela idéia de poder dar mais às crianças do monastério além de uma tenebrosa papa marrom com batatinhas no almoço (!?), Ignacio assume a alcunha de “Nacho, o luchador”, alia-se ao magricela ladrãozinho de batatas Esqueleto (Héctor Jiménez), e passa a lutar escondido.

E pronto: a história acaba aí. O resto é só a trajetória de Nacho. Fácil, não?

O enredo, como pode-se ver, é tão simples que até dá margem a uma leitura mais clichêzenta. Mas não se engane: o roteiro de Jared Hess, Jerusha Hess e Mike White (de Escola do Rock e Por Um Sentido Na Vida) – este último, por sinal, um dos melhores roteiristas em atividade na cena cinematográfica ianque atualmente – não deixa a história cair no “mais do mesmo” justamente por conta de sua parcela “esquisita”. Os ÓTIMOS diálogos, as piadas bem-sacadas – a visita ao morto, o treinamento, o “batizado” de Esqueleto (que “não acredita em Deus, e sim na ciência”), só para citar algumas – e os bizarros personagens ajudam a diferenciar a produção de tantas outras que mostram perdedores superando suas barreiras pessoais em busca de seus objetivos.

Ah, os personagens… é cada um mais maluco que o outro. O troço já começa com os sujeitos do monastério, em especial o dúbio Señor Ramon (Enrique Muñoz, astro de novelas mexicanas), segue para a gama de adversários de Nacho e Esqueleto – preste atenção nos endemoniados Trogloditas de Satã, que são, na verdade, dois pigmeus peludos (!) – e passa por uma rápida pontinha de Peter Stormare (Reencarnação), no papel de um cigano especializado em ovos de águia mágicos (!?). E há ainda o hilário Héctor Jiménez (de Vozes Inocentes), que rouba todas as cenas em que aparece na pele do Esqueleto. Isto, sem contar o momento-romance-bizarro sempre presente na filmografia de Jared Hess; só que aqui não tem uma LaFawnduh, e sim uma tronha gigantesca que apaixona-se por Esqueleto e tenta agarrá-lo a todo custo na cena da festa, ao som da clássica erótica Half Forgotten Daydreams, de John Cameron. Afe! :-D

Claro, o centro de tudo é mesmo Jack Black e seu jeitão-padrão de interpretar, ainda que aqui esteja mais contido do que o habitual. Se você é não é fã do trabalho do indivíduo, como o Machine Boy (que tem o desejo sincero de enfiar o ator em um foguete, ao lado de Rob Liefeld, e despachá-lo direto ao Sol), por favor fuja.

Bem, pra falar a real, são vários os motivos para conferir Nacho Libre. As piadas, a bacanésima trilha sonora composta por Danny Elfman (o que fez a Srta.Ni e o R.Pichuebas se desesperarem atrás de uma cópia do filme :-D), as lutas engraçadíssimas e muito bem coreografadas… mas o trunfo principal do filme é mesmo o roteiro e a direção. Com esta sua estréia no circuitão comercial, o diretor Jared Hess provou sem crises que é possível transitar do independente ao pipocão sem perder a identidade. E também provou que uma boa comédia não precisa necessariamente fazer uso de situações grosseiras e gratuitas – uma boa lição para alguns repórteres imbecis do Cazaquistão em viagem cultural aos Estados Unidos, que acham que o que fazem é comédia decente.

E curiosamente, estas coisas conseguem exibição garantida nos cinemas tupiniquins. Vai saber.

NACHO LIBRE • EUA • 2006
Direção de Jared Hess • Roteiro de Jared Hess, Jerusha Hess e Mike White
Elenco: Jack Black, Héctor Jiménez, Ana de La Reguera, Richard Montoya, Peter Stormare, Darius Rose, Enrique Muñoz.
100 min. • Distribuição: Paramount Classics.

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