Sr. & Sra. Smith

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 08/06/2005.

Sr. & Sra. Smith (Mr. & Mrs. Smith)

Numa época em que somos forçados a engolir fitas cada vez mais ofensivas até mesmo no cinema de entretenimento, que deveria ser descompromissado por obrigação, chega a ser empolgante ver trabalhos como este Sr. & Sra. Smith (Mr. & Mrs. Smith, 2005) estourando por aí. Não que haja algo genuinamente especial nesta comédia de ação protagonizada por Brad Pitt (Doze Homens e Outro Segredo) e Angelina Jolie (Alexandre). Falando o português claro, a produção segue à risca a cartilha dos filmes-pipoca estadunidenses, linha por linha, ponto por ponto. Se você leu a sinopse, já tem uma idéia de como o negócio se desenrolará. Se assistiu ao trailer, então, pode contar que será capaz de adivinhar o filme inteiro. Isto é bom ou ruim? Neste caso específico, é muito bom. :-D

O que o torna tão especial, contudo, é que Sr. & Sra. Smith cumpre o que promete com louvor. É engraçado, movimentado, prende a atenção do começo ao fim e dá aquela sensação de dinheiro bem gasto ao final da sessão. E ainda comprova pelo menos três teses: a) um filme não precisa necessariamente ofender a inteligência do público apenas por ser uma diversão rasteira, b) clichês podem ser usados numa boa, desde que sejam BEM usados, e c) um cineasta independente cultuado e cheio de estilo próprio não precisa obrigatoriamente perder sua identidade ao realizar um trabalho dentro do esquemão hollywoodiano.

Tudo bem que Doug Liman, que estourou no circuito indie com o bacana Swingers: Curtindo a Noite (inexplicavelmente inédito em DVD no Brasil) e o já clássico Vamos Nessa, já provou com o ótimo A Identidade Bourne que rala numa boa em Hollywood sem se render aos caprichos dos executivos dos estúdios. Com Sr. & Sra. Smith, a coisa não é diferente. O próprio enredo denuncia que a película existe com o único intuito de divertir. A história é a mais simples possível. Mas muito bem sucedida em sua realização.

Vamos à história: o engenheiro John Smith (Pitt) e a analista de finanças Jane Smith (Jolie) são casados há cinco anos. Ou melhor, seis. Ela jura que é seis, mas ele defende que é cinco. Ambos são ricos, têm empregos invejáveis, uma casa ducacete e um casamento perfeito. Bem, quase perfeito. A convivência anda difícil, o relacionamento está um marasmo e eles mal conversam. Só para se ter uma idéia, o casal sequer lembra qual foi a última vez que fizeram sexo… Para tentar resolver a questão, John e Jane freqüentam até terapia de casal, mas parece que nem pra isso os dois têm saco – a cena de abertura, uma homenagem explícita às “conversas com a câmera” da comédia Harry & Sally, Feitos Um Para o Outro, conta com diálogos muito legais.

Só que John e Jane escondem um segredo: ambos são perigosos assassinos profissionais. Além de o Sr. Smith nem desconfiar do verdadeiro “emprego” da Sra. Smith e vice-versa, as organizações para o qual trabalham são inimigas mortais. Quando surge na parada um misterioso jovem chamado Benjamin Danz (Adam Brody, o Seth do seriado The O.C.), desejado pelas duas “empresas” competidoras por motivos obscuros, John e Jane recebem a mesma ordem ingrata: ambos têm 48 horas para matar um ao outro! É aí que a pancadaria começa: apesar de inicialmente resistir à tarefa, uma série de erros acontece e John acredita que Jane realmente quer vê-lo morto, o que faz com que o cara parta para o quebra-pau. A Sra. Smith, por sua vez, se defenderá como pode. Enquanto usa dos mais ardilosos truques para dar cabo da raça um do outro, o casal acaba, meio que sem querer, redescobrindo o amor e reacendendo a paixão.

História simples, sim. Mas muito bem executada: o roteiro escrito por Simon Kinberg – que também escreveu o script de X3 – é coerente e conta com bons diálogos; a trama é recheada de clichês tão bem encaixados na estrutura do roteiro que sequer atrapalham; a trilha composta por John Powell é divertidíssima; e as cenas de ação são muito bem filmadas, em especial a seqüência em que o casal Smith se enfrenta em sua residência. Cena, aliás, que lembra bastante a “batalha” entre Michael Douglas e Kathleen Turner no bacanésimo e pouco visto A Guerra dos Roses.

Outro ponto positivo é a escolha do elenco. Tanto Pitt (vide Tróia) quanto Jolie (vide a cinessérie Tomb Raider) já deram provas suficientes de que dão conta do recado quando o gênero é ação. E a química entre os dois funciona que é uma beleza. Funciona até demais: os dois parecem realmente estar apaixonados. Dá pra entender porque a ex-senhora Pitt, a deusa Jennifer Aniston, não gostou nada desta história. Hehehe! Brincadeiras à parte, devo alertar aos babões de plantão que Angelina Jolie está mais sensual do que nunca. Recomendo inclusive que os mais afoitos assistam Sr. & Sra. Smith na presença de um cardiologista ou algo parecido. O El Cid já acionou seu plano de saúde. :-D

Entretanto, quem rouba mesmo o show é Brad Pitt. É o primeiro trabalho desde Clube da Luta em que o ator está visivelmente à vontade. Além de carismático, Pitt capricha na caracterização do assassino profissional com gostos patéticos e aboslutamente normais, e aproveita-se disto para entregar algumas piadas geniais: só a seqüência em que Jane descobre, no meio de uma tensa e alucinante perseguição automobilística, que John é fã da bandinha-chiclete Air Supply, já vale o ingresso! Imaginem uma figura como esta cantarolando Making Love Out of Nothing At All enquanto elimina alguns concorrentes… Por outro lado, o micro-personagem de Vince Vaughn, o melhor amigo e colega de trabalho do sr. Smith, parece estar meio perdido. Isto quando aparece em cena! Um defeito menor que, pra ser sincero, nem me incomodou, visto que estava ocupado demais me divertindo com o filme.

Pra resumir: Sr. & Sra. Smith é, como eu esperava, uma das produções mais seguras do ano, perfeita para embalar uma sessão com os amigos. Seria ótimo se os estúdios investissem em mais fitas sem compromisso como esta. E a Angelina Jolie é um mulherão. Mas eu ainda prefiro a Jennifer Aniston. Ok, eu sou suspeito pra falar. Ah, e o mais importante: onde eu arrumo uma camiseta igual a do Adam Brody? :-P

CURIOSIDADES:

• Originalmente, o papel da Sra. Smith seria de Nicole Kidman, que não se mostrou muito interessada em participar do projeto. Pois é, ela deve ter preferido ficar parada durante meia hora naquele filmaço chamado Reencarnação

• Outra atriz que quase ficou com o papel foi a estupenda Catherine Zeta-Jones. Hmm, essa eu aprovo! :-D

• Quando Nicole Kidman desistiu do papel, Brad Pitt também pulou fora. Johnny Depp e Will Smith chegaram a ser cogitados para assumir o personagem Sr. Smith. Quando Angelina Jolie assinou contrato com a Fox para protagonizar a fita, Pitt voltou atrás.

• Diz a lenda que a montagem inicial de Sr. & Sra. Smith é recheada de cenas, digamos, “picantes”. Quase todas ficaram no chão da sala de montagem, para que a produção não fosse massacrada pela MPAA e não ganhasse a temida classificação NC-17. Para quem não sabe, NC-17 é a ferradaça classificação indicativa que proíbe rigorosamente a entrada a menores de 18 anos, mesmo acompanhado dos pais. Bem, o jeito é esperar pra ver se Doug Liman incluirá estas cenas o DVD. Imagina o El Cid enfartando ao ver isso… :-D

• Tá bom, eu confesso: eu também curto as músicas do Air Supply!

MR. & MRS. SMITH • EUA • 2005
Direção de Doug Liman • Roteiro de Simon Kinberg
Elenco: Brad Pitt, Angelina Jolie, Vince Vaughn, Adam Brody, Kerry Washington, Michelle Monaghan, Jennifer Morrison, Angela Bassett, William Fichtner.
120 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

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