Os Sonhadores

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 09/12/2004.

Os Sonhadores (The Dreamers)

O americano Matthew tinha 20 anos e estava largado na França. Foi à cidade luz para aprender francês e acabou ficando por lá. Extasiado com o clima romântico e cultural de Paris, viciou-se na Cinemateca Francesa, onde ia praticamente todos os dias para assistir clássicos de Nicholas Ray, Samuel Fuller, entre outros. Matthew, assim como vários outros jovens, sempre sentava-se à primeira fila. E se indagado, explicaria que era para receber as imagens antes de qualquer um, antes que elas se difundissem fileira por fileira, antes que elas morressem pequenas, do tamanho de um selo, na saída do projetor. Matthew era como qualquer um dos jovens daquela época. Era a primavera de 68.

Assim como o personagem Matthew, o ponto central de Os Sonhadores (The Dreamers, 2003), o cineasta Bernardo Bertolucci, realizador da película, também viveu aquele ano. Para quem não conhece a história, em 68 explodiu o movimento hippie, a liberação sexual, as contestações à banalidade da Guerra do Vietnã e, no Brasil, o tropicalismo. Tudo, a não ser a última citação, estourou de vez e teve sua maior representação na juventude politizada da França, inspirada e movida pelos clássicos cinematográficos da nouvelle vague dirigidos por François Truffaut, Jean Luc Godard, Jacques Rivette, Henri-Georges Clouzot e tantos outros. Os franceses inspiraram o resto do mundo a lutar pelos seus ideais e direitos. Sem repressão política e sem condenar a liberdade de expressão. Era proibido proibir, como dizia a tão conhecida música.

Em Os Sonhadores, novo filme de Bertolucci – mais conhecido por quase ter matado as senhoras conservadoras com o perturbador O Último Tango em Paris -, a revolução política e social de 68 serve apenas como pano de fundo de uma história de amor. Não o “amor” com relação aos três personagens centrais, mas sim o amor ao cinema. A todo momento, vemos na tela “re-encenações” perfeitas de cenas de filmes como A Vênus Platinada, com Marlene Dietrich, Os Incompreendidos, de Truffaut, Luzes da Cidade, de Charles Chaplin e muitos, muitos outros longas. Tudo isto, claro, numa embalagem poética e muito fascinante.

Mas veja bem, você deve evitar este filme se a) você não é cinéfilo inveterado, restringindo seu gosto aos novos blockbusters, e b) se tem pudores e não suporta ver uma única cena de nudez no cinema. Porque é o que mais tem aqui: nudez explícita e cenas que quase chegam a beirar a pornografia. E quer saber: Bertolucci, com seu enorme carinho pelo tema, pelo cinema e por seus personagens, transformou tudo em poesia pura. Nada consegue ser gratuito.

A história começa quando Matthew (Michael Pitt, de A Vila) chega à Cinemateca para mais uma sessão de cinema e encontra o lugar fechado e com um aglomerado de estudantes/manifestantes à sua frente. O fundador da Cinemateca, Henri Langlois, fora demitido – acusado de, com sua programação, incitar a libertinagem política e sexual. No meio da confusão, Matthew faz amizade com os irmãos Isabelle (a super-hiper-ultra-mega maravilhosa Eva Green, destronando praticamente todas as beldades apresentadas neste ano pelo cinema) e Theo (Louis Garrel). A polícia chega pra acabar com a brincadeira, e os três acabam passeando pela cidade, conversando amenidades.

Sozinhos em casa, Theo e Isabelle convidam Matthew para passar uns dias em seu apartamento – os pais dos gêmeos estão viajando. A princípio, o americano (a esta altura já hipnotizado pela beleza estonteante da moça) estranha a ligação muito forte entre os irmãos. Quando é aceito pela dupla como um autêntico conhecedor de cinema – numa cena emocionante que consiste numa travessia em corrida pelo Louvre, alusão clara ao clássico Bande à Part, de Godard, e de cara a cena mais linda do cinema neste ano -, os três se trancam no apartamento e passam as tardes a discutir filmes, política, revoluções. Até que o americano percebe, chocado, a relação incestuosa entre Theo e Isabelle. E acaba cedendo à graciosidade dos gêmeos. À medida que as relações se aprofundam, as coisas fogem ao controle. E eu não falo mais nada, pra não perder a graça! :-)

Esquecendo-se das inúmeras qualidades técnicas de Os Sonhadores, desde a sua excelente montagem (que mescla cenas de fitas antigas) até a ótima trilha sonora que conta com Janis Joplin, Doors e Jimi Hendrix (que já abre o filme com tudo ao som de Third Stone From The Sun), entre outros, o que mais se destaca no longa é mesmo a paixão que Bertolucci imprime a cada frame. Não é difícil se encantar com a trajetória dos três jovens. Se o espectador souber interpretar as tórridas cenas de sexo e nudez, enxergará nada mais do que o retrato de uma geração que ousou correr atrás do que julgava certo, usando como armas as palavras, o amor e a própria arte de se fazer filmes. E apesar da militância panfletária, nunca parece cansativo ou politizado demais.

O final em aberto deixa claro que ninguém pode tentar tomar o controle de nada. É o cinema em estado bruto, sem intenções de ludibriar e apenas para se fazer pensar, e não só como instrumento de entretenimento ou uma máquina de fazer dinheiro, como muitos diretores e executivos de estúdios acreditam.

Ou seja: é um filmão! Belíssimo, com imagens lindas, e atuações viscerais de todo o elenco. Vale muito a pena! E pra finalizar, a Eva Green é linda. Só este elemento já vale o ingresso! ;-)

CURIOSIDADES:

• O papel interpretado por Michael Pitt foi oferecido inicialmente a Jake Gyllenhaal, que recusou devido ao forte teor das cenas eróticas. Realmente, depois de assistir à fita e dar de cara com o close das, bem, partes baixas dos atores, dá pra entender o temor de Gyllenhaal.

Os Sonhadores foi o primeiro filme desde Bent (1997) a receber a tão temida classificação NC-17.

• Pelos cálculos feitos pela minha pessoa durante a projeção de Os Sonhadores, pelo menos 60 filmes (!) são citados ou referenciados nas quase duas horas de duração.

THE DREAMERS • EUA/ITA/FRA/ING • 2003
Direção de Bernardo Bertolucci • Roteiro de Gilbert Adair
Elenco: Michael Pitt, Eva Green, Louis Garrel, Anna Chancelor, Robin Renucci, Jean-Pierre Léaud.
115 min. • Distribuição: Fox Searchlight.

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2 Responses to Os Sonhadores

  1. É um filme belíssimo de foco artístico aguçado,um dos meus filmes preferidos.:P

  2. A partir dos melhores filmes. Novamente Bertolucci ocupa o padrão cinéfilo entre sexo e política. Os Sonhadores é uma história interessante e cativante amor diretamente ligada ao contexto político-cultural aconteceu na primavera de ’68 tumultos na cidade de Paris, capturando perfeitamente cenários e ambientes. Uma fita sedutor, com um grande elenco sobre todos os atores de cinema Eva Green (Isabelle) e Louis Gardel (Theo), surpreso com a simplicidade e graça encarnado quando alguns personagens e complexo coloridas, como Michael Pitt, que, completando o trio, e ao abrigo de um apático, alucinado enquanto aparentemente atira trabalho com interpretação meticuloso, embora às vezes um pouco inútil. No geral, é um drama de amor cheio de ideais e descobertas que adora o cinema.

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