Nina

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 05/11/2004.

Nina

O cinema nacional tem semelhanças até demais com o pólo cinematográfico americano. Depois do sucesso de Carlota Joaquina – Princesa do Brazil (1995), o povo brasileiro passou a se interessar pelas produções brazucas, e a indústria cinematográfica da nossa terra cresceu vertiginosamente. Para o bom e para o ruim: ano a ano, são lançados filmes muito bons, mas também filmes muito, mas muito fraquinhos. E, assim como lá nos Estados Unidos, os blockbusters nacionais (geralmente os “apadrinhados” pela Globo Filmes) acabam engolidos em qualidade e conteúdo por trabalhos independentes e ousados.

O que nos leva a Nina (Idem, 2004). Enquanto grandes e prepotentes produções como Carandiru, Olga e Cazuza – O Tempo Não Pára aterrorizam nas bilheterias por conta do seu enorme lobby e acabam, por final, se mostrando extremamente vazias e superficiais, a estréia na direção de longas-metragens do publicitário Heitor Dhalia, cuja produção é a mais simples possível, resulta num exercício apavorante de delírio e medo como há muito não se via por aqui. A fita é mesmo um belo de um soco no estômago: em pouco mais de uma hora e vinte de projeção, o espectador é conduzido a uma viagem macabra e angustiante pela mente de uma personagem, no melhor estilo Twin Peaks ou Spider. Não à toa, Heitor Dahlia é chamado pela crítica de “novo David Lynch”. O mais impressionante, porém, é que Nina é uma produção pequena, bem aos moldes das velhas produções indies dos states.

O roteiro bem amarrado de Marçal Aquino (que fez história nas parcerias com o fantástico Beto Brant, de O Invasor e Ação Entre Amigos) transporta a trama básica do clássico Crime e Castigo, de Fiotr Dostoiévski, ambientada em São Petersburgo, para o cenário underground de São Paulo nos dias de hoje. Logo nos créditos de abertura (muito bem feitos, por sinal), já nos familiarizamos com Nina (Guta Stresser, que em nada lembra a cômica figura que interpreta no seriado global A Grande Família), que luta para sobreviver na metrópole. Ela trabalha num emprego desumano e se relaciona com figuras mais desumanas ainda. Sua válvula de escape são os desenhos que faz. Para piorar as coisas, mora de aluguel no apartamento da perversa Eulália (Myriam Muniz), que a humilha diariamente.

Quando pensamos que Nina está no fundo do poço, ela desce ainda mais: Eulália viola a correspondência de sua inquilina, “confisca” todo o dinheiro que a garota recebe dos pais distantes, gruda etiquetas com o seu nome em todos os itens da casa (de modo que Nina não possa usá-los) e ainda tranca a geladeira a cadeado. Ao perder o emprego, Nina fica cada vez mais confusa. Em sua mente, ficção, desenhos e realidade se misturam. Quando Eulália resolve despejá-la sem aviso prévio e traz um novo inquilino para ocupar o apartamento, Nina explode em um final trágico – e sufocante para a platéia.

Não é a toa que Nina está fazendo tanto sucesso fora do Brasil – prêmio da crítica no Festival de Moscou, melhor direção no Festival de Cinema de Nova York, melhor fotografia no Festival de Lima (Peru) e muitos elogios em mostras na Holanda, na Coréia e na Austrália -. Na verdade, a qualidade da produção nos faz esquecer em muitos momentos que estamos assistindo a um típico made in Brazil. A começar pela magnífica fotografia de José Roberto Eliezer, desde já a melhor em filme nacional neste ano. Bem escura, desbotada, quase o tempo todo em tons de preto, cinza e azul, nos remete imediatamente aos clássicos do expressionismo alemão – a cena em que Nina foge de supostos “algozes” traz muitas semelhanças à obra-prima silenciosa M, O Vampiro de Dusseldörf (1931),e sua direção de arte é uma homenagem explícita a O Terceiro Homem (1949), com Orson Welles.

Já a montagem de Estevan Santos, ora tradicional ora acelerada, e a trilha sonora de Antônio Pinto, uma mistura tecno-clássica, lembram bastante Réquiem Para Um Sonho e traduzem bem o acelerado processo de “decomposição” de Nina. E uma sacada bem interessante da direção foi misturar live-action e animação, principalmente para ilustrar as transformações psíquicas de Nina. Além dos detalhes técnicos, a fita é recheada de participações muito especiais, do tipo “piscou, perdeu”. Nisso, podemos ver desfilando pela tela Lázaro Ramos, Mateus Nachtergaele, Selton Mello (que dá medo sem dizer uma única palavra), Renata Sorrah e Sabrina Greve, comprovando mais uma vez o enorme talento que possui. Mas nada é à toa: cada uma das participações estão ali para dizer alguma coisa.

Mas o show mesmo é de Myriam Muniz. A atriz, mais conhecida por seus trabalhos em teatro, simplesmente deu um banho de interpretação como a velha mesquinha e intolerável. Um olhar basta para que a platéia se derreta em medo e ódio. E uma das cenas mais cruéis de Nina – acredite, não são poucas – definem bem a sua Eulália: a mulher, sentada à mesa, assiste com paciência o fim de uma mosca agonizante, fechada num copo de vidro. Eulália não só tem consciência do que é como sente um prazer extremo com aquilo que é. Não há como ficar indiferente às maldades da personagem. E também não há como ficar indiferente ao final deste que, com certeza, é uma das boas surpresas do ano. Uma pena que, assim como as melhores películas independentes que o cinema americano e europeu já produziu, o clima pesado do longa dificilmente cairá nas graças do público em geral.

NINA • BRA • 2004
Direção de Heitor Dhalia • Roteiro de Marçal Aquino e Heitor Dahlia
Inspirado no romance “Crime e Castigo”, de Fiotr Dostoiévski

Elenco: Guta Stresser, Myrian Muniz, Milhem Cortaz, Selton Mello, Sabrina Greve, Renata Sorrah, Guilherme Weber.
90 min. • Distribuição: Gullane Filmes.

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