Hotel Ruanda

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 18/08/2005.

Hotel Ruanda (Hotel Rwanda)

Olha, se eu fosse um membro da Academia, esta última edição do Oscar teria me deixado de cabelos em pé, sem sombra de dúvidas. Afinal, os longas concorrentes neste ano eram simplesmente muito bons; não tinha um título que fosse menos que razoável (à exceção, a meu ver, de Em Busca da Terra do Nunca, do qual não gostei nem um pouco e assumo). Imaginem o sufoco destes caras ao escolher um vencedor em cada categoria de modo que não parecesse injusto para quem não levou o prêmio… Alguém como eu surtaria numa situação destas! Bem, eu surto por qualquer coisa, então esqueçam esta última linha. Não que eu ache que o Oscar ainda tenha alguma importância, porque não tem mesmo.

Enfim, o Oscar passou, o Clint merecidamente levou, e a vida continua. E aos poucos, nós, os brazucas, finalmente temos acesso aos filmes menores que marcaram uma obscura presença na listinha dos indicados. E depois de conferir o aclamado drama independente Hotel Ruanda (Hotel Rwanda, 2004) – concorrente nas categorias Melhor Ator, Atriz Coadjuvante e Roteiro – eu me pergunto: “Céus, como puderam deixar esta coisinha de lado?”. O que acontece é que contra fatos não há argumentos: ao lado de Menina de Ouro e A Queda! As Últimas Horas de Hitler, este Hotel Ruanda completa o grupinho dos longas mais importantes da última premiação da Academia. Bonito, sincero, cruel, importante e sem um traço da presunção que inunda 9 entre 10 filmes baseados em fatos reais – sim, eu estou falando de A Lista de Schindler! Pronto, soltei! :-P

A comparação com a menina dos olhos de Steven Spielberg não foi em vão: em Hotel Ruanda, estréia do irlandês Terry George na direção de longas-metragens, um homem também faz sacrifícios inimagináveis e arrisca sua própria carcaça para salvar pessoas que sequer conhece de um acontecimento mais do que trágico – em Schindler, o Holocausto; em Ruanda, uma guerra civil que causou o extermínio de mais de um milhão de inocentes. Entretanto, ao contrário do ricaço Oskar Schindler da vida real (e não do filme, já que Spielberg criou um retrato totalmente maquiado do que realmente foi o homem), o civil Paul Rusesabagina não tencionava lucrar nas costas de ninguém.

No enredo, Paul (Don Cheadle) era o bem-sucedido gerente do Hotel Milles Collines, em Kigali, capital da Ruanda, simpático e cheio de manobras para chamar público. Kigali ficava no meio do fogo-cruzado entre dois grupos rivais, os hutus e os tutsis. Em 1994, um conflito entre as facções está prestes a explodir, e a situação é ignorada pelo mundo e desprezada até mesmo pela ONU, representada pelo oficial Oliver (Nick Nolte). Quando a situação aperta e os hutus invadem Kigali, assassinando qualquer inocente que cruze seu caminho, Paul enche-se de coragem e, tomado por uma espírito de solidariedade, refugia mais de 1.200 pessoas em seu hotel, entre conhecidos e desconhecidos, salvando-os assim do genocídio. Paul sabe que, se depender do restante do planeta, Ruanda pode ser varrida do mapa – algo que os hutus parecem buscar. Pois bem, a história do filme é esta. Só isto. Simples, não?

Onde A Lista de Schindler errou, Hotel Ruanda acertou. Enquanto Spielberg estava mais preocupado em glamourizar a imagem piedosa, complacente e até mesmo divina do alemão (imagem falsa, por sinal), Terry George não se preocupa tanto em explorar a personalidade de Paul Rusesabagina. O que o diretor quer é refrescar a memória do público com relação a um dos episódios mais trágicos da recente história do mundo. O roteiro – escrito por George em parceria com Keir Pearson – disseca o desespero de Paul, seu empenho em salvar quem quer que fosse da morte e as tentativas de compreensão perante o fato de viver numa grande terra de ninguém, esquecida pelo mundo e entregue à sua própria sorte. O protagonista de Hotel Ruanda não precisa chorar sobre um broche e berrar “isto teria valido mais uma vida” para nos comover.

Claro que em muito ajudou a magnífica atuação de Don Cheadle (de Ladrão de Diamantes) como Paul. O ator, um veterano coadjuvante de luxo, nunca precisou fazer muito esforço pra mostrar que sabe atuar, e aqui finalmente tem seus dias de glória. Cheadle entrega uma atuação comedida, crível e absolutamente emocionante, capaz de gerar lágrimas nos olhos de qualquer ser humano sem coração. Outa grande atuação é a da inglesa Sophie Okonedo, também indicada ao Oscar. No papel de Tatiana, a sofrida esposa de Paul, a atriz prova que é um nome a se guardar. O que, infelizmente, já não acontece com Nick Nolte e sua interpretação no piloto-automático. Assim como Imelda Staunton no ótimo O Segredo de Vera Drake, Cheadle e Okonedo são indiscutivelmente a alma de um filme tecnicamente correto e emocionalmente perfeito.

Hotel Ruanda é, acima de tudo, um alerta. Uma fita difícil, de tema muito sério e relevante, que pergunta diretamente ao espectador: você teria culhões de arriscar sua pele pela vida de outros? Não contente com isto, Terry George cava ainda mais fundo: nós, como seres humanos, seríamos capazes de regredir ainda mais do que já regredimos? Prepare-se para sair do cinema com um belo de um peso na consciência por achar que não se esforça o suficiente para fazer com que a humanidade siga seu curso de evolução. Apesar de tudo, Hotel Ruanda nos mostra que, por mais caótica que seja a situação do mundo, sempre há esperanças. Bela mensagem para a terrível época de corrupção política que estamos vivendo.

E enquanto “cinema”, só digo uma coisa: ESQUEÇA O OSCAR. Hotel Ruanda não levou, beleza. Mas bem que merecia. De qualquer maneira, se a Academia fosse algo significativo, todos nós teríamos adorado Shakespeare Apaixonado. Ops, você gostou? Desculpe. Mas eu achei um pé nas partes-onde-o-Sol-não-bate. E a Gwyneth Paltrow é ruim até a medula. Ainda bem que eu não sou membro da Academia, senão já teria, no mínimo, enfartado metade daquele povo. :-P

CURIOSIDADES:

• O diretor Terry George assinou vários episódios e também a produção executiva do elogiado seriado The District. George também escreveu o roteiro do marcante Em Nome do Pai, de Jim Sheridan e estrelado por Daniel Day-Lewis.

• Don Cheadle sempre foi a primeira escolha para o papel de Paul Rusesabagina. Durante o processo de captação de recursos para o longa, investidores sugeriram nomes absurdos para protagonizar Hotel Ruanda, como Wesley Snipes, Mekhi Phifer e até Will Smith, por serem nomes mais fortes no que diz respeito à bilheteria. Uma prova concreta de que executivo de Hollywood é uma raça que deveria mesmo ser extinta…

• O roteirista Keir Pearson passou um ano escrevendo a primeira versão do roteiro. Durante este tempo, Pearson precisou entrar em contato com a embaixada de Ruanda em Washington. Para sua surpresa, a mulher que o atendeu é uma sobrevivente da chacina de 1994, que só conseguiu se salvar por ter se refugiado no Hotel Milles Collines.

HOTEL RWANDA • ING/ITA/AFR • 2004
Direção de Terry George • Roteiro de Keir Pearson e Terry George
Elenco: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Nick Nolte, Joaquin Phoenix, Cara Seymour.
121 min. • Distribuição: Imagem Filmes.

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