Domino – A Caçadora de Recompensas

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 16/11/2005.

Domino - A Caçadora de Recompensas

“Uau, isto dá um filmaço!”. Foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça quando conheci a história da vida de um certa fulaninha inglesa chamada Domino Harvey; a trajetória da garota, nascida em 1969, é tão estranha, intrigante e carregada de elementos cinematográficos que você chega até a duvidar que a jovem realmente passou por tudo o que passou.

Senão, vejamos: Domino Harvey, filha do cultuadíssimo ator das antigas Lawrence Harvey (mais conhecido por seu papel no clássico suspense político Sob o Domínio do Mal, a primeira versão), viu seu pai falecer quando ainda tinha quatro anos, foi largada em um colégio interno pela mãe (que preferiu se mandar para os EUA e curtir a boa vida ao lado de um novo troux… digo, marido) e, mesmo nadando na grana e com uma promissora carreira de modelo nas costas, jogou tudo para o alto e decidiu tornar-se uma caçadora de recompensas (!) e caçar foragidos da justiça ao lado de um bando de malucos veteranos da Guerra do Vietnã. O motivo? Ah, Domino só queria mesmo se divertir um pouco.

De posse destas informações, não me restou muito além de ficar totalmente empolgado com o longa autobiográfico Domino – A Caçadora de Recompensas (Domino, 2005). E saber que o roteiro seria assinado por ninguém menos que Richard Kelly, a mente doentia que escreveu e dirigiu Donnie Darko, só me deixou ainda mais nervoso de ansiedade. Para completar o caldo, a recente notícia da morte da verdadeira Domino, envolta em mistério (leia mais nas curiosidades abaixo), ajudou a criar um clima altamente mitológico para a figura e, conseqüentemente, para o filme.

O problema é que esqueci de um pequeno detalhe, que atende pelo nome de Tony Scott. O diretor, que criou “jóias” como Inimigo do Estado e Top Gun: Ases Indomáveis (ugh), e também é conhecido como o irmão menos talentoso de Ridley Scott, assumiu as rédeas da produção e fez aquilo que sabe fazer de melhor (oi?). Aí é que se encontra a má notícia: Domino, que tinha tudo para se tornar um filmaço com F maiúsculo, totalmente bizarro e verdadeiro, transforma-se num imenso videoclipe de pouco mais de duas horas de duração. Pô, se é pra assistir MTV eu fico em casa! Pelo menos não gasto dindim no ingresso. Tudo bem que faria qualquer coisa em casa, menos assistir MTV, mas isto é outra história. :-P

Não que o filme seja assim tão ruim: afirmar que Domino causa males irreversíveis à sua saúde é exagero. Só que o roteiro encomendado de Kelly – me recuso a acreditar que o script é de autoria do pai do Donnie Darko – e a direção mais do que exagerada de Scott fazem a trama seguir por um caminho errado. A fita parece estar visivelmente muito mais preocupada com seu visual arrojado, sua fotografia de Adobe Photoshop e sua montagem acelerada do que com um enredo em si.

Nesta brincadeira toda, o que o longa poderia ter de mais interessante fica em segundo plano – que é justamente… Domino. Sua vida nem mesmo é contada fielmente, como os créditos tratam de alertar logo na primeira cena para evitar reclamações posteriores: baseado numa história real… ou quase isso. E me desculpem os mais desencanados, mas defendo que uma cinebiografia de uma figura tão misteriosa como Domino Harvey não poderia deixar de ser séria e centrada em momento algum.

A estrutura narrativa é das mais banais: na cadeia, Domino (Keira Knightley, que segura as pontas numa boa) conta sua história à agente do FBI Taryn Miles (O-Ren Ishii… ops, Lucy Liu), encarregada de interrogá-la sobre um esquemão envolvendo alguns milhões de dólares, na qual a garota estaria supostamente envolvida. Em flashbacks, vemos os conflitos com a mãe, Sophie (Jacqueline Bisset, ainda muito linda), sua conturbada adolescência e o momento em que ingressa na profissão de caçadora de recompensas ao lado de Ed Mosbey (Mickey Rourke) e Choco (o venezuelano Edgar Ramirez), que também servirá de apelo romântico para a mocinha… que mania de colocar romance em tudo! Afe! Ah tá, esqueci. É Hollywood. Eles fizeram o mesmo com O Guia do Mochileiro das Galáxias. :-P

Como você pode ver, não sobram muitos atrativos para curtir Domino sem pensar na dor de ter desembolsado seu suado dinheiro no ingresso – a ótima presença de Christopher Walken não conta, pois o cara é hour-concours. :-D Logo, só o que fica mesmo é a montagem típica de MTV, que até agrada nos primeiros instantes, mas depois fica extremamente cansativo e repetitivo. E uma pergunta: por que cargas d’água os norte-americanos não perdem esta mania horrorosa de entupir a trilha sonora com hip-hop? Céus, todo filme ianque é infestado de hip-hop!

No saldo geral, Domino não chega a ser péssimo, trágico, medonho. É apenas um projeto desenvolvido de maneira extremamente errada. A julgar pela esquisitice que foi a vida de Domino Harvey, ela merecia um legado bem mais significativo do que um mero videoclip hip-hop extendido em duas horas e tralalá. :-P

CURIOSIDADES:

• A verdadeira Domino Harvey foi encontrada morta na banheira de seu apartamento em Los Angeles, na manhã de 27 de Junho de 2005. A causa da morte, segundo os legistas, foi uma overdose acidental de um remédio chamado Fentanyl. Há quem diga que Domino foi mesmo é assassinada. E também tem muita gente por aí que acredita que a garota está viva e escondida em algum canto. Tem gente que acredita em cada coisa…

• Tony Scott conheceu Domino Harvey em 1995, dez anos antes de pensar em realizar um longa contando sua história. Ainda assim, o cineasta garantiu os direitos para uma possível futura produção. Scott só cogitou a possibilidade de transformar a vida de Domino em filme quando Richard Kelly assumiu o roteiro. Isto aconteceu em 2002. Bem, com um roteiro do cara, eu assisto até filme da Eliana “acho que sou talentosa” Fonseca. Pensando bem… não, não assistia não. :-P

• O personagem de Mickey Rourke é inspirado no caçador de recompensas Zeke Unger, enquanto o papel de Delroy Lindo é uma versão romanceada de Celes King III, o chefe de Domino Harvey na vida real. Tanto Unger quanto King trabalharam nos sets de Domino como consultores.

DOMINO • EUA/FRA • 2005
Direção de Tony Scott • Roteiro de Richard Kelly
Elenco: Keira Knightley, Mickey Rourke, Edgar Ramirez, Lucy Liu, Mena Suvari, Delroy Lindo, Mo’Nique, Dabney Coleman, Ian Ziering, Brian Austin Green, Tom Waits, Macy Gray, Jacqueline Bisset e Christopher Walken.
127 min. • Distribuição: New Line Cinema/UIP.

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