Cleopatra

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 09/12/2004.

Cleopatra

Você já parou pra pensar na possibilidade de chegar à velhice e ver que seus sonhos, que moviam sua vida, não se realizaram? Bem, é o que acontece com a maioria das pessoas, infelizmente – já que vivemos num mundo em que o caos financeiro não permite que as pessoas lutem pelo que desejam. E foi justamente o que aconteceu com a sessentona Cleopatra, senhora argentina que alimentava a idéia de ser atriz, mas de repente se viu sozinha, aposentada do sub-emprego de professora, distante dos dois filhos (que moram no exterior) e amargando bicos cruéis pra pagar as contas e cuidar do marido desempregado e alcóolatra.

Este é o ponto inicial de Cleopatra (Idem, 2003), novo longa do conceituado diretor Eduardo Mignogna. A produção, vencedora dos prêmios de Melhor Filme Estrangeiro no Festiva de Fort Laudelaire, na Flórida, e de Melhor Filme Latino Americano no Festival de Montréal, é alardeada como uma “versão latina de Thelma & Louise“, mas está muito aquém disso. Pra falar a verdade, apesar dos vários momentos bons da película, é mais um exemplar típico daquelas produções que não incomodam ninguém, mas que devem ser vistas somente quando passar na Sessão da Tarde daqueles dias chuvosos em que você está com muita preguiça de ir até a locadora.

Bem, a tal Cleopatra (interpretada pela premiada Norma Aleandro com muita paixão) não agüenta mais o marido resmungão e a vida quase miserável que leva. Por intermédio de uma conhecida, consegue um teste para fazer um papel em uma novela. O teste rola trágico – aliás, o teste não rola, numa cena ao mesmo tempo incômoda e cativante -, mas pra alguma coisa o negócio serviu: Cleopatra conhece Sandra (a linda Natalia Oreiro, popularíssima na Argentina por conta do papel que tem na novela Muñeca Brava), atriz que TV bulímica e rebelde que é justamente seu oposto: tem fama, fortuna e beleza, e no entanto não é feliz. Duas mulheres: uma que é tudo o que esperam dela, e a outra, que é somente aquilo em que a transformaram.

Em um acesso de loucura (ou sanidade, dependendo da forma com que a atitude seja vista), Sandra e Cleopatra decidem largar tudo, abandonar Buenos Aires e pôr o pé na estrada, sem rumo definido. A partir daí, acontecem todos os clichés básicos de road movies: as duas provocam um acidente e o carro quebra, forçando-as a pedir carona. O caronista, Carlos (Leonardo Sbaraglia, outro excelente ator), logo desperta a simpatia da indomável Sandra e da simpática Cleopatra, e os três seguem rumo juntos. Muitas aventuras depois, terminam a viagem no povoado de Mendoza – destino de Carlos antes de oferecer carona às mulheres – com suas vidas mudadas profundamente.

E é só isso. Como já disse antes, mesmo com os vários momentos bons do filme – como por exemplo o primeiro contato mais íntimo entre Sandra e Carlos, deitados no quintal de um casebre enquanto ele traduz uma música para Sandra, completamente emocionado -, o longa não decola. O roteiro merecia um desenvolvimento mais cuidadoso, e em certos momentos cai na pieguice total. Em outros, então, dispersa completamente a atenção do espectador. O filme começa chato, dá uma crescida legal com meia hora de projeção e, perto do final, cai novamente.

Já em termos de atuação, Cleopatra está bem servido: Norma Aleandro, Leonardo Sbaraglia e Hector Altério, que interpreta o marido de Cleopatra, seguram a onda tranqüilamente, o que não se pode dizer de Natalia Oreiro, que mesmo não sendo péssima, consegue irritar em certas horas. A trilha sonora incidental de Paco Ortega é um espetáculo à parte, o que já não pode-se dizer das incômodas canções que rolam durante a projeção. A direção de arte de Margarita Jusid é ótima, com direitos a paisagens belíssimas das montanhas e das estradas argentinas. E a cena final, mesmo “terminando várias vezes” (assista e entenderá), é muito boa.

Com tantos elementos positivos no conjunto, é de se estranhar que Cleopatra não tenha dado certo. O que é uma pena, pois a idéia central do roteiro é até muito interessante. Como a própria Cleopatra diz em muitos diálogos da fita: “Agora eu tenho duas alternativas: fazer o que eu quero e fazer o que eu preciso…”. Parece que o diretor Eduardo Mignogna foi forçado a fazer esta mesma escolha, e optou por não ousar. Faltou paixão do diretor com relação ao enredo e aos personagens. É como se o próprio Mignogna não compreendesse as razões emocionais das duas mulheres em abandonar o comodismo e se aventurar ao desconhecido. Como uma pessoa que não entende um sentimento arrisca falar sobre este sentimento?

Mas Cleopatra não é nenhuma tragédia. É um trabalho interessante de se conferir, com ótimos atores, mas não chega a valer o ingresso do cinema. Ainda mais num final de ano tão competitivo e cheio de opções como este.

CURIOSIDADES:

• A atriz Norma Aleandro e o ator Hector Altério já fizeram par em vários outros filmes, dentre eles o belo A História Oficial (1985), vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e o cultuadíssimo O Filho da Noiva (2001), indicado ao Oscar nesta mesma categoria e vencedor de três prêmios no Festival de Gramado.

• Com raízes fincadas nos palcos, Norma Aleandro fez muito sucesso interpretando a soprano Maria Callas no espetáculo Master Class, encenado no Brasil há pouco tempo e com Marília Pêra no elenco.

• Assim como sua colega de elenco, o ator Leonardo Sbaraglia (que se tornou conhecido no resto do mundo com seu polêmico papel no ótimo Plata Quemada) também veio do teatro. O espetáculo que o tornou famoso foi Closer, que neste ano ganhou uma versão cinematográfica com Jude Law e Natalie Portman.

CLEOPATRA • ARG/ESP • 2003
Direção de Eduardo Mignogna • Roteiro de Eduardo Mignogna e Silvina Chague
Elenco: Norma Aleandro, Natalia Oreiro, Leonardo Sbaraglia, Hector Alterio, Alberto de Mendoza.
104 min. • Distribuição: Buena Vista International.

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