Apocalypto

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 25/01/2007.

Apocalypto

Le saajkilo jump’eel k’oja’anil. Jo’os ta puksi’ik’al.

Que o australiano Mel Gibson é muito mais do que um simples ator de filmes de ação-comédia, isso toda a Via Láctea já sabe. E cá entre nós, o cara já passou faz tempo da fase de precisar provar que tem talento naquela outra área cinematográfica que decidiu explorar: a direção. Que me desculpem os detratores, mas o sujeito ainda não “cometeu” nenhum filme ruim enquanto diretor. Senão vejamos: temos O Homem Sem Face (1993), que é simplesmente tocante, ainda que simplório; temos Coração Valente (1995), que dispensa qualquer apresentação; e temos A Paixão de Cristo (2004) que, polêmicas idiotas e desconexas à parte, é um pusta de um filmão muito bem dirigido. Mel Gibson não é somente um ator que resolveu se aventurar na direção e escolheu bem seus projetos. Mel Gibson é um cineasta de verdade. E dos bons, viu?

O mais interessante na carreira de Gibson atrás das câmeras é que o cara vem se superando a cada trabalho que dirige, e isto não tem nada a ver com o resultado final de seus filmes. Tem a ver com perfeccionismo técnico. Para alguém que tem muito pouco tempo de prática nesta área, é impressionante como o australiano domina cada elemento de seus filmes, desde os enquadramentos de cena até as atuações de seu elenco – e este domínio de técnica cinematográfica é algo que ainda falta em muito cineasta veterano por aí (alguns até têm, mas andam falhando consideravelmente – preciso dizer de QUEM estou falando?). Bem, todo mundo pode acusar Mel Gibson de qualquer coisa, menos de ser um diretor ruim. Goste ou não de suas obras, elas são extremamente bem realizadas e ponto final.

Apocalypto (Idem, 2006), quarto filme assinado pelo eterno Mad Max, chega para abrir mais um parêntese nesta sua nova carreira. Afinal, estamos falando de uma produção complexa por natureza – uma aventura ambientada na América Central de cerca de 1.500 A.D., berço da mitológica civilização Maia e às vésperas da caótica invasão e colonização européia, e toda falada em dialeto maia – e que poderia se perder facilmente nas mãos de quem não entende do assunto. Não é o caso de Gibson, indivíduo que não se intimida e esfrega na tela o que for preciso para contar sua história da maneira que deve ser contada. O resultado é uma produção poderosa, incisiva, visceral, perfeita em seu aspecto técnico e que por muito pouco não empata com Coração Valente no posto de melhor filme do sujeito. E só não empata porque, vamos concordar, Coração Valente é uma pequena obra-prima que dificilmente será superada no currículo do meliante, não é? :-D

Curiosamente, a grande sacada de Apocalypto é justamente não se render ao status de “épico” ao qual está propenso a cair. Sim, estamos falando de uma produção ambientada em pleno conflito de dissolução da civilização maia, mas no fundo não importa onde a ação acontece, e sim COM QUEM acontece. E acontece com Jaguar Paw (o ótimo Rudy Youngblood), jovem caçador de uma pequena aldeia indígena perdida no meio da floresta tropical do México. Jaguar Paw leva uma vida sossegada ao lado de seus companheiros da aldeia e também de sua esposa, e espera pacientemente o nascimento de seu segundo filho, ao mesmo tempo em que tenta lidar com o fato de que, um dia, hierarquicamente deverá se tornar um grande guerreiro. O problema é que Jaguar Paw ainda não se sente preparado para tal. Ele ainda sente medo, medo de lutar, medo de perder aqueles que são fundamentais em sua vida.

O pega-prá-capá começa pra valer com apenas 15 minutos de filme, quando a aldeia de Jaguar Paw é invadida por um grupo de caçadores de recompensas liderados por Zero Wolf (Raoul Trujillo). Muitos são dizimados e os poucos que sobrevivem são capturados pelo bando. Inclusive Jaguar, que só teve tempo de esconder sua mulher e filho em um local seguro da tribo de assassinos, mas um esconderijo tão mortal quanto eles… Assim, Jaguar e alguns de seus compatriotas são forçados por seus algozes a seguir viagem pela floresta, rumo à Grande Cidade Maia. O que acontece é que a civilização maia, à beira de um colapso, sofrendo com a fome e já em franca decadência, acredita que a solução para acabar com a fome e a miséria é construir mais pirâmides e fazer mais sacrifícios humanos aos deuses – e a tribo de Jaguar Paw será gentilmente oferecida (em troca de uns trocadinhos, claro) a ter seus corações arrancados e suas cabeças decepadas pelo futuro dos maias…

Um incidente, no entanto, fará com que Jaguar Paw consiga escapar. Agora, seu único objetivo é superar seus próprios temores para atravessar a floresta, chegar em casa a tempo de salvar sua família… E salvar a si mesmo das garras do clã de mercenários, que estão “pê” da vida com a fuga do rapaz e não medirão esforços para arrancar sua pele.

Tá, ok, a trama de Apocalypto não parece ser tão excepcional assim quando se lê uma resenha destas. Mas a coisa toda muda de figura quando transposta para a telona: não estamos falando de “apenas um espetáculo visual”, embora Apocalypto seja, de fato, um senhor espetáculo – por sinal, aviso desde já que esta é uma produção para se ver NO CINEMA, na tela grande. Mel Gibson entrega um punhado de seqüências de tirar o fôlego: é impossível se controlar na cena do ataque da tribo dos caçadores de recompensas, na brilhante seqüência do sacrifício (pelamordedeusedenossasenhora, que aflição!), na cena do “vocês estão livres, basta correr”, na aterrorizante seqüência da cachoeira… Percebe-se um cuidado todo especial com os enquadramentos de cena, com a bela fotografia, com as imagens captadas em High Definition…

Por outro lado, dá pra notar o tempo todo que este não é o centro do filme. Por mais que Apocalypto seja uma balde de maravilhosos cenários e também um banho de sangue (sim, o troço é tão leve que, em uma das passagens mais “calminhas”, um jaguar devora o ROSTO de um sujeito, o ROSTO!), o cuidadoso roteiro, escrito pelo próprio Mel Gibson em parceria com Farhad Safinia, é centrado sobretudo na tridimensionalidade de seus personagens. Primeiro, não estamos ali para ver uma história ambientada no declínio da civilização maia, e sim para ver a história de um sujeito que aprende na marra a ultrapassar suas próprias barreiras em prol do bem daqueles que ama. É muito fácil se comover com o martírio de Jaguar Paw, principalmente por causa da ótima interpretação de Rudy Youngblood – basta um olhar mais furioso do ator para que o espectador entenda tudo o que se passa em sua mente.

Num saldo geral, Apocalypto é uma produção que tem tudo para agradar desde o mais ferrenho dos espectadores-cabeça até o público que só quer mesmo se divertir na sala escura, além de representar uma aula de como se fazer cinema. Tem ação a dar com o pau, cenas de lutas memoráveis e muito bem coreografadas, um uso bem criativo de cenas em câmera lenta, e uma história fácil, mas cheia de profundidade. Não é, óbvio, o documento definitivo sobre a história dos maias – e nem quer ser. De qualquer forma, Mel Gibson já ganhou o posto de um dos melhores cineastas em atividade no circuitão estadunidense. Tá bom ou quer mais? ;-)

CURIOSIDADES:

• O termo apocalypto significa “um novo começo”.

• Em várias seqüências da fita, Jaguar Paw é chamado de “quase” por um de seus pretensos algozes. Esta é uma referência à própria adolescência de Mel Gibson; em entrevistas, o diretor contou que, em sua época de colégio, chegou a ser vítima de bullying por parte de um ou outro aluno mais velho, e era constantemente chamado de “quase”, no sentido pejorativo da palavra. Retratar alguém sendo chamado de “quase” e mostrar a superação de seus limites foi a forma que Gibson encontrou de exorcizar este fantasma.

• Embora o elenco de Apocalypto conte com alguns atores profissionais semi-desconhecidos, como é o caso de Raoul Trujillo (que já atuou em diversos seriados norte-americanos), o cast é quase totalmente recheado de maias que nunca atuaram na vida. Alguns deles, inclusive, sequer sabiam o que é cinema, caso da atriz-mirim que vive a garotinha doente que amaldiçoa o grupo de caçadores de recompensas em um dos momentos mais tensos da película.

• Os atores que aparecem no teaser-trailer não são os mesmos atores do filme. Estranho, não? Curiosamente, um dos atores que dão as caras no preview é o próprio Mel Gibson, que aparece no cantinho da tela, em menos de dois segundos.

• A instabilidade do clima na floresta tropical do México, onde foi rodada boa parte das tomadas de Apocalypto, quase detonaram o filme. As intensas variações de temperatura forçaram a equipe técnica a desenvolver equipamentos improvisados para proteger as câmeras. As fortes chuvas atrasaram a produção em pelo menos 4 meses.

• Durante as filmagens da seqüência em que Jaguar Paw deve enfrentar uma cachoeira de 170 pés de altura (mais ou menos 51,8 metros), a equipe de produção foi surpreendida por um fato bizarro e insólito: uma vaca apareceu do nada, tentou atravessar o riacho de um lado a outro e acabou carregada pela correnteza, indo direto para a cachoeira. Depois da queda, o animal desapareceu na água e não voltou à superfície. Mas quando todos pensavam que a vaca tinha ido literalmente para o brejo (!), eis que a vaquinha levanta-se, segue para uma das margens do rio e vai comer seu pastinho lá no meio do mato, como se nada tivesse acontecido… :-D

APOCALYPTO • EUA • 2006
Direção de Mel Gibson • Roteiro de Mel Gibson e Farhad Safinia
Elenco: Rudy Youngblood, Dalia Hernandez, Raoul Trujillo, Gerardo Taracena, Rodolfo Palacios, Ariel Galvan, Jonathan Brewer, Morris Birdyellowhead, Carlos Emilio Baez, Ramirez Amilcar, Israel Contreras.
139 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

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2 respostas para Apocalypto

  1. Zezinho disse:

    Para quem tiver curiosidade, ao assistir o filme pare a exibição em 01:31:37 e verão um quadro que quase passou imperseptível.

  2. VC escreve simples, mas de maneira inteligente. Tem sensibilidade e relata isso, não sai escrevendo “qualquer coisa”.. Seu texto é muito bom.. Excelente!.. (FUI…)

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