Os Garotos Perdidos

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 20/10/2004.

Os Garotos Perdidos (The Lost Boys)

Sempre que ouço falar no nome de Joel Schumacher, minhas pernas tremem. Isso porque a primeira coisa que me vem à cabeça é Batman & Robin. Sim, o bat-cartão de crédito, o close na bunda do George Clooney e tudo o mais. O lance fica ainda mais obscuro quando lembro que Schumacher também foi responsável por outras “jóias” da cinematografia, como Tempo de Matar (1996), O Cliente (1994) – estes dois inspirados em obras do escritor John Grisham, o que comprova que o diretor deveria ser proibido de chegar perto de qualquer livraria – e o pior de todos, aquilo que costuma atender pelo nome de Tudo por Amor (1991) – é, aquele com a chatona da Julia Roberts e a musiquinha-chiclete do Kenny G. Como se pode ver, a filmografia de Joel Schumacher é excelente para o Halloween: dá muito medo!

Mas o negócio não é tão ruim quanto aparenta: Schumacher também é responsável por trabalhos muito bons. O cara já retratou com doses cavalares de suspense o aterrorizante submundo da pornografia no nervoso 8MM (1999), entregou uma das melhores interpretações da carreira de Michael Douglas com o excelente Um Dia de Fúria (1993), apresentou Colin Farrell ao mundo no elogiado drama de guerra Tigerland – A Caminho da Guerra (2000) e ainda transformou uma cabine telefônica no palco de um exercício de medo e tensão em Por Um Fio (2002), também estrelado por Farrell. Um dos primeiros trabalhos de Schumacher é também um de seus melhores filmes, e o longa que se tornou um divisor de águas no gênero terror: o fantástico Os Garotos Perdidos (The Lost Boys, 1987), que ganhou merecidamente uma edição especial em DVD este mês.

Os Garotos Perdidos foi o filme que chamou a atenção de vez para o nome do diretor, que até então dirigira somente cinco longas-metragens – entre eles, o cliché da sessão da tarde O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (1985) -, sendo que destes cinco, dois foram made for TV. O diretor caiu de pára-quedas no projeto, que seria originalmente dirigido por Richard Donner (Mad Max), que não pôde aceitar por problemas de agenda (Donner concluía Máquina Mortífera na ocasião). O roteiro original, escrito por Janice Fischer e James Jeremias, era um terrorzão que falava sobre “crianças vampiras”, idéia repudiada por Schumacher, que exigiu dos produtores algumas mudanças, como por exemplo a transformação dos protagonistas em adolescentes – de modo que pudesse atrair mais os jovens. Para isso, a Warner Bros. contratou Jeffrey Boam (Viagem Insólita, Indiana Jones e a Última Cruzada), que alterou vários conceitos do script e o tornou mais cômico, misturando referências a O Massacre da Serra Elétrica, Superman e A Morte do Demônio.

Vamos à história: ansiosa por uma mudança no rotina depois do recente divórcio, Lucy Emerson (Dianne Wiest) se muda com os filhos Michael (Jason Patric) e Sam (Corey Haim) para a casa do seu pai (Barnard Hughes), na pacífica cidade de Santa Carla, na Califórnia. Na verdade, a cidadezinha litorânea não é tão pacífica assim, como denuncia uma pichação na placa de boas-vindas: “a capital mundial do crime”. Isso se deve a uma série de desaparecimentos seguidos de assassinatos, cujo(s) autor(es) a polícia local não faz idéia de quem seja. Além deste pequeno detalhe, Santa Carla também é tomada por gangues de motoqueiros punks. Bem, devidamente instalados, cada um segue a sua vidinha: Lucy se entrega cautelosamente a um novo romance com Max (Edward Herrman), Sam passa a freqüentar uma banca de gibis usados instalada num parque de diversões e Michael, numa de suas andanças pelo local à procura de diversão, acaba caidinho pela sensual Star (Jami Gertz).

O négocio começa a ficar estranho quando Sam conhece os donos da banca, os irmãos Edgar e Alan Frog (Corey Feldman e Jamison Newlander) – desde já, a melhor coisa do filme -, que se auto-denominam “caçadores de vampiros” e revelam ao incrédulo garoto que Santa Carla está tomada por eles. Michael é envolvido amorosamente por Star, que é somente a garota do líder de uma das gangues da cidade, o enigmático e violento David (Kiefer Sutherland). Não demora muito, e três acontecimentos se sucedem: 1) Michael descobre que os punks liderados por David são vampiros; 2) Michael descobre que a gangue de vampiros liderada por David é a responsável pelos desaparecimentos; e 3) Michael bebe do sangue de David e se torna, também, um vampiro. Mas o roteiro ainda guarda algumas “surpresas”.

Os méritos de Os Garotos Perdidos são vários: a começar, o elenco está afinadíssimo e em total sintonia, principalmente no que se diz de dois dos maiores ícones adolescentes do cinema oitentista: Corey Haim e Corey Feldman. O roteiro, uma metáfora violenta sobre alienação juvenil e consumismo desenfreado disfarçada de filme de terror, retrata e muito bem a onda punk que se instalou entre o final dos anos 70 e boa parte dos 80, tão bem aproveitada em outros notórios longas como Warriors, Os Sevagens da Noite (1979) e Repo Man – A Onda Punk (1984). A fotografia de Michael Chapman (Taxi Driver) fica no meio termo entre a escuridão total e as cores vivas e claras do dia e dos figurinos típicos dos anos 80 – tática bem sucedida para atrair os mais jovens para uma fita que poderia ser rejeitada por seu rótulo punk. E por último, a trilha sonora é bem bacana, e lançou as canções Cry Little Sister, do Gerard McMann, e a fantástica People Are Strange, cover do Echo & The Bunnymen para a clássica dos Doors.

Os Garotos Perdidos estreou nos cinemas ianques em 31 de Julho de 87, em cerca de 1.025 salas (pois é, o filme é da Warner…), e gerou US$ 5 milhões e 200 mil dólares em seu primeiro final de semana em cartaz, uma média bem razoável para um filme de terror. A popularidade do longa foi crescendo através da propaganda boca-a-boca, e fechou seu caixa com mais ou menos 35 milhões, um sucesso na época. A produção ganhou o prêmio de Melhor Filme de Horror no Saturn Awards de 1988, que abrange longas de fantasia, e isto só aumentou sua popularidade, que estourou de vez com o advento do video-cassette, onde foi campeão absoluto de vendas. Como se não bastasse, ainda deu uma guinada na carreira de muitos dos envolvidos no projeto.

Por mais que tenha envelhecido um pouco, e realmente envelheceu, Os Garotos Perdidos ainda é uma ótima pedida pra dar uma incrementada numa sessãozinha básica de filmes de terror: é engraçado, empolgante, tem efeitos especiais e maquiagens muito bacanas e a história não ofende a inteligência de ninguém. Portanto, esqueça os filmecos chinfrins de terror que andam aparecendo por aí e fique com este mesmo. Como a própria tagline diz, se depender deste filme, ser vampiro é o maior barato! E por favor, não deixem mais o Joel Schumacher fazer trabalhos com a Julia Roberts! E nem com o George Clooney! Schumacher consegue ser bom quando quer!

CURIOSIDADES:

• O título de Os Garotos Perdidos é uma referência aos amigos de Peter Pan que nunca crescem no clássico conto de J. M. Barrie.

• A cidade de Santa Carla, palco da ação do filme, na verdade se chama Santa Cruz, e fica na Califórnia. As autoridades locais exigiram que o nome do lugar fosse alterado no roteiro, para não obrigar a população (e o resto do país) a reviver um pesadelo ocorrido no local. Santa Cruz ficou conhecida durante os anos 70 como “a capital mundial do crime” – assim como a fictícia Santa Carla também o é – por conta dos ataques de um serial killer.

• O ator John Carradine era o escolhido para interpretar o papel de Barnard Hughes, mas estava muito doente na ocasião das filmagens, vindo a falecer no ano seguinte. John Carradine era pai de David Carradine, o nosso prestigiado Bill da última produção de Quentin Tarantino (todo mundo sabia disso, mas tudo bem!).

Os Garotos Perdidos está presente em várias coletâneas do tipo “os diálogos mais bacanas do cinema”. Todos os diálogos citados nestes livros pertencem aos Irmãos Frog, donos dos pontos altos do filme.

• Apesar de não ter nada a ver com cinema em si, esta é tão estúpida que eu não podia deixar de citar aqui: Kiefer Sutherland, ex-noivo de Julia Roberts, rompeu o romance com a “atriz” por conta da clara preferência do ator em passar o tempo com seus camaradas, em especial seu melhor amigo Jason Patric. Ironicamente, a amizade entre os dois atores se dissolveu depois que Kiefer e Julia terminaram o romance e ela se mandou para a Europa, com um suposto novo namorado. Jason Patric.

• Dianne Wiest é uma grande atriz, sem dúvidas. Mas ela cometeu uma das maiores gafes de toda a história da indústria cinematográfica em Os Garotos Perdidos: em pelo menos duas cenas, ela se refere ao personagem Max (Edward Herrman) como Ed, o nome verdadeiro do ator. O mico é ainda maior tendo em vista que o montador Robert Brown, colaborador freqüente de Joel Schumacher, não reparou neste detalhe. As cenas ainda constam na montagem final.

MOMENTO SPOILER I: O personagem David, mesmo sendo empalado ao final do longa, não se desintegrou como os outros vampiros. Este detalhe se deve a um fator: na verdade, David não morreu, e retornaria para se vingar numa suposta seqüência do filme, que nunca aconteceu e até hoje é discutida entre os executivos da Warner. Há um boato forte de que a parte dois sairá nos próximos anos, mas nada é confirmado.

MOMENTO SPOILER II: Os Garotos Perdidos é muito conhecido por sua antológica cena final, a hilária frase do avô enquanto bebe uma cerveja em frente à geladeira. Esta cena foi adicionada às pressas para cobrir o final original. Na montagem inicial, o filme terminaria com os sobreviventes da gangue de David se reunindo em um hotel abandonado. Pregado à uma parede, haveria um mural datado de 1900, com uma foto de Max, exatamente como o personagem se encontra na época da trama, 1987.

THE LOST BOYS • EUA • 1987
Direção de Joel Schumacher • Roteiro de Janice Fischer, James Jeremias e Jeffrey Boam
Elenco: Jason Patric, Corey Haim, Dianne Wiest, Barnard Hughes, Edward Herrmann, Kiefer Sutherland, Jami Gertz, Corey Feldman, Jamison Newlander, Brooke McCarter, Billy Wirth, Alex Winter, Chance Michael Corbitt.
97 min. • Distribuição: Warner Bros.

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