Reencarnação

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/03/2005.

Reencarnação (Birth)

No cultuado clássico Morte em Veneza (1971), do grande cineasta Luchino Visconti (1906-1976), o compositor sessentão Gustav Von Aschenbach, com a saúde debilitada, resolve passar férias em Veneza para descansar e se recuperar. Uma vez lá, encontra a ruína e a depressão ao se apaixonar cegamente por um rapaz de 14 anos chamado Tadzio que, além de encantar o músico, parece também estar correspondendo às investidas do homem. A ambigüidade do garoto funciona em Gustav como uma sessão de tortura com precisão cirúrgica, e leva o compositor a um destino trágico que… Bem, se você não viu ainda, não vou estragar tudo aqui. :-D

Esta obra-prima absoluta do cinema italiano, inspirada no livro homônimo de Thomas Mann, marcou época por vários fatores: a ousadia de seu enredo; a lenta e minunciosa degradação física e psicológica de Aschenbach, acentuada pela aterrorizante interpretação do falecido ator Dirk Bogarde; e as magníficas seqüências gigantes, quase sem diálogos e embaladas pela angustiante música do compositor Gustav Mahler – em quem o personagem Aschenbach, diz a lenda, seria supostamente inspirado. Estas seqüências ininterruptas renderam à película o glorioso e duradouro apelido de “clássico do olhar”.

E por que falar de Morte em Veneza quando deveríamos falar de Reencarnação (Birth, 2004)? É que este novo longa-metragem, mesmo sem qualquer ligação com o primeiro, lembra bastante a fita de Visconti. Assim como Gustav Von Aschenbach, a personagem Anna, interpretada por Nicole Kidman, também sofre por amar alguém e sequer poder chegar perto desta pessoa. O alvo de adoração aqui também é um jovem – por mais que, neste caso, diga ser outra pessoa. O clima frio e soturno também se faz presente, além da ausência de diálogos. E a fita também é cheia de longas tomadas com músicas clássicas ao fundo.

A diferença (sim, existe uma!) é que o diretor de Reencarnação, Jonathan Glazer, não é Luchino Visconti. Ele apenas “acha” que é, quando na verdade está a anos-luz de ter o talento do cineasta italiano. Este mesmo talento, aliás, lhe falta na direção de atores e também na elaboração do roteiro. Glazer quer que Reencarnação seja o seu Morte em Veneza, e que cause em crítica e público o mesmo impacto que a fita italiana causou em sua época. Mas não consegue. E o que poderia se tornar um ótimo ensaio sobre sanidade, revela-se apenas uma fitinha pretensiosa e muito, mas muito cansativa, capaz de acabar com a insônia de qualquer um! Tanto que, depois de meia hora de exibição, o pessoal já não conseguia mais ficar parado na cadeira. Era um tal de “mexe pra cá” e “mexe pra lá” que vou te contar, meu… :-)

O pior é que a idéia central tinha tudo pra render um bom trabalho. E Reencarnação até começa bem, com um belíssimo plano-seqüência de um homem correndo pelo Central Park num dia de nevasca, ao som de uma canção orquestrada que parece se encaixar perfeitamente com a cena. Depois de alguns minutos, o homem cai e morre, vítima de um infarto fulminante ou algo do gênero. E a parte boa termina aqui. Passam-se dez anos, e conhecemos Anna, viúva do homem, executiva bem-sucedida que está prestes a casar novamente, no caso com o também executivo Joseph – embora fique bem claro para nós desde o início que ficar com o cara não é bem o que a moça quer.

No dia do noivado, em um episódio que parece não ter conexão com a trama, uma amiga de Anna, Clara, corre para o mesmo Central Park e enterra a caixa de presente que levava nas mãos; em seguida, pára em alguma lojinha, compra um outro presente qualquer e segue para a festa que a família de Anna dá em seu luxuoso apê. Durante a festa, um garoto de dez anos invade o apartamento e declara a quem quiser ouvir que é a reencarnação de Sean, o marido morto. E pede a Anna que não se case com Joseph. Aos poucos, a moça, que inicialmente não acredita no menino, vê plantada a semente da dúvida, e sua paixão pelo ex-marido desperta novamente. O problema: se Sean realmente reencarnou, agora ele está no corpo de um pivete de 10 anos de idade – o que não impede que a executiva teime, contra a vontade da mãe, em manter o garoto perto de si e, quem sabe, até se envolver amorosamente com ele… Vixe!

A idéia de Reencarnação é excelente. Daria um trabalho ducaramba. Só que Glazer, diretor do bonzinho Sexy Beast, quis dar um tratamento cult e elegante demais à trama, enchendo-o dos tais planos-seqüências silenciosos e apostando alto no visual refinado. Nisso, seu roteiro – co-escrito em parceria com Milo Addica (A Última Ceia) e Jean-Claude Carrière (roteirista habitual de Luis Buñuel e Jean-Luc Godard) – esquece de cuidar do principal: os personagens. Afinal, não adianta nada construir um mosaico cuja beleza encha os olhos do espectador, se os papéis são rasos. Além, claro, da destruição do enredo e também da “reviravolta do final”, que agora parece que é lei. Toda fita agora tem que ter obrigatoriamente uma reviravolta, que saco! E a tal surpresa é mostrada de uma maneira tão confusa que mal dá pra entender; e pra ser sincero, nem é tão “surpresa” assim.

Como se não bastasse, os atores escolhidos não combinam: a Anna de Nicole Kidman é fria demais e não desperta a cumplicidade e a empatia da platéia – fator essencial para que a película dê certo, até mesmo pela situação doentia da personagem. E a atriz provou que só funciona pra valer quando é bem dirigida (o que podemos perceber com o ótimo As Horas). Seu parceiro de cena, o ator-mirim Cameron Bright (de Efeito Borboleta e O Enviado) é mais uma daquelas crianças inexpressivas e perigosas cuja atuação se resume a movimentos robóticos e diálogos recitados. Bem longe do talento de um Haley Joel Osment ou de uma Dakota Fanning da vida.

Já o ator italiano Danny Huston (que atuou em 21 Gramas e O Aviador), como Joseph, é antipático ao extremo; sinceramente, não dá pra entender o que Anna viu naquele cara! E a veterana Lauren Bacall (Dogville, Louca Obsessão), que interpreta a incrédula e aterrorizada mãe de Anna, até tenta dar dignidade ao seu papel, mas fica meio perdida. Por outro lado, a ex-lésbica Anne Heche (!), no papel da misteriosa Clara, se sai muito bem e está incrivelmente bela, com os cabelos castanhos e longos. Muito diferente daquele ser bizarro e medonho de Volcano e Seis Dias Sete Noites que conhecemos. É, mais uma pra minha listinha… :-D

Quanto à polêmica criada em torno da ligação entre Anna e o pequeno Sean… Bem, não tem nada de mais. O máximo que rola é uma cena em que os dois compartilham a mesma banheira, nus – e ainda assim, com certa distância, sem qualquer aproximação de um com o outro e sem a câmera mostrar qualquer traço de nudez. Entretanto, a cena é tão dispensável que se tem a impressão de que está na montagem final só pra chocar. O lance acaba ficando agressivo por não se justificar. E enquanto isto, no já citado Morte em Veneza, os caras precisaram somente de um olhar ou outro pra transmitir exatamente o que sentiam, e deixar os mais “carolas” de cabelos em pé.

Enfim, se você é daqueles que precisam ver para crer, não esqueçam de levar o travesseiro, o pijama e a escova de dentes ao cinema (!), porque a impressão que se tem é a de que você só conseguirá sair da sala de projeção dali a três dias (!!). Se você sofre de insônia, então, seus problemas acabaram: é só comprar uma cópia de Reencarnação na ocasião de seu lançamento em DVD e assistir meia-horinha deitado (!?). Vejamos agora se o tal Jonathan Glazer aprendeu que, para criar um clássico do cinema, não é tão simples como ele pensa: é preciso uma ótima história, um roteiro muito bem escrito e atores tão carismáticos e interessantes quanto seus personagens. Afinal, em sua visão, foi só deixar a câmera parada na cara da Nicole Kidman por meia hora e pronto, seu filminho cult ficou pronto! Nossa, deu sono só de escrever sobre o filme… :-P

CURIOSIDADES:

• Nicole Kidman e Lauren Bacall já trabalharam juntas em Dogville, do dinamarquês Lars Von Trier.

• A polêmica em torno das tais “cenas picantes” de Reencarnação não ajudaram nas bilheterias, já que o longa custou a bagatela de US$ 20 milhões e rendeu somente cerca de US$ 9 milhões até o momento.

• Jonathan Glazer é um experiente diretor de videoclipes. O cara já dirigiu os clipes das músicas Street Spirit (Fade Out) e o fantástico Karma Police, do Radiohead, e The Universal, do Blur.

BIRTH • EUA • 2004
Direção de Jonathan Glazer • Roteiro de Jonathan Glazer, Milo Addica e Jean-Claude Carrière
Elenco: Nicole Kidman, Cameron Bright, Danny Huston, Anne Heche, Peter Stormare, Arliss Howard, Ted Levine e Lauren Bacall.
100 min. • Distribuição: PlayArte Filmes.

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