Os Irmãos Grimm

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 04/10/2005.

Os Irmãos Grimm (The Brothers Grimm)

Quando você vai ao cinema para assistir a um longa assinado pelo ex-Monty Python que atende pelo nome de Terry Gilliam (mais conhecido como o fiel batedor de cocos Patsy), você já espera que a) o tal filme em questão seja riquíssimo visualmente e bem bizarro no quesito “enredo”, b) as atuações do elenco sejam as mais propositadamente exageradas possíveis, ou c) a trama, sem gênero definido, use e abuse da criatividade para gerar universos mágicos e totalmente irreais, mas ainda assim fabulosos?

Bem, a resposta, eu diria, seria uma quarta opção nesta listinha: todas as alternativas acima!

O fato é que Gilliam soube imprimir um estilo todo particular a cada um de seus trabalhos-solo no cinema. Não importa se seu filme resulta mediano (Medo e Delírio), bom (As Aventuras do Barão de Munchausen, O Pescador de Ilusões), ótimo (Os Bandidos do Tempo) ou “fodedêssemo” (Os 12 Macacos, Brazil): você assiste cinco minutos e já enxerga todos os espetaculares maneirismos daquele que costumava ser o responsável pelas tosquíssimas animações que inundavam as produções da finada trupe inglesa – e, para mim, sempre se destacava dos demais justamente por isto. Gosto de dizer que os trabalhos de Gilliam seriam basicamente o que sairia da cabeça de David Lynch, se ele resolvesse pegar leve e se divertir um pouco de vez em quando. :-D

A boa notícia é que Os Irmãos Grimm (The Brothers Grimm, 2005), o divertidíssimo novo longa do cineasta, corresponde a todas as expectativas. É bizarro, engraçado, cruel e extremamente cartunesco. A partir de dois personagens até certo ponto verdadeiros, Terry Gilliam cria uma comédia de humor quase negro que brinca com o real e o imaginário e converte esta mistura para um exercício visual de encher os olhos. Ok, sejamos justos: Os Irmãos Grimm não chega perto da genialidade de Os 12 Macacos, mas encaixa-se numa boa na categoria dos “filmes ótimos” de Gilliam, sem pensar duas vezes. Infelizmente, a película agradará muito mais a aqueles já acostumados com o “jeitão Gilliam de ser”.

Uma rápida introdução ao início do longa revela os traços psicológicos dos irmãos Wilhelm e Jacob Grimm: enquanto o primeiro é cético até a medula e com os pés bem fincados no chão, o segundo vive de sonhos e fantasias. Já adultos – e vividos respectivamente por Matt Damon (Onze Homens e Um Segredo) e Heath Ledger (O Segredo de Brokeback Mountain) -, Will e Jake descobrem uma maneira bacana de arrumar uns trocados: eles simulam invasões de bruxas, monstros e fantasmas em vilarejos, para em seguida oferecer serviços de “exorcistas” e “expulsar” as supostas criaturas do lugar. Assim, os caras seguem criando fama pelo interior da Alemanha na era Napoleônica. Safado é mato, não? :-)

Mas como alegria de pobre dura pouco, logo os dois parlapatões são descobertos. Presos pelo exército do malévolo general francês Delatombe (Jonathan Pryce, de Evita), os Grimm são forçados a botar ordem no único vilarejo que ainda não sofreu a invasão francesa. Ao que consta, todas as meninas da vila estão desaparecendo aos poucos, fruto das estripulias de uma dupla de farsantes que resolveu “seguir a mesma carreira” de Jake e Will. O problema é que os irmãos Grimm estão prestes a descobrir que o vilarejo, cercado por uma floresta macabra, é realmente amaldiçoado – cortesia da aterradora Rainha do Espelho (Monica Bellucci, linda como sempre), que viveu por lá antigamente e talvez ainda viva…

E é isso. O roteiro, assinado pelo mesmo Ehren Kruger que escreveu O Chamado 2 e A Chave Mestra, é simplezinho e ponto final. A sacada mais significativa do script é encher a fita de referências às clássicas histórias da carochinha, escritas pelos reais irmãos Grimm. Logo, não é difícil o espectador pescar cenas, personagens e situações que remetem diretamente a contos como Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, Rapunzel e por aí vai. Até mesmo o Boneco de Pão de Mel está lá, protagonizando uma das cenas mais estranhas já vistas no cinema em 2005, diga-se de passagem. As referências tornam-se um dos pontos altos da fita, e lembram vagamente o surrealismo fantástico aplicado em Shakespeare Apaixonado – sem a pretensão da fitinha vencedora do Oscar e, graças aos céus, sem a presença da mala-sem-alça da Gwyneth Paltrow. Ugh! :-P

O fato de ser simples, entretanto, não tira em momento algum os méritos de Os Irmãos Grimm. A película é ótima, as atuações são dedicadas – com destaque para Heath Ledger (cujo Jake Grimm, totalmente maluco, quase engole Matt Damon em cena) e o excelente Peter Stormare, o “Lu” de Constantine, que entrega uma das atuações mais engraçadas do ano como o covarde, histérico e afeminado subalterno do general, o oficial Cavaldi – e o clima de suspense cômico e magia permanece até o término da projeção. Só o que lamento é o pouco tempo em cena da maravilhosa Monica Bellucci, que não faz muito esforço como a rainha amaldiçoada, mas ainda assim está bem adequada. E convenhamos: Monica Bellucci é Monica Bellucci. Ela não precisa fazer nada, só ficar parada, embelezando as nossas vidas. :-)

No mais, Os Irmãos Grimm é uma excelente diversão para adultos e também para crianças – posso dizer sem culpa pois, independente de seu clima levemente soturno, um garotinho de no máximo 8 anos ao meu lado divertiu-se a valer com a fita. Vá ao cinema sem medo de ser feliz – mas não esqueça que estamos falando de uma produção comandada por Terry Gilliam, o “ser bizarro” por natureza. Logo, se filmes meio esquisitos não são sua praia, fique em casa mesmo e aproveita para ver o Sidney Magal na novela das sete. Mas você corre o sério risco de deixar passar uma das fitas mais bacanudas do ano!

Só uma pequena observação: não sei bem porquê, mas em alguns momentos imaginei como seria Os Irmãos Grimm dirigido pelo Tim Burton…

CURIOSIDADES:

• A data de estréia original de Os Irmãos Grimm era em algum ponto de 2004. Um problema ocorrido nos sets de filmagem em junho (e até hoje não esclarecido) fez Terry Gilliam decidir interromper a produção por cerca de seis meses. Neste meio tempo, o cineasta rodou Tideland (aquele da menininha mostrando o glorioso dedão do meio). A produção de Os Irmãos Grimm retornou à ativa em janeiro de 2005.

• O roteiro do longa foi escrito por Ehren Kruger, mas Gilliam e Tony Grisoni (de Medo e Delírio e Tideland) reescreveram mais de 60% da história. Por uma questão de lógica, o correto seria creditá-los como roteiristas e Kruger como argumentista, mas não se sabe bem porquê, a Associação de Roteiristas da América (WGA) decretou que o crédito deveria ser exclusivamente de Kruger. Vai entender… Para resolver a questão, Gilliam e Grisoni aparecem nos créditos como Dress Pattern Makers (na tradução literal, modeladores de roupagem).

• A seqüência das “mãos na floresta” é uma idéia que estava na cabeça de Terry Gilliam há mais de 25 anos, mas o cineasta não conseguia encaixá-la em filme algum. Ela foi escrita originalmente para Os Bandidos do Tempo e quase utilizada em Brazil.

• A formação original do elenco contaria com nomes como Robin Williams, Johnny Depp, Nicole Kidman, Anthony Hopkins e Samantha Morton. Morton, que interpretaria a renegada Angelika, foi descartada pelos produtores a favor da bonitinha-mas-meio-sem-sal Lena Headey (em breve nos cinemas com A Caverna). Kidman e Hopkins não puderam assinar contrato por conflitos de agenda. Já Williams caiu fora do projeto devido a alguma treta não detalhada. Não se sabe a razão de Johnny Depp não ter assinado – mas cá entre nós, o filme tem a cara dele! :-)

• Os papéis de Matt Damon (Will Grimm) e Heath Ledger (Jacob Grimm) estão invertidos: eles foram contratados para interpretar Jacob e Will, respectivamente. Segundo o diretor, eles simpatizaram com os papéis opostos e pediram para trocar. Mas diz a lenda que os atores simplesmente decoraram os personagens errados e ficaram com medo de confessar a cagada, levar um esporro e ter que redecorar tudo…

THE BROTHERS GRIMM • EUA/CZE • 2005
Direção de Terry Gilliam • Roteiro de Terry Gilliam, Tony Grisoni e Ehren Kruger
Elenco: Matt Damon, Heath Ledger, Jonathan Pryce, Monica Bellucci, Lena Headey, Peter Stormare, Mackenzie Crook.
118 min. • Distribuição: Europa Filmes.

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