Menina de Ouro

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 09/02/2005.

Menina de Ouro (Million Dollar Baby)

Sim, eu sou um dos muitos que veneram Clint Eastwood. Pelo amor de Deus, o cara é genial! É uma das pouquíssimas figuras vivas no cinema americano, se não for a única, que pode fazer qualquer coisa sem se queimar. Mas como também sou uma pessoa realista, admito numa boa que o ator-diretor-produtor-compositor andava enfrentando uma maré negra de azar no cinema, intercalando ótimos trabalhos (As Pontes de Madison, Cowboys do Espaço) com filmecos fraquíssimos (Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal, Poder Absoluto, Dívida de Sangue). Mas tudo bem, este pequeno detalhe não diminuiu em nada o fato de que Clint Eastwood, por mais que seja acusado de estar enferrujado, ainda é O CARA! Enfim, sei que este comentário soará muito estranho e duvidoso, mas se pudesse, eu casava com ele. :-P

Quando o excelente Sobre Meninos e Lobos chegou às telonas, em 2003, todo mundo o saudou como o primeiro grande filme de Clint depois de sua obra-prima definitiva Os Imperdoáveis (1992). Alguns chegaram até a afirmar que dificilmente o diretor faria outro trabalho que pudesse nivelar em questão de qualidade técnica e emocional com estes dois filmes, enquanto outros alegavam que a fita que deu o Oscar de Melhor Ator para Sean Penn era apenas o último sopro de genialidade do cineasta. E não é que este pessoal estava… enganado?

Sim, muito enganado. Pois Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004), fita que Eastwood dirige, atua, produz e ainda compõe a trilha sonora, tem cacife suficiente para não só subir ao mesmo nível de Os Imperdoáveis e Sobre Meninos e Lobos na listinha de “jóias definitivas” do diretor, como até mesmo desbancar estes dois filmes. Menina de Ouro é simplesmente fenomenal, um daqueles longas únicos que emocionam e enchem os olhos do espectador de lágrimas sem precisar apelar para clichês batidos como no recente Em Busca da Terra do Nunca, só pra citar um exemplo. Se vocês querem saber, se dependesse da minha pessoa, eu cancelava a edição do Oscar deste ano e já mandava entregar as estatuetas na casa do Clint, numa boa! :-)

Para resumir em uma única frase: Menina de Ouro é um “filme de sentidos”, para se assistir sem medo de se render aos seus próprios sentimentos baratos.

Mas espere um pouco: um “filme de sentidos”… cuja história se passa no universo do boxe? É, mais ou menos. E se alguém aí tem “preconceito” com relação a “filmes de esporte”, pode relaxar e ir ao cinema sem medo. Ok, a história realmente é ambientada no mundo do boxe, mas apenas como fundo para um enredo que trata de perdas, escolhas, medos e a busca incessante de um sonho quase impossível, mesmo que, para realizá-lo, seja necessário remar contra a maré. Ué, mas este tema já não foi tantas vezes trabalhado pelo cinema? Sim, já foi. Inúmeras vezes. Mas não da forma com que é tratado aqui, pode acreditar. E quem assistiu ao belíssimo As Pontes de Madison, sabe que Clint Eastwood é mais do que credenciado a contar uma história cuja natureza é tão diferente do papel que o tornou imortal no cinema – no caso, o tal Harry Calahan, mais conhecido como o policial Dirty Harry.

O roteiro de Paul Haggis (diretor do longa independente Crash, ainda inédito por aqui) é centrado em Frankie Dunn (Eastwood), treinador e empresário de lutadores de boxe. Dunn administra uma pequena e obscura academia junto a seu amigo de longa data, Scrap (Morgan Freeman, também narrador do filme), ex-boxeador fadado à berlinda depois de um acidente no ringue, que o deixou cego de um olho. A lição mais importante que Dunn ensina a seus poucos pupilos é a mesma que parece reger também sua própria existência: Acima de tudo, antes de qualquer coisa, sempre se proteja. Isto porque, apesar da aparência rude e grosseira de Dunn, ele é um homem que freqüenta a igreja todos os dias (nem que seja para questionar o padre sobre a existência de Deus) e sofre a todo instante com a distância da filha, que há anos não fala com o pai.

A rotina do lugar é levemente quebrada quando um dos rapazes mais promissores de Dunn, o jovem boxeador Big Willie (Mike Colter), o abandona. A razão: Dunn não permite que Big Willie cresça profissionalmente por achar que “o cara não está preparado”. Ao mesmo tempo, a academia é praticamente “invadida” por Maggie Fitzgerald (Hilary Swank). Maggie, uma garçonete pobre que sofre com a rejeição da própria família, quer ser pugilista e traz consigo um talento arrasador, uma dedicação fora do comum e principalmente determinação. A princípio, Dunn é categórico: ele não treina mulheres. Principalmente uma de 31 anos – como é o caso de Maggie -, idade considerada “ultrapassada” para a prática profissional do boxe. Mas isto não é problema para a garota, que continua a treinar incansavelmente num cantinho escuro da academia, encorajada por Scrap.

Vencido e sem uma motivação qualquer na vida, já que, no seu ponto de vista, foi abandonado pelo único que poderia dar uma guinada em sua carreira, Dunn resolve treinar a garçonete. Duas pessoas torturadas pela vida, que descobrem ter muitas dores em comum: Dunn não consegue se perdoar por não falar com a filha (cujo motivo nunca chega a ficar claro), e Maggie sofre com a ausência do pai, o único membro de sua família que a tratava com um pouco de dignidade. À medida que o tempo passa (e Maggie ganha projeção internacional como pugilista), um encontra no outro o suprimento da dor, e surge uma união afetiva capaz de romper barreiras. E… tá, chega.

Pronto, o enredo está aí, mas o que afinal torna Menina de Ouro tão especial e tão diferente de tantos outros trabalhos jogados ao vento por aí? Vários pontos. Na verdade, eu poderia mesmo sair falando de todos os pontos que diferenciam esta película das “fitas-minunciosamente-calculadas-para-fazer-o-espectador-se-derreter-em-lágrimas”, como Em Busca da Terra do Nunca, Titanic, Regras da Vida e estes troços todos. Poderia falar da direção segura e sensível de Eastwood, dos excelentes diálogos – as cenas em que Frankie Dunn enche o saco do pároco são ótimas, assim como as “pérolas” saídas da boca do “projeto de boxeador” Danger, um dos melhores personagens do filme – e das interpretações sinceras, contidas e viscerais do próprio Eastwood, de Morgan Freeman (mostrando porque é um dos grandes nomes do cinema) e, principalmente, de Hilary Swank, que consegue superar seu próprio desempenho no fenomenal Meninos Não Choram.

Poderia falar também da maravilhosa trilha sonora (composta, por sinal, pelo próprio Clint – já disse que eu amo esse cara?), cujos solos de piano são de arrepiar qualquer um, e também poderia comentar principalmente do absurdo, angustiante e surpreendente rumo que a história toma perto de sua meia-hora final. Pode acreditar, nenhuma viva alma ficará inteira depois do arrasador turbilhão que é a última parte de Menina de Ouro. E já vou avisando: não deixe ninguém, mas NINGUÉM MESMO, comentar ou sugerir qualquer coisa a respeito do final do filme.

O problema é que eu tenho a sensação de que, por mais que fale rios e rios, este texto nunca estará completo. Como disse antes, Menina de Ouro é um “filme de sentidos”, de emoções difíceis (ou até impossíveis) de se traduzir em palavras, e forma uma “trinca sentimental” com os excelentes Sideways – Entre Umas e Outras e Closer – Perto Demais que provavelmente não será superada tão cedo. Pelo menos neste ano. Obrigatório! Clint Eastwood provou, assim como Quentin Tarantino, que não importa quanto tempo fique parado ou quantos filmes ruins lance no mercado: um cara fodão é sempre um cara fodão!

TÁ BOM! TÁ BOM! EU CONFESSO! CHOREI COM ESTE FILME TAMBÉM! E depois ainda dizem que sou um robôzinho incapaz de sentir amor no coração só porque não gosto do Tom Hanks… Ugh! :-P

CURIOSIDADES:

Menina de Ouro foi rodado em apenas 38 dias.

• O roteiro de Menina de Ouro é baseado em um dos contos da coletânea de histórias Rope Burns: Stories From the Corner, de F. X. Toole. O autor, que escreveu este romance sob pseudônimo, é na verdade Jerry Boyd, que passou anos trabalhando como cut man (aquele que é encarregado de cuidar dos ferimentos do boxeador nos intervalos entre um round e outro). Toole faleceu em 2002, um ano e meio depois que Rope Burns, no caso seu primeiro romance, foi publicado.

• Na carreira de Clint Eastwood, Menina de Ouro contabiliza seu 25.º trabalho como diretor, seu 21.º como produtor, seu 10.º como compositor da trilha sonora e o 57.º em que atuou.

• Clint Eastwood e Morgan Freeman já trabalharam juntos em Os Imperdoáveis, de 1992.

• Hilary Swank declarou recentemente que trabalhar com Eastwood e Freeman foi uma experiência única, que provavelmente jamais se repetirá com outros atores. Sabe, ainda não tive oportunidade de fazer nenhum filme com Clint Eastwood ou Morgan Freeman (!), mas acho que concordo com ela em gênero, número e grau…

MILLION DOLLAR BABY • EUA • 2004
Direção de Clint Eastwood • Roteiro de Paul Haggis
Inspirado na coletânea de contos “Rope Burns: Stories From the Corner”, de F. X. Toole
Elenco: Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freeman, Jay Baruchel, Mike Colter, Lucia Rijker.
137 min. • Distribuição: Warner Bros./Europa Filmes.

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