Capitão Sky e o Mundo de Amanhã

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 28/10/2004.

Capitão Sky e o Mundo de Amanhã (Sky Captain and the World of Tomorrow)

Em uma única frase: valeu toda a espera. Sem rodeios, Capitão Sky e o Mundo de Amanhã (Sky Captain and the World of Tomorrow, 2004) é um senhor filme. Um pusta de um senhor filme. O longa-metragem de estréia do diretor Kerry Conran, uma sci-fi retrô, superou mesmo todas as expectativas geradas por meses e meses de espera. Claro, nem tudo é perfeito e a fita tem seus defeitos. Mas nada que comprometa a adrenalina que o espectador sente nas veias quando testemunha uma invasão como há tempos não se via nas telonas com tamanha veracidade – e tamanha fantasia. Além disso, é um entretenimento de qualidade para todas as idades e gostos: para a molecadinha, tem ação de sobra; para as menininhas mais românticas, tem o relacionamento mal resolvido do casal central; para o pessoalzinho mais cult, tem as zilhões de referências aos antigos seriados; e para os mais velhos, é simplesmente uma fantástica viagem ao passado. Acima de tudo, representa um avanço tecnológico surpreendente no que diz respeito à forma de fazer cinema.

Capitão Sky e o Mundo de Amanhã é o resultado de quase uma década de sonho e pesquisas de Kerry Conran. Para quem não sabe, o diretor utilizou uma técnica inédita e de baixo custo: nada do que é mostrado na telona, além dos atores, é de verdade. Todas as cenas foram rodadas, uma a uma, somente com o elenco em frente a um cenário cru: uma tela azul gigantesca. Todo o resto, desde os cenários enormes até elementos cênicos, como por exemplo uma mesa de escritório, foram inseridos posteriormente através de computação gráfica. Esta técnica propiciou ao diretor trabalhar com economia (o longa custou apenas US$ 40 milhões) e curto prazo (as filmagens com os atores duraram bem menos de um mês).

O que se vê ao final é um visual arrebatador que, à primeira vista, nos remete direto à década de 30, mas com uma tecnologia bem avançada. O mais assustador, contudo, é a riqueza de detalhes, tanto visuais como referenciais. Não é difícil identificar alusões a grandes heróis das telonas (e das telinhas) como Indiana Jones, Flash Gordon, Capitão Blood e até aos velhos desenhos do Max Fleischer, assim como a produção procura seguir a própria maneira de fazer filmes da época, com direito a enquadramentos de cena, montagem e fotografia idênticos aos seriados de aventura dos anos 40.

Vamos à trama: em Nova York, no que parece ser o ano de 1939 – nada é dito, mas as milhares de referências dão a entender que sim –, a atrevida repórter Polly Perkins (Gwyneth Paltrow) recebe um telefonema do Dr. Walter Jennings (Trevor Baxter). Neste telefonema, o cientista diz que tem uma importante revelação sobre um caso. O tal caso em questão é o misterioso desaparecimento sem pistas dos mais renomados cientistas e pesquisadores do planeta. Louca por um furo de reportagem, Perkins encontra-se com Jennings, que lhe diz que será o próximo a ser seqüestrado, e revela à repórter o nome do suposto culpado pelo ocorrido: Dr. Totenkopf. Mas a conversa é brutalmente interrompida por um ataque ao centro de Nova York por… Robôs gigantes voadores!

A festa dos grandalhões, que misteriosamente se concentram em torno de um gerador, logo é interrompida pela chegada de um P-40 pilotado pelo destemido Joe Sullivan, mais conhecido como Capitão Sky (Jude Law). Sky, líder de uma esquadrilha especial que funciona como última saída para situações improváveis, acaba por reencontrar Perkins, sua antiga paixão, por quem nutre alguns ressentimentos. A dupla, a princípio antagônica, se une a contragosto na tentativa de descobrir quem é o tal Dr. Totenkopf e qual sua ligação com o surgimento das máquinas. Depois de um novo ataque, agora por “robôs pássaros” e desta vez tendo a Base Aérea da frota do Capitão Sky como alvo, o intrépido piloto e a abusada jornalista seguem um pista que pode levá-los ao local de origem das máquinas, uma pequena instalação no Nepal. Lá, podem estar os cientistas seqüestrados, entre eles o gênio Dex Dearborn (Giovanni Ribisi), braço-direito e melhor amigo de Sky.

As qualidades técnicas e visuais de Capitão Sky e o Mundo de Amanhã são muitas. Não dá pra perceber nenhuma falha no sincronismo entre os atores e os efeitos especiais. Pra melhorar ainda mais o negócio, as atuações são genuínas. Jude Law, como sempre, dá um banho como o valente Capitão Sky (dando indícios claros de que seria um escolha perfeita para um futuro longa metragem do Indiana Jones), assim como o master Giovanni Ribisi (de O Resgate do Soldado Ryan) como Dex; outro destaque do elenco é Bai Ling (que atuou em ER), que dá vida à enigmática Mulher Misteriosa, uma ágil assassina aliada do Dr. Totenkopf. Angelina Jolie, no papel da general inglesa Franky Cook, aparece muito pouco tempo em cena, mas suas intervenções são importantíssimas para o sucesso da missão do Capitão Sky. E o longa também faz os mais saudosistas caírem nas lágrimas com a visão do finado e inesquecível Sir Laurence Olivier, cujas aparições foram aproveitadas de cenas de filmes antigos – sua voz é dublada por outro ator.

A única decepção, como era de se esperar, é Gwyneth Paltrow, que continua provando que não honra o Oscar que tem em casa. Seu papel cairia muito bem em atrizes de verdade como Naomi Watts ou Jennifer Aniston.

Os mais familiarizados com referências cinematográficas também lamberão os beiços: logo nos créditos iniciais, a impressão que se tem é de estar assistindo uma produção de aventura da década de 40 – com uma ressalva para os fantásticos efeitos de som, emprestados do clássico A Guerra dos Mundos (1953) e dos desenhos animados de ação da Hanna-Barbera. Durante a projeção, é possível reconhecer objetos que poderão causar o delírio dos nerds como nós, por exemplo o S. S. Venture, navio de King Kong; a espada de Excalibur; os robôs dos clássicos gibis do Superman; HQs do Buck Rogers; cenas (e situações emprestadas) de O Mágico de Oz e o próprio Titanic no fundo do mar.

Se estes pequenos detalhes passarão despercebidos pela rapaziada mais nova, não tem problema: as cenas de ação, em especial a perseguição no ar por entre os arranha-céus de Nova York e os ataques dos robôs, não deixarão a molecadinha (e todo o resto) desgrudar da cadeira. Isso sem contar a cena do confronto entre o P-40 e as naves mecânicas, cuja ação começa no ar e termina debaixo d’água (sim, é isso mesmo!).

Mas como disse antes, Capitão Sky e o Mundo de Amanhã tem seus pontos negativos. Em um determinado ponto do filme, o clima dá uma esfriada e as cenas de pancadaria ficam temporariamente de lado. A platéia sente essa esfriada numa boa. Neste mesmo momento, a direção pega mais leve nas referências, esquece um pouco da forma com que começou seu trabalho e então tudo fica meio que “sem identidade”. Nesta parte do filme, algumas seqüências mais paradas são extremamente cansativas (em especial a que se passa no mosteiro). E a direção de arte de uma destas cenas lembra demais O Senhor dos Anéis (assistam e vocês entenderão). Gwyneth Paltrow, sim, um graaaande ponto negativo! :-)

Mas o que mais incomodará algumas pessoas não chega a ser exatamente um “problema”: numa época em que o espectador está acostumado a anti-heróis, cínicos e com desvios de caráter, muita gente poderá torcer o nariz para a pureza e o heroísmo meio datados do personagem central. Afinal, todos aqui vieram de uma época em que o “bom” e o “mau” eram muito bem definidos e separados um do outro. E o roteiro é bem simples, sua conclusão mais ainda, e isto poderá frustrar muita gente que ficará esperando a “grande reviravolta do final”, tão utilizada hoje em dia.

No entanto, nada disso chega a realmente comprometer o resultado final. Capitão Sky e o Mundo de Amanhã é ótimo de assistir, uma prova de que a técnica aplicada aqui funciona muito bem, tanto que três novos filmes já estão sendo produzidos através deste sistema. Uma matinê divertidíssima e descompromissada, pra embarcar num boa em uma sessão regada a muita pipoca e refrigerante. Se você resolver pegar uma sessãozinha depois de um dia nervoso e estressante de trabalho, melhor ainda. E prepare o bolso: depois de um dia ou dois, vai apertar aquela vontade de ver de novo. Uma dica: procure ir à sala mais barulhenta possível: os efeitos sonoros são espetaculares! E qualquer coisa, se você é daqueles que não suportam compactuar com injustiças (assim como eu), é só fazer de conta que a Gwyneth Paltrow não está no elenco! :-D

Só uma dica: na ocasião do lançamento em DVD (que acontecerá sabe Deus quando), tire as cores de sua TV. Em preto-e-branco fica ainda mais legal!

CURIOSIDADES:

• Os primeiros robôs mecânicos que atacam Nova York em Capitão Sky e o Mundo de Amanhã são praticamente idênticos aos monstros que o Superman enfrenta no cartoon Mechanical Monsters (1941).

• Originalmente, o título deste longa era só O Mundo de Amanhã (The World of Tomorrow), mas Kerry Conran optou por alterar o título para não confundir os espectadores com O Dia Depois de Amanhã (The Day After Tomorrow), de Roland Emmerich, aquele da onda gigante em Nova York e da era do gelo (estou relembrando trechos porque eu mesmo sou um que já esqueceu aquele filmeco).

• Kerry Conran usou um computador Macintosh caseiro para desenvolver seis minutos de Capitão Sky e o Mundo de Amanhã. Este processo durou 4 anos. Quando Conran apresentou estes seis minutos ao produtor Jon Avnet, conseguiu financiamento na mesma hora para concluir o projeto. A coisa deslanchou de vez quando Jude Law viu o preview de seis minutos e se apaixonou pelo projeto, tirando dinheiro do próprio bolso para viabilizar o filme.

• Gwyneth Paltrow assinou contrato para viver a repórter Polly Perkins sem ler um trecho sequer do roteiro. Bastou assistir ao curta de seis minutos. Olhando por esse lado, seria melhor que este curta nunca tivesse chegado ao seu conhecimento!

• As cenas da militar Franky Cook, interpretada por Angelina Jolie, foram rodadas em apenas dois dias e meio. Isso é que é ganhar dinheiro fácil.

• Numa determinada cena, Polly Perkins está ao telefone, relatando a invasão dos robôs gigantes ao seu editor (Michael Gambon). Sua fala é exatamente assim: “Eles estão atravessando a 6.ª Avenida… Eles estão atravessando a 5.ª Avenida… Eles estão a 100 metros de mim!”. Esta fala é uma reprodução exata da mesma fala que apavorou os EUA na radionovela A Guerra dos Mundos, de 1938, em que o ator Ray Collins narrava a chegada dos Marcianos. Para quem não sabe, a radionovela causou um caos sem precedentes nos Estados Unidos à época: como o programa era narrado como uma espécie de noticiário e este tipo de narrativa era praticamente inédita no campo da ficção, grande parte da população realmente acreditou que o planeta Terra sofria uma invasão de alienígenas assassinos.

• Uma seqüência de cenas ao início de Capitão Sky e o Mundo de Amanhã mostra a primeira página dos principais jornais do mundo, relatando a primeira invasão das máquinas. Numa referência hilariante, a primeira página de um jornal de Tokyo tem estampada uma foto em que os robôs estão enfrentando… Godzilla. :-)

SKY CAPTAIN AND THE WORLD OF TOMORROW • EUA • 2004
Direção de Kerry Conran • Roteiro de Kerry Conran
Elenco: Jude Law, Gwyneth Paltrow, Giovanni Ribisi, Michael Gambon, Bai Ling e Angelina Jolie.
107 min. • Distribuição: Paramount Pictures.

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