Amores Brutos

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 16/01/2007.

Amores Brutos (Amores Perros)

Vamos lá, diga a verdade, nada mais que a verdade: se alguém lhe pedir para relacionar de cabeça pelo menos cinco filmes significativos vindos do México, você saberá responder assim, logo de cara? Bem, não se sinta culpado ou envergonhado de responder um belo e sonoro “não”. Afinal, nós, meros brazucas bastardos e azarados, quase não temos acesso às parcas produções cinematográficas vindas da terra do Ligeirinho, o chiquitito mui loco (!). Devo ser sincero: até algum tempo atrás, a única referência de trabalhos audiovisuais que eu tinha do México eram as tenebrosas e impagáveis novelinhas do SBT estreladas pelas Maria (coloque-aqui-o-sobrenome-pobre-de-sua-preferência) e pelos Carlos Daniel (ou-coloque-aqui-qualquer-outra-combinação-de-nomes-nada-a-ver-de-sua-preferência) da vida. Valei-me! :-P

Obviamente, o cinema mexicano é muito, mas muito mais amplo do que imaginamos, e isto vem de décadas atrás, com a explosão do chamado melodrama nos anos 40 e 50 – é que pouca coisa chegou por aqui. Sendo assim, estamos perdoados. ;-D

O quadro começou a mudar no final da década de 90. Foi neste ano que, do México, surgiu um longa-metragem, longa mesmo (153 minutos de projeção), que narrava o destino de três indivíduos desconhecidos entre si que compartilham apenas o amor por um elemento em comum e um terrível evento que mudou drasticamente suas vidas. Amores Brutos (Amores Perros, 2000) chegou de mansinho através de mostras e cineclubes, aterrorizou aqueles que se atreveram a enfrentar uma sessão e, de repente, tornou-se o filme mais comentado do circuito alternativo naquele ano, com direito até a indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar de Filme Estrangeiro. Ponto para seu diretor, o semi-desconhecido e quase-estreante Alejandro González Iñarritú (até então, o cara dirigira apenas o obscuro El Timbre, de 1996).

E o burburinho em cima da fita é justo: Amores Brutos é um drama absolutamente visceral, difícil de assistir – sua metragem a princípio espanta mesmo –, que conta três histórias distintas, mas interligadas, que comprovam a máxima do título original (amores perros significa amores caninos, em tradução literal): o amor, não importa em qual faceta se manifeste, é tão dolorido e doentio quanto o mais pavoroso dos “dias de cão”. O que não significa, contudo, que o sentimento deixe de ser mágico, sublime até. E tudo isto, veja só, parte de um fatídico ponto em comum, um momento compartilhado entre os três protagonistas das três histórias e também pelo público já em sua atordoante seqüência de abertura: uma perseguição automobilística em pleno centro da Cidade do México, que culmina em um trágico e violentíssimo acidente; o acidente é provocado por Octavio, vitima Valeria e transforma El Chivo em principal testemunha. Cada um deles sairá marcado do evento, e isto não tem nada a ver com ferimentos ocasionados pela batida.

Então, temos Octavio (Gael García Bernal), jovem que passa seus dias dividindo o teto com o irmão Ramiro (Marco Pérez) e sua cunhada Susana (Vanessa Bauche). Octavio sente pena de Susana, que come o pão que o diabo amassou nas mãos de seu esposo, o violento Ramiro. Bem, na verdade, o que ele sente é outra coisa, e ela também… Com a convivência em casa piorando cada vez mais, o indivíduo vê a necessidade de cair fora: oferece a Susana a oportunidade de fugir juntos e ela aceita. Para conseguir dinheiro, o desempregado Octavio resolve “patrocinar” às escondidas o gigantesco Rottweiler de Ramiro, Cofi, em sangrentas rinhas. Uma das lutas não acabará bem, e o resultado é uma bala cravada no corpo de Cofi e uma fuga desesperada e em alta velocidade pelas ruas da cidade.

A protagonista da segunda história é Valeria (Goya Toledo), modelo famosa mergulhada no inútil mundinho da moda e protagonista das capas das revistas de fofoca por conta de seu caso com o publicitário quarentão Daniel (Álvaro Guerrero), casado e pai de família. Quando somos apresentados ao casal, Daniel acabou de jogar tudo para o alto: abandonou esposa, filhas, e juntou tudo o que tinha para investir em uma vida de “marido e mulher” com Valeria e seu cãozinho-de-madame Richie em um belíssimo apartamento recém-comprado. Valeria faz planos para a esperada noite de inauguração do novo apê, quando seu carro é atingido no tal acidente. Com uma de suas pernas praticamente destruída (justamente seu mais importante “instrumento de trabalho”), a modelo vê seu mundinho de sonho se transformar em pesadelo. A vida a dois de Daniel e Valeria gradativamente vai à falência, à exemplo da sanidade da garota; e quando a poodle Richie fica presa em um vão do piso de madeira do apartamento, infestado de ratos, a loucura do casal pode atingir seu ápice.

A terceira e mais poderosa história é a do ex-guerrilheiro comunista El Chivo (Emilio Echevarría, excelente), que nos dias atuais é mendigo, carrinheiro e vive pelas ruas da Cidade do México acompanhado de uma cacetada de cachorros. Quem vê o sujeito, entretanto, jamais poderia imaginar que, debaixo das grossas camadas de sujeira, esconde-se um astuto e calculista matador profissional, freqüentemente contatado por políticos e figurões para “pequenos serviços”. No meio de um destes “trabalhos”, El Chivo testemunha a batida. No meio dos curiosos, Chivo, confessadamente desiludido com o egoísmo da raça humana, resgata e adota para si a única vítima que, a seus olhos, merece uma segunda chance: o cão Cofi. Decidido a cuidar de Cofi, o matador não faz idéia de que o Rottweiler será, em breve, o canal para sua própria redenção.

As três histórias desenvolvidas por Iñarritú aqui parecem não fazer muito sentido assim, escritas em um artigo. Acredite: veja este filme. Na tela, o negócio é outro.

O fato é que a excelente direção de Iñarritú brinca o tempo todo com os maneirismos de diversos gêneros cinematográficos, revelando-se genial e minuciosamente estudado em cada uma de suas transições. Com o foco em Octavio e Susana, o filme começa elétrico, violento, dinâmico, erótico, quase um thriller de ação com direito a cenas de sexo e tiros para todos os lados. Quando parte para Daniel e Valeria, o clima sofre uma inesperada introspecção, diminui o ritmo e transita entre o drama romântico e o suspense psicológico. E em seguida, ao centrar sua câmera nos conflitos de El Chivo (por sinal, a melhor trama da película), transforma-se em um apavorante, silencioso e sombrio exercício de intimismo. Se até então tudo parecia meio complexo demais, principalmente na quebra de ritmo entre uma história e outra, o desenrolar e a conclusão do conto de El Chivo amarra todas as pontas e faz Amores Brutos ter todo o sentido do mundo.

Tá, mas e a cachorrada neste rolo todo? Bem, a presença dos cães é, sem dúvida, a metáfora mais poderosa e abrangente no intrigante roteiro de Guillermo Arriaga (figurinha presente na maioria esmagadora dos trabalhos de Iñarritú). Nada é por acaso. Temos um poodle irritante e barulhento que incomoda a todos que, quando encontra-se em uma situação de perigo extremo, desperta nos personagens à sua volta um senso de solidariedade que, dadas as devidas proporções, literalmente apaga todo e qualquer sentimento de egoísmo e individualismo presente nas personalidades das mesmas. E o cão Cofi, um dos grandes astros da película, é apresentado como uma eficiente arma de proteção na história de Octavio; já no foco em El Chivo, o animal recebe tanta atenção e tanto carinho que supera sua própria natureza violenta e transforma-se em uma criatura tão amável e confiante que faz com que o próprio El Chivo supere seu desapontamento com o mundo, reveja seus conceitos e dedique-se a uma emocionante reconciliação com seu passado, que toma forma na figura de Maru, a filha que o matador abandonou há anos.

Os cães, no alto de sua suposta irracionalidade, explicam à seu modo aquilo que os evoluídos apanham para entender: o mundo tem salvação, sim. Bonito isso, não? :-D

O acerto de Amores Brutos não está somente em seu sensacional roteiro. O mérito também deve ser creditado ao ótimo núcleo de atores. Basta dizer que este é o trabalho que revelou Gael García Bernal ao mundo – de fato, o ator está ótimo aqui. A grande estrela de Amores Brutos, entretanto, é o fenomenal Emílio Echevarría, que constrói um Chivo tão transparente e tridimensional que apenas alguns olhares são o suficiente para fazer o público compreender seus conflitos internos.

Mas… claro que a verdade deve ser dita. Não quero parecer prepotente com o comentário a seguir, mas não estamos falando de um filme para qualquer espécie de público. Amores Brutos é, de fato, bruto – desculpe o trocadilho, mas foi inevitável (!). Enfim, Amores Brutos é violento, tão violento a ponto de quase ser amoral, é ambientado em cenários sujos e nem um pouco atraentes, seu roteiro é recheado de diálogos dúbios e traz sofrimento atrás de sofrimento – elementos que já se tornaram marca registrada do diretor. Difícil de assistir sim, mas quem se aventurar, encontrará aqui um belo exemplo de como o cinema pode ultrapassar a barreira de “simples diversão” e servir como um impactante instrumento de reflexão e de sentidos.

E tudo isso veio da terra do RBD (argh!) e da Televisa (argh!), hein? Pelo menos ainda há gente no mundo interessada em limpar a reputação do núcleo artístico do México… :-P

AMORES PERROS • MEX • 2000
Direção de Alejandro González Iñarritú • Roteiro de Guillermo Arriaga
Elenco: Emilio Echevarría, Gael García Bernal, Goya Toledo, Álvaro Guerrero, Jorge Salinas, Vanessa Bauche, Marco Pérez, Carlo Bernal, Rosa Maria Bianchi.
153 min. • Distribuição: Europa Filmes.

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