O Aviador

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 10/02/2005.

O Aviador (The Aviator)

Vamos direto ao ponto: O Aviador (The Aviator, 2004), o novo longa-metragem dirigido pelo grande Martin Scorsese (do bom Gangues de Nova York), é muito bom. Na verdade, é ótimo. Pra ser sincero, é um pusta dum senhor filme, o melhor de sua carreira desde o fantástico Os Bons Companheiros, de 1990. O único problema é que provavelmente a grande maioria dos mortais brazucas não compartilhará da mesma opinião que eu. Na verdade, a produção soará pra muita gente como “bonzinho e nada mais”. Isso porque tem uma boa parcela do público que vai sair da sessão xingando Deus e o mundo, principalmente as menininhas que pagarão ingressos só pra ver o Leonardo DiCaprio (sim, estas criaturas ainda existem!).

Eu explico: independente de ser louvado pela crítica e de conquistar uma boa fatia desta última temporada de prêmios cinematográficos, O Aviador acaba se tornando, mesmo que sem querer, um trabalho direcionado a um público específico. Dêem só uma olhada: um drama relativamente parado, com duração de quase três horas (sim, isso não tem nada a ver, mas é diferente você assistir três horas de pauleira como O Senhor dos Anéis e três horas só de diálogos, não é?), que retrata um período crucial na vida de uma personalidade que nem todos conhecem, principalmente aqui no Brasil. E detalhe: sem dar muitas referências do passado ou do futuro da personagem: simplesmente começando a história e terminando em um ponto qualquer, sem fornecer à platéia qualquer explicação sobre de onde veio ou como foi o fim daquele cara. Bacana isso, não?

A tal personalidade em questão é um cara multimilionário chamado Howard Hughes, produtor/diretor de cinema e aviador. Questão número um: Howard Hughes é, sim, uma das maiores lendas do cinema norte-americano, além de ter realizado feitos incrivelmente notáveis na aviação e ter uma bizarra história pessoal. Entretanto, é uma personalidade cuja importância é restrita aos americanos. Uma grande parte de nossa platéia com certeza ficará pensando: “Pombas, mas quem diabos é esse tal Howard Hughes?”. Seus feitos não dizem muito respeito a nós. É como se fizéssemos uma cinebiografia do Silvio Santos e despachássemos para exibição lá fora. Os caras ficariam pensando: “E nós com isso?” – o que já não aconteceria com um Pelé Eterno que, mesmo sendo muito ruim como filme, narra a trajetória de uma figura mundialmente conhecida.

Questão número dois: como disse antes, o roteiro de John Logan (Gladiador, A Máquina do Tempo) não se preocupa em explicar à platéia desavisada quem é o tal Howard Hughes. Apenas conta um trecho da vida do cara. Quem não sabe absolutamente nada dele, vai boiar em alguns momentos. O Aviador somente se revela a grande obra que é, quando o espectador é familiarizado com o universo da indústria cinematográfica entre os anos 20 e 50, ou então quando o espectador é um louco psicopata doente por cinema, como este Zarko que vos fala. :-D

O Aviador começa no meio dos anos 20, quando Howard Hughes (interpretado por Leonardo DiCaprio – dãããã…) ainda é apenas um jovem aspirante a produtor recém-chegado à Hollywood. Dono de uma fortuna herdada do pai – que faleceu quando Hughes tinha 18 anos -, o cara está envolvido nas filmagens de seu primeiro (e um dos dois únicos) filme como diretor: o clássico Anjos do Inferno (Hell’s Angels), drama ambientado na 1.ª Guerra Mundial. Logo de cara já temos uma idéia de quão perfeccionista é o homem: para uma tomada aérea, Hughes utilizou nada menos do que 26 câmeras simultaneamente (!); quando a fita ficou pronta, Hughes resolveu refazer tudo, para incluir som (Anjos seria originalmente mudo); o diretor tinha o costume de paralisar as filmagens durante meses, só para esperar “as nuvens perfeitas”; e o orçamento total de Anjos do Inferno chegou a exorbitantes 4 milhões de dólares – algo que não é pitomba nenhuma hoje em dia, mas na época era o cúmulo.

Pois bem, Anjos do Inferno, previsto como um fracasso pela comunidade cinematográfica da época, se tornou um enorme sucesso de bilheteria e de crítica, alçando o nome de Hughes ao estrelato e transformando sua protagonista, Jean Harlow (Gwen Stefani, a vocalista da banda No Doubt), em estrela absoluta. Anjos do Inferno apresentou a Hughes o que viria a ser sua nova paixão: a aeronáutica. Obcecado por aviões, o cara fundou uma companhia aérea, a Hughes Aircraft; construiu um modelo próprio de aeronave; e simplesmente bateu o recorde de velocidade de Charles Lindbergh. Mais tarde, Hughes se envolveu numa confusão dos diabos ao assumir o controle acionário da empresa de navegação aérea Trans World Airlines e rivalizar com o inescrupuloso Juan Trippe (Alec Baldwin, de The Cooler), presidente da Pan Am, cuja força vinha do apoio do influente e escrotíssimo senador Ralph Owen Brewster (Alan Alda, de M*A*S*H, excelente no papel). Isso sem falar no “quase abacaxi” chamado The Hercules, o maior hidroavião do mundo, que Hughes teimou em construir, mesmo não tendo utilidade alguma.

Outros episódios marcantes da vida de Hughes são retratados em O Aviador: seu relacionamento com a maluquinha, independente e indesejável Katharine Hepburn (a maravilhosa Cate Blanchett) – que ficaria conhecida mais tarde pelas comédias que viria a protagonizar com seu futuro marido Spencer Tracy -, e o duradouro romance com Ava Gardner (Kate Beckinsale, a “pagadora de micos” de Underworld- Anjos da Noite e Van Helsing) – duas estrelas que funcionavam para Hughes como “calmantes”; as complicadas filmagens de dois grandes clássicos produzidos por ele, Scarface – a Vergonha de uma Nação (1935) e o hilariante O Proscrito (1943), este último famoso por conta dos enormes “melões” de sua atriz principal, Jane Russell; e sua batalha contra suas complexas neuroses, no caso seu medo absoluto de germes e sua mania de limpeza – o que quase o levou à loucura e causou, finalmente, sua reclusão em seus últimos anos de vida (isso por volta da década de 70, fase não retratada em O Aviador).

Como se vê, não é qualquer mané que se diga diretor que é capaz de retratar a história de Howard Hughes nas telonas com o equilíbrio necessário. Mas o roteiro de John Logan e a direção mais do que competente de Martin Scorsese não só realizaram esta tarefa com louvor como ainda a transformaram numa aula pessoal de como se fazer cinema. É só reparar na excelente montagem de Thelma Schoonmaker e na impressionante fotografia de Robert Richardson (ambos colaboradores habituais de Scorsese), lotadas de referências e feitas exatamente da mesma maneira com que os filmes eram feitos nas décadas retratadas (mais detalhes logo abaixo). E uma ressalva especial para os efeitos visuais, principalmente na cena do acidente em Beverly Hills (não vou contar mais pra não estragar a surpresa).

Quanto ao elenco, lotado de grandes atores, destacam-se numa boa John C. Reilly (As Horas, Chicago), como o braço direito de Hughes, Noah Dietrich, e Ian Holm (o Bilbo Baggins!), como o Professor Fitz, encarregado de “encontrar nuvens” para as filmagens de Anjos do Inferno, além das pontinhas muito bem-humoradas do nosso Duende Verde, Willem Dafoe, como um repórter, e Jude Law (estava demorando pra ele aparecer…), como um abusado que atende pelo nome de Errol Flynn.

Mas o show ainda é de Cate Blanchett. Quem vê as fitas antigas estreladas por Katharine Hepburn, nota numa boa que Blanchett simplesmente saiu de seu corpo e deu lugar à atriz, com sua bizarra dicção e trejeitos tão neuróticos quanto os do próprio Hughes. Seu trabalho é tão assustador quanto a atuação de Jamie Foxx em Ray. E lá vem a pergunta que não quer calar: e Leonardo DiCaprio? Sim, ele está muito bem. Bem, eu sempre achei que o namoradão da Gisele Bündchen tinha muito talento – por mais que teimasse em desperdiçá-lo nos Titanics da vida -, e em O Aviador isto é bem visível. Pode não ser a melhor atuação do ano, e com certeza não é, mas DiCaprio soube dosar os altos e baixos de Hughes com leveza e sem exageros. Putz, nunca pensei que fosse falar assim do Leonardo DiCaprio… :-P

Enfim, O Aviador é um filme grandioso, bonito, bem escrito, bem dirigido e bem interpretado. E um dedicado e emocionado legado que honra numa boa a memória deste sujeito FO-DE-DO que mudou a concepção do que é fazer cinema. Também, é um filme do Scorsese! Só podia ser ÓTIMO! Mas cá entre nós, uma coisa ficou na minha cabeça: quantos aí pagariam ingresso para assistir uma cinebiografia do nosso querido Silvio Santos, o “Homem do Baú”? :-D

CURIOSIDADES:

O Aviador seria originalmente dirigido por Michael Mann (o homem forte por trás de Colateral), que decidiu apenas produzir o longa quando percebeu que este filme seria a terceira biografia de sua carreira. Mann dirigiu Ali, biografia do boxeador Muhammad Ali, e O Informante, que narra um período na vida do executivo da indústria tabagista Jeffrey Wigand.

• Embora Cate Blanchett tenha sido de fato a primeira escolha de Martin Scorsese para viver Katharine Hepburn, os produtores insisitiram que queriam Nicole Kidman para a personagem, mas a atriz não aceitou por motivos não divulgados. O papel de Howard Hughes foi inicialmente oferecido a Jim Carrey. A intérprete de Ava Gardner seria Gwyneth Paltrow, que não pôde aceitar por problemas de agenda. Graças a Deus.

O Aviador é dividido em capítulos, sendo que cada capítulo do filme corresponde a um ano. Esta divisão não é por acaso: Scorsese usou uma técnica diferente de cores a cada capítulo; estas cores correspondem à técnica comum usada no ano retratado. Na cena em que Hughes conhece Errol Flynn, por exemplo, ele pede um prato de ervilhas, e as ervilhas surgem num tom azul-turquesa. Nesta época, a técnica usada nos filmes coloridos (no caso, o “Technicolor de duas faixas”) não reconhecia determinados tons de verde, substituindo-o por azul-turquesa. À medida que os anos avançam, as cores ficam nitidamente mais encorpadas.

• Esta mesma “brincadeira” foi aplicada com relação à montagem: nos primeiros anos retratados em O Aviador, a montagem é idêntica às fitas dos anos 40; montagem, aliás, “re-reproduzida” também em outra produção que homenageia esta década: Capitão Sky e o Mundo de Amanhã.

• A lendária aviadora Amelia Earhart apareceria no filme, interpretada pela atriz Jane Lynch (de Desventuras em Série), mas suas cenas foram cortadas da montagem final.

• É impressão minha ou desta vez eu realmente exagerei no tamanho do texto? :-)

THE AVIATOR • EUA • 2004
Direção de Martin Scorsese • Roteiro de John Logan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Cate Blanchett, Kate Beckinsale, John C. Reilly, Alec Baldwin, Alan Alda, Ian Holm, Gwen Stefani, Brent Spiner, Willem Dafoe, Jude Law.
170 min. • Distribuição: Warner Bros.

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One Response to O Aviador

  1. Douglas disse:

    Esta foi uma das melhores criticas que já vi sobre um filme. e sim o filme e tudo isso mesmo !!!

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