Control

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 21/05/2008.

Control

Uma das histórias mais mitológicas da evolução do rock diz respeito à primeira passagem dos Sex Pistols por Manchester, Inglaterra, para um concerto que quase se tornou um belo fracasso, visto que o show, aberto ao grande público, foi assistido por apenas 42 pessoas. Um fracasso, mas somente teórico. Na prática, este momento revolucionou os alicerces da música: inspiradas por aquele momento mágico, aquelas 42 cabeças conheceram-se, fizeram contatos, tiveram idéias, formaram bandas. Dali, saiu um obstinado Tony Wilson, jornalista que fundou o selo Factory e a casa de shows Hacienda; o produtor Martin Hannett, responsável pela descoberta de grandes nomes da música; e um movimento chamado Madchester, que lançou bandas como Buzzcocks, The Jam, The Fall, Siouxsie and the Banshees, A Certain Ratio, Happy Mondays…

Control (Idem, 2007), cinebiografia que finalmente chega aos cinemas brazucas nesta sexta-feira, centra suas atenções na mais enigmática e talvez mais importante descoberta deste movimento, o célebre Ian Curtis, líder do Joy Division. Mais que um simples músico, Curtis botou o Joy Division no mapa com sua voz grave e suas letras pra lá de depressivas e, depois de três anos à frente da banda, tornou-se um mito ao cometer suicídio em 1980, com apenas 23 anos de idade e dias antes da primeira turnê do grupo nos Estados Unidos, o que lhe daria fama definitiva e possivelmente o alçaria de vez ao mainstream.

O mais legal é que Control, dirigido com maestria pelo ex-diretor de videoclipes Anton Corbijn, consegue fugir do rótulo “fiz-sucesso-enchi-a-fuça-de-drogas-e-morri-jovem” que assola boa parte das cinebiografias de estrelas do rock. Primeiro, porque Ian Curtis jamais poderia ser classificado como um sujeito problemático (não, ao menos, neste sentido). Segundo, porque o excelente roteiro do quase estreante Matt Greenhalgh, inspirado no romance escrito pela viúva de Ian, Deborah Curtis, retrata o músico não como uma personalidade indomável, mas como um cara que cometeu burradas muito cedo e não teve maturidade suficiente para lidar com estas escolhas, o que refletiu em sua saúde, seu estado emocional e seu trabalho. Terceiro, porque em nenhum momento Corbijn tenta explicar ou defender as decisões de Curtis; só o que o cineasta quer é revelar a história como testemunha ocular, como um observador à distância.

Talvez a mais acertada escolha do roteiro, além da brilhante fotografia em preto e branco, seja nadar contra a corrente e, à exemplo dos sensacionais Johnny & June (aquele do Johnny Cash) e Não Estou Lá (aquele do Bob Dylan dividido por seis, hehehe), centrar o foco em um ponto específico da vida de Ian Curtis — neste caso, seu relacionamento com a esposa Debbie Curtis, do ponto de vista dela –, ao contrário da maioria das cinebiografias do gênero que entregam-se facilmente aos paradigmas já desgastados do gênero. Não espere encontrar aqui algo convencional demais em termos de narrativa, como um La Bamba, um The Doors ou um Ray da vida (não desmerecendo estes bons filmes, tá?).

Então, o que temos em Control é uma rápida passagem pela pós-adolescência de Ian Curtis (Sam Riley) em 1973, onde conhecemos sua paixão por David Bowie e glam rock, sua queda por poesias, e a tendência ao isolamento e à aversão por pessoas (fantasma exorcizado em uma das canções mais populares do Joy Division, Isolation), aversão esta que sofre um abalo quando Curtis conhece Debbie (Samantha Morton, de Minority Report: A Nova Lei), namoradinha de um amigo. O casamento veio rápido e sem pensar, assim como o convite para cantar na banda Warsaw, convite que veio exatamente durante o tal show dos Sex Pistols em Manchester, citado no primeiro parágrafo deste texto.

Com a banda estruturada e rebatizada Joy Division (uma referência clara ao exército de Hitler), chegam também o apadrinhamento de Tony Wilson, na época apresentador de um programa de música na popular TV Granada, a rápida ascensão da banda, a popularidade com as apresentações na extinta Factory, a gravidez de Debbie… a dificuldade em conviver com mais de uma pessoa sob o mesmo teto e a total desestruturação de seu casamento, desestruturação esta representada pela figura da jornalista belga Annik Honoré (a maravilhosa romena Alexandra Maria Lara, uma das protagonistas de A Queda: As Últimas Horas de Hitler e esposa de Sam Riley na vida real), convertida em sua amante. Nas palavras do próprio: “tomei as decisões erradas cedo demais”.

Dividido entre a segurança e a rotina de “cidadezinha do interior” ao lado de Debbie e a paixão avassaladora e o senso de aventura adquiridos com o relacionamento com Annik, sem condições de abrir mão de seu casamento mas sem pensar em cogitar o fim de seu caso com a estrangeira, Ian Curtis sofre uma lenta degradação física e psicológica que só aumenta com a pressão do sucesso do Joy Division. Para piorar o caldo de vez, Curtis descobre sofrer de epilepsia, e as crises surgem sem qualquer aviso, a qualquer momento — inclusive durante as apresentações ao vivo da banda.

Acuado, nada mais resta a Ian Curtis senão a saída mais covarde, através de uma corda no pescoço, em Maio de 1980, apenas dois dias antes de o Joy Division enfrentar seu maior desafio até então: uma turnê milionária pela terra do Tio Sam.

A trajetória de Ian Curtis, por si só, já fornece material suficiente para um filme bem maduro — tanto que a direção de Corbijn (responsável por clipes de bandas como U2, Red Hot Chili Peppers, Depeche Mode, entre outros) não se prende a pormenores, como por exemplo, uma citação qualquer ao New Order, fenômeno pop dos anos 80 cuja formação é o Joy Division sem seu vocalista, ou aos outros marcos do punk-rock que fizeram parte do movimento Madchester ao lado da banda de Curtis. Control começa rápido e termina rápido, mesmo com uma metragem superior a duas horas (exatamente 122 minutos de projeção); a fita é tão dinâmica e pagmática que parece ser bem mais curta do que realmente é.

Os méritos do longa devem-se quase exclusivamente a Sam Riley (que viveu o vocalista do The Fall em outro filme sobre Manchester, A Festa Nunca Termina), sensacional na pele de Ian Curtis. Se você buscar qualquer vídeo das interpretações do Joy Division, notará no ato que Curtis praticamente desceu no corpo do sujeito; como se não bastasse, as canções presentes no filme foram interpretadas MESMO pelo próprio elenco que vive a formação do grupo. Hits como Digital, Transmission, Disorder (na ótima e lendária seqüência do quebra-quebra na Factory), Dead Souls, She’s Lost Control (canção que inspirou o título da fita) e Candidate explodem na tela em interpretações tão vivas e perfeitas que não devem nada a qualquer registro do verdadeiro Curtis em celulóide. A escolha do protagonista é nada menos que PERFEITA.

Curiosamente, as duas canções mais conhecidas da banda, Love Will Tear Us Apart e Atmosphere (que obviamente encerra o longa), dão as caras pelo próprio Joy Division.

No mais, o que sobra é um excelente trabalho de direção e de atuação, que não se preocupa em justificar ações, somente em homenagear com justiça a memória de uma das lendas mais permanentes da história do rock inglês. E se você é fã de carteirinha do gênero, como este que vos fala, vai ser fácil gostar desse negócio aqui! Enquanto isso, no Brasil, a gente agüenta os “créus” da vida… imagine que legal se os nossos queridos executivos de estúdio tupiniquins resolvem filmar a trajetória de “gênios” da nossa música como Armandinho, MC Créu, NX Zero… Ok, alguém por favor me empreste uma CORDA. Pode deixar que o nó eu mesmo faço, só pra garantir.

Em tempo: repare na versão que os caras do The Killers gravaram para Shadowplay, que rola durante os créditos finais. É o Joy Division todo em sua essência. Deu até vontade de chorar.

CONTROL • ING • 2007
Direção de Anton Corbijn • Roteiro de Matt Greenhalf
Baseado no romance “Touching From a Distance”, de Deborah Curtis
Elenco: Sam Riley, Samantha Morton, Alexandra Maria Lara, Joe Anderson, Toby Kebbell, Craig Parkinson, James Anthony Pearson, Ben Naylor.
122 min. • Distribuição: The Weinstein Company.

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