Vôo United 93

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 31/08/2006.

Vôo United 93

Que não demoraria muito para que o cinema decidisse “prestar suas homenagens” (ou “explorar impiedosamente”, dependendo do ponto de vista de quem lê) e gerar longas-metragens sobre os trágicos eventos do fatídico 11 de setembro de 2001, ninguém tinha dúvidas. Mas até que o negócio foi bem rápido: apenas cinco anos para que surgissem filmes focados no horror dos ataques terroristas em solo ianque que tiraram a vida de milhares de pessoas e reduziram um dos maiores símbolos do capitalismo norte-americano a pó – isso se contarmos apenas as produções mainstream, deixando de lado os zilhões de documentários, seriados e filmes made for TV que já existem há algum tempo.

O que pessoalmente me preocupa nesta onda de filmes sobre o 11/9 não é nem a idéia de que eles existem apenas para render uns trocados em cima da tragédia; o problema é que não suporto a idéia de alguns cineastas utilizarem o evento como palanque político, como forma de defesa dos ideais republicanos deturpados de George W. Bush e como forma de sugerir que o governo estadunidense é a vítima inocente, pura, casta e representa o lado indiscutivelmente certo da coisa. Devo confessar que, à época dos atentados terroristas que destruíram o World Trade Center, só conseguia me perguntar se o povo tão comovido com aquela situação também sofreu da mesma forma com a morte dos milhares de civis no Iraque. E não somos todos seres humanos, afinal de contas?

É justamente neste ponto que Vôo United 93 (United 93, 2006) acerta em cheio. O longa-metragem não tenta, em momento algum, justificar os atos de ambos os lados ou apontar o certo e o errado. A fita nada mais é do que um retrato despido e racional dos verdadeiros afetados por esta guerra, daqueles únicos que sofreram as conseqüências das atitudes questionáveis do senhor Bush: as pessoas que nada tinham a ver com a história, as pessoas que saíram de suas casas naquela manhã de 11 de setembro, para trabalhar ou para qualquer outra coisa, e encontraram a morte. Simples assim.

Isto, claro, não credencia o longa a qualquer espécie de público. Vôo United 93, dirigido com cuidado e realismo pelo excelente Paul Greengrass (do sensacional Domingo Sangrento), é extremamente difícil de se digerir. Não só por acompanhar um fato doloroso em detalhes meticulosos, mas por optar em contar esta história como uma mera testemunha ocular, sem chegar perto dos potenciais dramas internos de cada personagem. Os fatos estão lá, e Greengrass somente nos apresenta a eles. A ausência de uma estrutura narrativa padrão hollywoodiana certamente incomodará alguns – por outro lado, a verve quase documental e quase jornalística do roteiro insere uma carga de realidade tão grande na projeção que é impossível não sair da sessão abalado com o que viu e com a sensação de ter presenciado um marco na história do cinema.

O resultado: um trabalho que por pouco não leva o título de “clássico”, não fosse por algumas pequenas más escolhas.

O foco aqui, para quem não sabe, não é o ataque direto às Torres Gêmeas (cujos momentos mais dramáticos são mostrados apenas por um telão, em imagens da CNN): o United 93 do título original refere-se ao vôo 93 do Boeing 757 da United Airlines que saiu de Boston com destino a São Francisco. Em meros 90 minutos, o United 93 tornou-se o quarto avião seqüestrado por terroristas suicidas, que tinham por objetivo chocar o Boeing contra Washington; tornou-se, também, o único que não conseguiu concluir seu plano, já que os passageiros, quando conscientes de seu destino, rebelaram-se, renderam os terroristas e sacrificaram suas vidas ao derrubar o avião em um descampado na Pensilvânia – embora alguns pensem que o 93 fora derrubado pelas Forças Aéreas, o que não é verdade.

É neste avião que cerca de 40 passageiros embarcam logo no início do longa, no Aeroporto Internacional de Boston. É nele também que embarcam quatro estrangeiros nervosos e bastante suspeitos. Depois de um pequeno atraso, o United 93 decola. Não há indícios de anormalidade, é uma manhã tranqüila nos Estados Unidos – a não ser por um pequeno problema com uma outra aeronave, a Panamerican 11, que inexplicavelmente saiu de sua rota (e que, mais tarde, entraria para a história como o primeiro dos dois aviões a se chocar com o WTC).

Em pouco tempo, a tranqüilidade do United 93 transforma-se em terror quando o grupo toma o avião, mata os pilotos, fere algumas pessoas e começam a gritar ordens em árabe. Um deles mantém uma bomba presa em sua cintura e outro diz, num inglês enroladíssimo, que não há com o que se desesperar e todos irão para casa sãos e salvos. Sem entender o que está acontecendo, os passageiros do United 93 descobrem, através de ligações para familiares, que dois aviões deixaram o WTC em chamas e um terceiro explodiu no Pentágono. Compreendendo que são reféns em uma missão suicida e que não há a menor possibilidade de escapar dali com vida, a tripulação se une e, dominada por um instinto de defesa, ataca os terroristas com todo e qualquer tipo de arma improvisada que encontra pela frente.

O final desta história todos nós já conhecemos – ainda que não possamos ter a certeza de que tudo aconteceu da forma que está na tela, já que os únicos registros dos acontecimentos no United 93 de sua decolagem até a queda fatal, os registros que Greengrass usou como base para construir seu roteiro, vêm da caixa preta do avião, de depoimentos de familiares que conversaram com os passageiros via fone e de profissionais do Controle de Tráfego Aéreo de Boston e de Nova York, além de militares que participaram ativamente do evento. Bem, na verdade chega até a ser utópico afirmar que há uma história com começo, meio e fim em Vôo United 93, já que as câmeras não fazem nada além de acompanhar os populares até seu terrível desfecho, como se fosse um deles.

E é daí que podemos medir a qualidade do trabalho de Paul Greengrass na direção. Mesmo conhecendo a conclusão desta história, Greengrass consegue fazer com que o público torça por um milagroso final feliz e um destino melhor para aqueles personagens. Não é difícil torcer para que o avião simplesmente não caia, e olhe que não é preciso sequer conhecer a fundo a psiquê de cada um dos passageiros do avião – uma ótima sacada da direção foi escalar apenas atores profissionais desconhecidos ou semi-desconhecidos para a fita (o mais familiar é David Alan Basche, cria de seriados como o finado Three Sisters); ou seja, enxergar o personagem em todas as suas camadas ao invés de enxergar o “ator galã interpretando um personagem” fica muito mais fácil.

À exceção da impressionante seqüência final (prepare-se para este final), os momentos mais tensos não são aqueles passados a bordo da aeronave, e sim os ambientados nos Centros de Controle de Tráfego Aéreo de Boston, Nova York e Cleveland. São nestes ambientes que boa parte da primeira hora de Vôo United 93 acontece, e são nos interiores destes lugares que o espectador acompanha a evolução dos acontecimentos do 11/9 – o choque com o primeiro arranha-céu através de uma ligação, a colisão com o segundo prédio através de um noticiário exibido em um telão. O nervosismo e a indignação dos chefes e de funcionários por estar de mãos atadas (muitos destes personagens vivido por eles mesmos) é aterrador, e fica ainda pior quando sabemos que tudo isto realmente aconteceu.

Para não dizer que a produção é uma obra-prima, porém, devo destacar algo que não gostei: sinceramente, os primeiros dez minutos me incomodaram muito por causa da presença de um clichê tenebroso e altamente manipulativo de filmes trágicos. No ato do embarque no Boeing, por exemplo, um passageiro qualquer comenta que não vê a hora de chegar em casa para ver sua amada esposa; em seguida, uma das aeromoças diz que provavelmente este será seu último dia de trabalho, já que morre de medo de voar; em seguida, o co-piloto comenta com o piloto que é pai de uma criança de apenas 11 meses. Sacou? É muito mais fácil sofrer com a inevitável morte destes personagens, sabendo que estes viviam momentos especiais de suas vidas. Na boa, não era nem um pouco necessário encher o início da película com trilhões destes diálogos para nos fazer ter pena deles, pois o próprio desenvolvimento da narrativa já nos deixa com um belo nó na garganta.

Probleminha, claro, minúsculo. Ao final, Vôo United 93 resulta em um drama tocante, aflitivo, tenso e muito, muito inspirador, daqueles capazes de desestruturar qualquer um. E o mais importante: totalmente despido de posicionamento político ou de apologia ao patriotismo ianque que tanto infesta esta espécie de filmes, ou até mesmo da pretensão em tentar oferecer uma resposta ou uma justificativa para a existência do conflito e o ataque que marcou a história. Se há um questionamento em Vôo United 93, este refere-se à razão pelo qual nos sentamos e nos acomodamos à espera de soluções, quando deveríamos arregaçar as mangas e agir, tal qual fizeram no 11/9 as centenas de bombeiros, policiais, civis… e os passageiros do United 93. Se a intenção é definir um herói para esta guerra, a coroa é indubitavelmente deles e de mais ninguém.

CURIOSIDADES:

Vôo United 93 teve colaboração direta das famílias dos 40 passageiros e tripulantes mortos na queda do United 93, que ofereceram a Paul Greengrass detalhes do cotidiano de seus entes. Através deste contato, o cineasta pôde recriar com exatidão até mesmo as roupas que cada um dos passageiros usavam em 11/9. Por sinal, se você procurar na Internet imagens dos tripulantes e passageiros do verdadeiro United 93, notará uma incrível e sobrenatural semelhança física com os atores que os interpretam no longa.

• Durante as filmagens, os atores que interpretaram os terroristas e os atores que viveram os passageiros foram mantidos em hotéis separados e os dois núcleos só tinham contato nos sets. Esta foi a forma do diretor Greengrass conseguir o efeito de hostilidade e medo entre eles nas seqüências do domínio do avião.

• Se você entende inglês, vá preparado para OUVIR e esqueça as legendas. O causo é que praticamente 100% dos diálogos são embolados, simultâneos; um processo natural considerando o intuito de Paul Greengrass em aproximar-se o máximo possível da realidade dos fatos. Com isto, muito do que é dito perde-se na tradução da legenda, que infelizmente não consegue acompanhar tudo ao mesmo tempo.

• Devido a um acordo entre cavalheiros, não houve exibição de trailers nas sessões gringas de Vôo United 93.

UNITED 93 • EUA/FRA/ING • 2006
Direção de Paul Greengrass • Roteiro de Paul Greengrass
Elenco: J. J. Johnson, Gary Commock, Polly Adams, Opal Alladin, Nancy McDoniel, Starla Benford, Trish Gates, Simon Poland, Khalid Abdalla, David Alan Basche, Lisa Colón-Zayas, Meghan Heffern, Olivia Thirlby, Cheyenne Jackson.
111 min. • Distribuição: Universal Pictures.

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