Pequena Miss Sunshine

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 12/11/2006.

Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine)

Só para deixar tudo explicadinho, um esclarecimento importante: muitos usuários enviam e-mails para A ARCA questionando a ocasional ausência de alguns filmes nas resenhas das estréias da semana – filmes que chegam aos cinemas, cujas críticas simplesmente não aparecem aqui. O que acontece é que, infelizmente, é impossível resenhar toda e qualquer estréia em tempo hábil para a publicação dos textos; às vezes os convites para as tais sessões de imprensa (sessões antecipadas para jornalistas de modo que suas matérias fiquem prontas até a estréia) não chegam a tempo, às vezes acontecem três ou quatro sessões em locais diversos, mas em mesma data e horário, o que nos força a montar um “esqueminha” de revezamento ou preferir os longas potencialmente mais interessantes a nosso público, e às vezes, mas beeem raramente, simplesmente não somos convidados (né, Código Da Vinci?).

Este, claro, não é um problema só d’A ARCA. Os pouquíssimos veículos que conseguem a façanha de publicar críticas de todos os filmes que entram em cartaz a cada sexta-feira, o fazem porque dispõem de uma equipe de redatores bastante ampla e/ou porque mantém parcerias com outros veículos, “trocando” textos entre si com seus devidos créditos. E é façanha mesmo, se levarmos em consideração que, somente no eixo Rio-SP, chega às salas de projeção uma média de 10 a 12 fitas por semana. Muita coisa! Uma pena, pois algumas vezes, infelizmente, perdemos a chance de falar sobre ótimos filmes. :'(

Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006), comédia dramática independente que chegou ao Brasil carregando o notório rótulo de “um dos 10 melhores filmes do ano” imposto por boa parte da crítica e representando um tremendo sucesso de bilheteria lá fora (em comparação ao seu budget, claro – custou US$ 8 milhões e rendeu mais de US$ 58 milhões), foi uma destas pobres “vítimas” “sacrificadas” por um bem maior. A estréia do longa em terras brazucas aconteceu em 20/10, há exatamente três semanas – e o meliante aqui que atende pela alcunha Zarko fez a gentileza de ficar doente bem no dia da sessão de imprensa… Enfim, finalmente consegui assistir à fita e, mesmo com três semaninhas de atraso, arrumei um tempinho para tecer este artigo. O motivo? Pequena Miss Sunshine REALMENTE é um dos dez melhores longas do ano, uma película capaz de deixar qualquer espectador com um imenso sorriso estampado no rosto. E a presença de sua resenha aqui n’A ARCA é simplesmente OBRIGATÓRIA.

O causo é que Pequena Miss Sunshine é um trabalho muito mais amplo do que aparenta. A fita, que marca a estréia na direção de longas da dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris (especialistas em videoclipes), disfarça-se de road movie cômico para esmiuçar e criticar, de maneira muito séria e respeitosa, a mania esdrúxula dos estadunidenses de construir e valorizar vencedores a qualquer custo, de menosprezar os ditos “perdedores” e não hesitar em passar por cima dos sentimentos de qualquer indivíduo em troca da “perfeição”. Mas o que é perfeição, afinal? É chegar à vitória ou aceitar a si mesmo como um perdedor?

Já nos primeiros dez minutos de exibição da película, descobrimos que “perfeição” é uma palavra que não existe no vocabulário da família Hoover. O pai, Richard (Greg Kinnear, O Matador), acha que atingirá este status através de um programa de vendas que ele mesmo criou, mas que não funciona de modo algum… o que causa muitos atritos entre ele e sua esposa, a preocupada Sheryl (Toni Collette, As Horas), que tenta tolerar as manias de seu sogro, o vovô Edwin (Alan Arkin, Edward Mãos de Tesoura), que voltou para casa depois de ter sido expulso do asilo – é que ele curte heroína… Há ainda a revolta acumulada do filho mais velho de Richard e Sheryl, Dwayne (Paul Dano, O Mundo de Jack e Rose), fanático por Nietzsche, que botou na cabeça que quer ser piloto de aeronaves e, para atingir seu objetivo, decidiu fazer voto de silêncio.

E a casa ficará ainda mais turbulenta com a chegada do irmão de Sheryl, Frank (Steve Carell, O Virgem de 40 Anos), professor gay especialista em Proust que tentou suicídio ao ser abandonado pelo namorado mais novo e, agora, precisa ficar em constante observação. Família complicada? Não, claro que não. Imagine, impressão sua. :-)

Em dez minutos de filme, a excêntrica e disfuncional família Hoover esquecerá de todos os problemas para embarcar em uma viagem a Los Angeles, onde tentarão realizar o sonho da caçula do clã, a adorável Olive (Abigail Breslin, a Bo de Sinais): participar do infame concurso Miss Sunshine. É que a menina quer a todo custo ser uma miss, ainda que use um óculos gigantesco e ostente uma indesejável “barriguinha”. Enfim, Olive não é o modelo-padrão deste tipo de concurso, mas para fazer a alegria da menina e experimentar um mínimo de “sucesso”, vale tudo. Assim, todos se enfiam em uma Kombi caindo aos pedaços e pegam a estrada…

O engraçado é que a perfeição que falta na estrutura da família Hoover, sobra na condução do filme. O roteiro de Pequena Miss Sunshine, escrito pelo também estreante Michael Arndt, equilibra a comicidade e o drama da história sem problemas. Não, não estamos falando de uma comédia rasgada, embora a trajetória do clã ao decorrer do filme seja pontuada por momentos muito engraçados e cretinos, no melhor sentido da palavra – a cena na qual a família esquece Olive em um posto de gasolina é boba, mas faz rir (e muito); isto, pra não falar da bizarríssima BUZINA do velho Volkswagen amarelo, além de outras coisas mais.

Em sua essência, porém, Pequena Miss Sunshine é um trabalho absolutamente dramático, que não se rende ao dramalhão e faz emocionar com muita facilidade. Imagino que o roteiro deve ter sido muito bem pensado, visto que não há uma única seqüência que não traga um significado nas entrelinhas – uma prova disto são os excelentes diálogos expostos na película: não há como não sorrir amarelo e não se sentir incomodado quando, por exemplo, Dwayne diz que a vida nada mais é do que um concurso de beleza contínuo. É daí pra baixo.

Somando-se à excelência do enredo, há também o belo climão de anos 70 (embora o filme não seja ambientado nesta época), a simplória mas bem funcional fotografia de Tim Suhrstedt – que já trabalhou nos seriados Ally McBeal e Grey’s Anatomy – e o acertadíssimo elenco, com destaque para um impressionante Steve Carell, ótimo e bastante comedido como o depressivo Frank, e para a participação inspiradíssima de Alan Arkin, sujeito que deve (ou pelo menos merece) papar alguns prêmiozinhos na próxima temporada de premiações de cinema. Pessoalmente, gostei MUITO da atuação de Abigail Breslin, que com apenas 10 anos carrega uma maturidade ausente em muito ator veterano por aí. Uma única cena da menina, a cena na qual ela confessa para o avô o medo de parecer uma fracassada aos olhos de seu pai, é suficiente para provar que Breslin, ao lado do brazuquinha Michel Joelsas, nos faz esquecer automaticamente de uma suposta atriz-mirim-com-cara-de-louca que já foi boa e hoje é só um punhado de gritinhos irritantes… :-P

O que impressiona mais em Pequena Miss Sunshine e o torna por conseqüência um belo candidato a novo clássico é a forma com que o longa mexe com esta questão toda de vencedores e perdedores. Aqui, não há uma pessoa sequer que se encaixe nos padrões ianques de “vitória”. E, ao contrário do que Hollywood adora pregar, não estamos falando de uma história na qual seus personagens lutam pelo sucesso e conseguem. Aqui, todos estão, de uma forma ou de outra, buscando o estigma dos “vencedores” para se sentir um pouco importantes ao mundo mesquinho e superficial na qual vivemos. O importante, entretanto, e o que os Hoover deverão aprender na viagem, é que vitória não significa pilombas quando você deixa de se sentir feliz com o que você é. Ser um vitorioso ou aceitar e assumir sua própria mediocridade e seu próprio rótulo de loser não importa se você não é você mesmo. Tal qual o avô diz em certo trecho: “O verdadeiro perdedor é aquele que tem tanto medo de perder que sequer tenta alcançar a vitória”. E não é mesmo uma grande verdade?

Pois é, é exatamente aquilo que eu disse aqui: Hollywood ainda tem muito o que aprender com o cinema indie, viu? :-D

Só pra finalizar, um recadinho do coração (ui!) para todos os indivíduos e indivíduas que porventura estejam passeando por este website: Pequena Miss Sunshine pode parecer um filminho daqueles que não valem o dinheiro gasto no ingresso, não por sua qualidade, mas por ser uma produção que não exija tanto assim uma visita na tela grande – e também por ser um exemplar de um gênero que possa não agradar a todo mundo. Esqueça isto. Pode até ser difícil encontrar uma sala exibindo este filme hoje, já que a fita estreou há três semanas. Corra atrás, espere pelo DVD, faça o que for. Mas não deixe de assistir Pequena Miss Sunshine – não será difícil entender porque, em um ano de super-heróis azulões, piratas mercenários e mutantes complexados, as pequenas aventuras desta esquisita família de fracassados tem lugar garantido entre os melhores. :-D

Viu só? A gente atrasa, mas a gente chega! Hehehe. ;-)

CURIOSIDADES:

Pequena Miss Sunshine levou cerca de cinco anos para ganhar as telas. O maior problema da produção foi mesmo financeiro: não havia ninguém que estivesse disposto a financiar a produção do filme. O produtor Marc Turtletaub comprou os direitos de produção do roteiro por 250 mil dólares e o ofereceu, em 2004, para a Focus Features, produtora de renome no cinema independente. Por alguma razão não divulgada, a Focus pulou fora, e Turtletaub resolveu assumir o custo do projeto sozinho. Curiosamente, depois de pronto e de sua exibição no Festival de Sundance, a Fox Searchlight não pensou duas vezes em comprar os direitos de distribuição do filme pelo valor de US$ 10 milhões, alto para um filme deste calibre.

• A primeira escolha dos diretores para o papel de Frank era Bill Murray, que não pôde aceitar por problemas de agenda.

• A trilha sonora original do filme é composta pelo ótimo quarteto DeVotchKa; a trilha foi construída integralmente em cima de uma das canções mais populares da banda, a bela How It Ends – música também usada no trailer de outro filmaço independente, Uma Vida Iluminada, de Liev Schreiber.

LITTLE MISS SUNSHINE • EUA • 2006
Direção de Jonathan Dayton e Valerie Faris • Roteiro de Michael Arndt
Elenco: Greg Kinnear, Steve Carell, Toni Collette, Paul Dano, Abigail Breslin e Alan Arkin.
101 min. • Distribuição: Fox Searchlight.

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