Instinto Selvagem 2

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 17/04/2006.

Instinto Selvagem 2 (Basic Instinct 2)

Não posso negar que uma curiosidade mórbida me fez querer assistir Instinto Selvagem 2 (Basic Instinct 2, 2006), continuação tardia do enorme sucesso de 1992 que inaugurou a já finada era dos policiais e suspenses eróticos no cinema e consagrou o nome de uma tal Sharon Stone que quase ninguém conhecia – a não ser, claro, aqueles poucos loucos que assistiam a reprise de As Minas do Rei Salomão na Sessão da Tarde sem se importar com os efeitos colaterais… hehehe. Não nego mesmo, até fiquei curioso para conferir a segunda aventura cinematográfica da escritora tarada e assassina em potencial Catherine Tramell, embora tenha um trauma horroroso de continuações atrasadas…

Pô, para os malucos executivos de Hollywood passarem 14 anos insistindo numa seqüência, é porque alguma coisa boa ainda poderia ser extraída da essência do filme original, não é mesmo? Não são um ou dois anos, são quatorze! Será que o universo da maligna Catherine Tramell poderia render algo interessante hoje em dia, visto que o grande “tchan” do primeiro Instinto Selvagem, além de ser um suspense bem construído, era inovar ao extrapolar nas seqüências picantes em uma produção comercial, algo já defasado hoje em dia?

Enfim, Instinto Selvagem 2 finalmente chega aos cinemas brazucas, com a mesma Sharon Stone reprisando o papel que a transformou num ícone, para responder à esta pergunta. E também para tirar outra dúvida, aquela que martelou a cabeça de muitos desde a divulgação das primeiras notícias deste projeto: pra quê rodar uma continuação? Tá certo, o final do outro filme é dúbio, mas e daí? A história terminou tão amarradinha! Não tinha necessidade! Então, eis as perguntas e as respostas:

a) Pra quê rodar uma continuação? Resp.: Falta de novas idéias e a possibilidade de render tão bem quanto o longa original;

b) Será que o universo da maligna Catherine Tramell poderia render algo interessante hoje em dia? Resp.: Nas mãos das pessoas certas, talvez. O que definitivamente não é o caso. Sim, Instinto Selvagem 2 é tão desnecessário quanto suspeitávamos.

Se fosse relacionar todos os problemas desta fraquíssima produção comandada por Michael Caton-Jones (O Último Suspeito), perderíamos muito tempo. Além de o roteiro escrito por Leora Barish (Procura-se Susan Desesperadamente) e Henry Bean (do ótimo Tolerância Zero) ser no mínimo muito fraco, há uma série de falhas na narrativa, bem como várias contradições para com o enredo e as personalidades delineadas no filme original. O maior barato, contudo, é que o espectador é pego de surpresa por um fator bizarro: enquanto todos acreditavam que Instinto Selvagem 2 se resumiria a pouco roteiro e muito sexo, aconteceu o inverso. Tem um roteiro com mais reviravoltas do que novela do Silvio de Abreu (!) e tanto sexo quanto desenho da Disney. Das duas uma: ou os produtores se borraram com a possibilidade de ser barrado pela censura e deixaram o script bem puritano, ou a censura mutilou a fita até ela pedir água. :-P

Antes de qualquer coisa, porém, vamos à espinha dorsal da película, que por sinal procura seguir a mesma linha do Instinto Selvagem de 1992: logo no início, a sensual Catherine Tramell, agora uma cidadã londrina, sofre um bizarro acidente de carro. Ela escapa apenas com um ou outro ferimento superficial, mas seu acompanhante, um astro do esporte, sai do carro direto para conhecer Jesus… Acidentes acontecem, né? Não para o detetive da Scotland Yard Roy Washburn (David Thewlis, o professor Lupin de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban), que conhece muito bem o passado da meliante e nutre um ódio não esclarecido por ela. Para Washburn, ela provocou a morte do cara propositadamente, visto que, no exato momento do acidente, ela dirigia em alta velocidade enquanto o esportista fazia um, bem, “trabalhinho sujo” nela…

Para botar Catherine Tramell no xilindró e provar de uma vez por todas que a sujeitinha tem culpa no cartório, o detetive contrata o psiquiatra forense Michael Glass (David Morrissey, Fora de Rumo) para avaliar a moçoila e dizer no tribunal se ela tem consciência de seus atos ou é apenas uma desequilibrada da vida. Como era de se esperar, o psiquiatra – que carrega o fantasma de um misteriosíssimo passado – fica com os hormônios a mil quando, depois de um tempo, Catherine Tramell o procura para que ele seja seu psicólogo. Contrariando os alertas de sua mentora, a dra. Milena Gardosh (Charlotte Rampling, do fabuloso suspense francês Swimming Pool – À Beira da Piscina), o cara acaba na cama com Tramell, enquanto alguns corpos se amontoam. Como dizia alguém da Escolinha do Professor Raimundo, é Ó-BE-VEO que isto aconteceria… :-)

Até que a idéia central do roteiro não chega a ser de todo ruim; ruim é a forma com que os caras colocaram isso na prática. Primeiro, porque a estrutura da narrativa segue a batida fórmula-de-filmes-de-suspense de Hollywood até a última gota, e o desenvolvimento dos diálogos é tenebroso – num certo momento, numa descaradíssima cópia de um diálogo do antecessor, o detetive diz a ela, “ele (o esportista) morreu e não vejo preocupação em você”, e ela responde, “Claro que estou preocupada. Sabe lá quando vou conseguir gozar de novo”. É daí para baixo. Ok, é um suposto “suspense erótico”, mas um pouco de sutileza não faz mal a ninguém. E as ligações com o primeiro filme – incluindo o suposto destino do policial ianque vivido por Michael Douglas – são risíveis.

Além da estrutura previsível, dos cenários saídos de catálogos de revista de decoração e da trilha sonora totalmente copiada do primeiro filme, outro item totalmente falho é a escolha dos atores. Não há ninguém, eu digo, NINGUÉM que se salve aqui, e olhe que tem nomes bacanas no elenco, como David Thewlis, a poliglota coroa inglesa Charlotte Rampling e a própria tia Sharon – que sabe sim ser uma excelente atriz quando bem dirigida, ao contrário do que muitos dizem (vide Flores Partidas, Cassino e até mesmo o primeiro Instinto Selvagem). Problema de direção!

Mas nada supera a pavorosa canastrice do casal central, David Morrissey – sem dúvida um péssimo ator e candidato forte à PIOR interpretação do ano – e Sharon Stone – que deixou de lado a aura sedutora, levemente insinuante, misteriosa e totalmente blasé de Catherine Tramell para transformá-la numa mulher que pegou praia demais, só sabe falar gemendo e fazer cara-de-atriz-de-filme-pornô (!). Pô, Sharon, tu é elogiada pela crítica, não precisava dessa mancha no currículo! Pra mim, o caso pior é mesmo o de David Morrissey. Dá vontade de implorar para que a escritora saque logo o furador de gelo e enterre no crânio do indivíduo o mais rápido possível, para que o filme termine o quanto antes… Ugh. :-P

E a questão do SEXO? Pois é. Todo mundo temia que Instinto Selvagem 2 não passasse de um Cine Privê de luxo. Bem, isto não acontece, pois quase não tem sexo no filme (!). Sabe lá o que aconteceu, se os produtores temeram a possibilidade de ser massacrados pela crítica ou crucificados pelos censores, mas o fato é que as pouquíssimas cenas de sexo e/ou seqüências ousadas com nudez não somam dez minutos se reunidas; e o pouco mostrado não é o suficiente para arrepiar os cabelos de nenhuma carola. O máximo de ousadia ao qual o longa se submete é uma cena de diálogo entre Glass e Tramell, com ela usando apenas um robe aberto que ocasionalmente revela suas partes baixas – até então, Short Cuts – Cenas da Vida ousou muito mais ao mostrar o glorioso “capô de Herbie” da Julianne Moore o tempo todo durante um diálogo hiper-longo. :-D

Ao invés disso, preferiram investir num roteiro banal, confuso, lotado de reviravoltas estúpidas e que tenta terminar de forma dúbia, mas só consegue mesmo deixar todo mundo com um esplendoroso ponto de interrogação ao final do filme.

Pra resumir, assistir Instinto Selvagem 2 e tacar fogo em nota de dez reais dá no mesmo. É um trabalho fraco, desinteressante, que comete a grave falta de banalizar um personagem tridimensional e, como se não bastasse, sequer consegue respeitar a construção e os detalhes fornecidos pela história do longa anterior. Talvez pudesse ser categorizado como “regular” caso não carregasse nas costas a responsa de honrar suas origens, mas do jeito que está, não passa mesmo de um filmeco de quinta. Trocando em miúdos, e pedindo perdão pelo termo chulo, se Instinto Selvagem foi deveras excitante, Instinto Selvagem 2 é uma bela de uma senhora broxada. :-P

CURIOSIDADES:

• O principal papel masculino de Instinto Selvagem 2 seria vivido por Robert Downey Jr., que não pôde aceitar por estar preso por porte de drogas na época das filmagens (hehehe). Outros atores, como Kurt Russell e Pierce Brosnan, foram cogitados e até receberam uma cópia do roteiro, mas devolveram ao remetente sem tocar no texto (hahaha).

• O medonho Benjamin Bratt chegou a ser contratado para viver o dr. Michael Glass, mas foi demitido em seguida. O motivo: Sharon Stone não queria trabalhar com ele, pois em suas palavras, “Bratt é um péssimo ator”. Hahahaha! Demitiu Bratt e aceitou o David Morrissey? Céus, foi trocar seis por meia dúzia.

• Nas primeiras discussões sobre o projeto, os produtores tencionavam trazer o cineasta Paul Verhoeven, responsável pelo primeiro filme, novamente para o cargo de diretor. Recém-saído do fracasso de Showgirls e empolgado com novos projetos em sua terra natal, a Holanda, Verhoeven recusou. Durante muito tempo, o nome na cabeça dos caras para substituir Verhoeven era o de David Cronenberg (!). Imaginem o que o elemento não faria com a produção…

• A pré-produção de Instinto Selvagem 2 enfrentou diversos problemas entre 2000 e 2001. Muitos dos problemas envolviam a difícil escolha para o diretor certo (OI?) e o ator certo (OI?). Pra piorar, em 2001, Sharon Stone moveu um processo contra os produtores Mario Kassar e Andrew Vajna (sem trocadilhos infames, por favor), por deixá-la indisponível para outros trabalhos por conta deste aqui. O fato é que a atriz alegou que o contrato para o longa não permitia que ela realizasse outros filmes, o que a deixou paralisada por anos.

BASIC INSTINCT 2 • EUA/ALE/ESP/ING • 2006
Direção de Michael Caton-Jones • Roteiro de Leora Barish e Henry Bean
Elenco: Sharon Stone, David Morrissey, Charlotte Rampling, David Thewlis, Hugh Dancy.
114 min. • Distribuição: Columbia Pictures.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: