Encontros e Desencontros

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 16/10/2006.

Encontros e Desencontros (Lost In Translation)

“Consegue manter um segredo? Estou organizando uma fuga. Primeiro, precisamos escapar deste bar. Depois, do hotel. Depois, da cidade, e por último, do país. Posso contar com você?”

Antes de qualquer coisa, imagine-se nesta situação: você é uma pessoa tímida que recebeu um convite de seu melhor amigo para ir a uma festa. Ao chegar na festa, descobre que não há ninguém que você conheça além de seu amigo. Sendo assim, a tendência é você se sentir deslocado e passar a festa inteira sentindo a necessidade de se manter ao lado deste amigo para sobreviver, certo? Ok, isto pareceu meio sem sentido, mas acredite: há um sentido. Por ora, guarde este parágrafo. ;-)

Vamos, agora, ao que interessa.

Quando As Virgens Suicidas chegou aos cinemas, em 1999, a crítica e o público foram (quase) unânimes em saudar Sofia Coppola como uma grata surpresa: a imprensa, particularmente, não poupou adjetivos bastante agradáveis para a ótima estréia na direção de longas da excelentíssima filha do senhor Francis Ford Coppola. Ok, primeiro passo, legado familiar absolutamente honrado. Mas… será que As Virgens Suicidas não teria sido apenas um projeto muito bem escolhido? Estávamos mesmo falando de alguém com talento correndo nas veias ou aquilo tudo era “sorte de principiante”? Um único filme nas costas era o suficiente para afirmar as virtudes da cineasta de primeira viagem?

A resposta veio literalmente do Japão. Segundo trabalho seu na direção, Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003) foi concebido para ser apenas uma fita pequena, sem maiores pretensões; tanto que só saiu do papel porque havia uma brechinha na agenda de Sofia e também porque ela não tinha condições de botar em prática aquele que seria seu segundo longa-metragem: Maria Antonieta. Encontros e Desencontros acabou com um glorioso número de 68 prêmios internacionais – incluindo aí o Globo de Ouro de Melhor Filme (Musical ou Comédia) e o Oscar de Melhor Roteiro Original – e a aprovação (quase) unânime da crítica especializada. Com Encontros e Desencontros, Sofia Coppola provou que não era só uma promessa.

Mas o que há de tão especial aqui? Bem… tudo. Aparentemente uma história simples sobre duas pessoas vivendo uma paixão proibida – veja bem, digo “aparentemente” porque é desta forma superficial que muita gente equivocadamente enxerga a produção -, Encontros e Desencontros transcende seu tenebroso título brazuca para nos entregar um fabuloso estudo do comportamento humano, da necessidade dos seres humanos de manter uma identificação e uma ligação afetiva com qualquer coisa que seja para continuar respirando; uma história tão universal quanto atemporal.

E o que é melhor: Sofia Coppola faz tudo isto sem excessos, sem precisar criar zilhões de maneirismos técnicos (leia-se: exercício de massagem de ego) ou torrar centenas de milhões de dólares. Apenas ligando sua câmera e funcionando como testemunha ocular de dois personagens que são muito além do “eu te amo e você me ama”. Há uma urgência tão grande da parte de Sofia Coppola em contar sua história que o público disposto a mergulhar na proposta da fita não consegue evitar simpatizar (e se comover) com o resultado final da película.

De simples, porém, Encontros e Desencontros tem muito pouco. Se sua estrutura em termos de realização é objetiva, simplista e bastante direta, a trama permite uma cacetada de interpretações. Senão, veja só: o outrora cultuado e hoje decadente astro de cinema ianque Bob Harris (Bill Murray) chega ao Japão para rodar um comercial de bebida e com isso ganhar dois milhões de dólares. Sua integridade artística está abalada, afinal, como ele mesmo diz, ele “ganha dinheiro rodando um comercial de whisky quando poderia estar no elenco de uma peça”. Não que isto o incomode muito, já que o cachê é generoso. Na verdade, sua estadia de uma ou talvez duas semanas em Tóquio é uma ótima oportunidade para tirar férias de seu casamento de 25 anos, um tanto desgastado – tão desgastado que só há diálogo entre Bob Harris e sua esposa quando o assunto é a reforma da casa (e ainda assim, um diálogo incompreensível, já que Bob não consegue identificar qual cor, afinal, é borgonha – não entendeu? assista!).

No hotel onde Bob Harris se hospeda, está Charlotte (Scarlett Johansson – uma personagem visivelmente inspirada na própria Sofia Coppola). A garota, norte-americana recém-formada em filosofia, acompanha seu marido John (Giovanni Ribisi – um personagem visivelmente inspirado no ex-marido de Sofia, o cineasta Spike Jonze), fotógrafo contratado para registrar a turnê de uma famosa banda de rock. Charlotte passa grande parte de seus dias sozinha, passeando por Tóquio.

Bob e Charlotte têm algo em comum: ambos estão em um país estranho, cercados por idioma, costumes e tradições diferentes. Ambos são dominados por uma terrível sensação de não-pertencimento, de total deslocamento, e não conseguem dormir por causa do fuso horário maluco. Ambos sofrem com a solidão de ser “estranhos no ninho” e vêem esta solidão refletir seus próprios sentimentos acerca de suas existências – na verdade, suas sensações de incompatibilidade não provém apenas de suas passagens pelo Japão; poderiam estar nos Estados Unidos, no Brasil, no Pólo Norte, em outro planeta. Bob e Charlotte passam suas noites em claro no bar do hotel, curtindo drinks, cigarros e música ao vivo. Começam a conversar, descobrem afinidades. Decidem explorar Tóquio que, antes estranha, agora surge imponente e encantadora. Nasce uma amizade como Bob e Charlotte nunca viram em suas vidas. De repente, tudo fica iluminado. Só o que Bob Harris e Charlotte precisam é da companhia e do ombro um do outro para sobreviver não ao país ou aos costumes estranhos a si, mas à prisão de seu próprio cotidiano, de sua própria realidade, não importa onde estejam.

Mas este delicado equilíbro estabelecido com a amizade tem dia, hora e local para acabar.

Lendo o plot, é de se perguntar onde estão as “zilhões de leituras e interpretações” aqui. Bem, estão em todos os cantos da fita: à exemplo de seu primeiro filme, Sofia Coppola centra sua câmera não nas obviedades, mas sim em pequenos detalhes que passam despercebidos aos olhos menos atentos; o olhar vago e depressivo de Bob Harris, o choro contido de Charlotte ao telefone, o desconforto de Bob na sessão de fotos, o imperceptível e quase discreto acesso de ciúmes de Charlotte quando John começa a bater um papinho no hall do hotel com a starlet Kelly (Anna Faris – uma personagem visivelmente inspirada em Cameron Diaz), o sorriso espontâneo de Charlotte quando encontra-se ocasionalmente com Bob no bar ou a caminho da piscina. Para coroar estas cenas, Coppola entrega uma série de diálogos inspiradíssimos – em certo momento, a esposa de Bob diz ao telefone: “Devo me preocupar com você?”, e ele responde, quase a ponto de chorar: “Só se você quiser”.

Para que este elo – que não é amoroso – funcione à perfeição, as atuações de Bill Murray (magistral!) e Scarlett Johansson são fundamentais. Me desculpem os detratores da garota, mas Encontros e Desencontros é uma prova absoluta e inquestionável do enorme talento de Johansson.

Aí é que está: o tal do “elo”. Voltemos agora ao primeiro parágrafo: há uma gama de gente que simplesmente ODIOU Encontros e Desencontros apenas por acreditar que a presença de Bill Murray indicou, no máximo dos máximos, uma comédia romântica. Errado como comédia e errado como romance, mas este erro é também da forma com que o longa foi vendido, principalmente no Brasil. Ainda que o processo de adaptação de Bob Harris ao novo mundo renda momentos bem engraçados – como a cena da esteira e a hilariante participação de Bob no tosquésimo Matthew’s Best Hit TV -, a essência de Encontros e Desencontros é absolutamente dramática.

E a parte do suposto “romance”… não há romance aqui – maldita mania estadunidense de não aceitar uma amizade entre um homem e uma mulher sem colocar romance no meio (!). O que há aqui é a extrema necessidade de dois personagens de se manter juntos, como se um fosse o apoio do outro, como se um fosse o convidado estranho de uma festa na qual só conhece o outro, e precisa manter-se ao lado daquele outro o tempo todo para não ser engolido pelo momento, pela situação. E quantas vezes você não sentiu que precisava, de qualquer maneira, grudar em alguém para não ser cruelmente devorado pelo mundo? :-)

A mágica e delicada experiência de conferir Encontros e Desencontros encontra seu ápice na seqüência final – e se você ainda não assistiu ao longa e pretende fazê-lo, faça o favorzinho de não ler este parágrafo (!). Com um brilhante uso da fodáxima Just Like Honey, hit absoluto dos caras do Jesus and Mary Chain, Coppola encerra a odisséia de Bob Harris e Charlotte com uma conversa ao pé do ouvido que jamais é explicitada ao espectador. Afinal, aquele momento é só deles, e seria uma pusta sacanagem invadir um momento tão íntimo e tão particular das personagens. A escolha de Sofia Coppola em tecer um destino triste (e belo ao mesmo tempo) aos dois e manter-se como uma testemunha ocular, sem direito a intromissões, revela sua verdadeira intenção como cineasta: ela não quer sugerir soluções ou determinar rumos; ela quer apenas observar a vida, com todos os seus dramas e suas belezas. Ela quer apenas deixar as coisas rolarem por si só, desde que consiga captar com sua câmera todos os sentidos de cada troca de olhar, de cada sorriso disfarçado entre Bob e Charlotte.

Se havia alguma dúvida, Encontros e Desencontros é a evidência definitiva de que Sofia Coppola não é apenas herdeira do talento de seu pai, mas também uma cineasta capaz de captar os sentidos humanos como poucos. E isto, provavelmente, não herdou de ninguém: é um dom natural.

LOST IN TRANSLATION • EUA/JAP • 2003
Direção de Sofia Coppola • Roteiro de Sofia Coppola
Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris, Fumihiro Hayashi, Takashi Fujii, Akiko Takeshita, Catherine Lambert, Nao Asuka.
102 min. • Distribuição: Focus Features/Columbia.

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