Casa de Areia

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 11/05/2005.

Casa de Areia

O estranho e ambicioso Casa de Areia (Idem, 2005), terceira investida do diretor de publicidade Andrucha Waddington na direção de longas-metragens – as outras películas são o suspense Gêmeas e a divertida “dramédia” Eu Tu Eles –, chega para abrir um louvável parêntese no nosso cinema brazuca: talvez seja a primeira grande produção tupiniquim, depois da retomada, a unir num só pacote todos os elementos do “cinema de arte” e do “cinema pipoca”. A produção, passada na íntegra em pleno deserto maranhense, pretende com isto atrair tanto a parcela cult quanto o público em geral. Pode esta arriscada empreitada dar certo? Não sei. Mas posso garantir: independente de suas falhas, Casa de Areia é um pusta dum filmaço bão ducaramba! :-D

Ok, a coisa não é tão simples assim: não é só chegar na sala de projeção, pagar ingresso, comprar pipoca, deixar as imagens passearem na tela e sair ladeira abaixo dizendo que adorou o filme (pois é, conheço gente que faz isso!). Aqueles que pretendem conferir o novo longa da premiada Fernanda Montenegro devem ter consciência de que enfrentarão quase duas horas de um cinema totalmente parado e metafórico. Bebendo na fonte de Andrei Tarkovsky e Theo Angelopoulos, Andrucha realiza aqui um exercício de sentidos, de sentimentos e principalmente de paciência. Não que a fita seja chata, definitivamente não. O que acontece é que a estrutura de Casa de Areia baseia-se no silêncio; o silêncio, aliás, pode ser considerado até um personagem central (ao lado de Montenegro e Fernanda Torres, pela primeira vez trabalhando juntas durante um filme inteiro), tamanha sua importância para a compreensão da história.

Paciência, por sinal, é a grande virtude de D. Maria (Montenegro) e o elemento ausente em Áurea (Torres, sem qualquer traço da Vani de Os Normais). As duas personagens, mãe e filha, são forçadas pelo marido de Áurea (o cineasta Ruy Guerra, em uma pontinha bacana) a abandonar a vida estável na cidade grande para se embrenhar no desolador deserto do Maranhão, à procura das terras que Vasco, o marido, comprou a preço de banana. Estamos em 1910. Nem bem a fita começa, o pesadelo também dá a partida: Vasco, Áurea, D. Maria e a pequena caravana de trabalhadores incumbidos de construir a casa encontram o tal terreno, e descobrem que o local, de próspero, não tem nada. Ao contrário, só o que se vê é um lugar cercado de areia e sem qualquer indício de civilização; os trabalhadores fogem, deixando os três para trás; em seguida, Vasco, enlouquecido e disposto a matar qualquer um que ouse destruir seu sonho, inclusive sua esposa, sofre um acidente e morre; e D. Maria e Áurea, que está grávida, percebem que estão perdidas e jamais conseguirão sair dali com vida.

A solução, ainda que não definitiva, é continuar vivendo ali, naquela frágil casinha de madeira e palha, à beira de uma enorme duna de areia que, a qualquer momento, pode ceder e soterrar tudo à sua volta. Enquanto D. Maria aos poucos se acostuma com a situação e defende a hipótese de que é preferível ficar ali a morrer de fome, sede e calor no meio do deserto na tentativa de voltar pra casa, Áurea não consegue pensar em outra coisa a não ser ir embora. Assim, o tempo passa e conhecemos outros personagens, como Massu (o músico Seu Jorge), homem que vive num pequeno povoado, sobra de um antigo quilombo, e se converterá no grande amigo das duas mulheres e, mais tarde, no companheiro de Áurea; e Chico do Sal (Emiliano Queiroz), velhinho dono de uma carroça, responsável pela distribuição de sal no povoado e única pessoa capaz de entrar e sair do deserto com vida, que torna-se peça chave para a sobrevivência das duas mulheres. Mesmo com a possibilidade de se mandar através de Chico, Áurea decide ficar, ao menos até que o bebê cresça.

Casa de Areia acompanha um período de 59 anos na vida destas mulheres, isoladas do mundo, sem qualquer contato com as mudanças universais ocorridas neste tempo. Durante as quase duas horas de projeção (que correspondem aos anos entre 1910 e 1969), o espectador presencia o nascimento e crescimento da filha de Áurea, Maria (Camilla Facundes, de 9 anos, que não chega a ser excelente mas é melhor do que as Debbys da vida!), e o encontro de Áurea com o Tenente Luiz (Enrique Diaz, muito bom), guia de um grupo de cientistas e que pode tirá-la dali. Passam-se alguns anos, e Áurea (agora vivida por Montenegro) está oficialmente “casada” com Massu (interpretado nesta fase por outro cantor, Luiz Melodia) e tem problemas em controlar o gênio, er, “devasso” (!) de sua filha Maria (Torres). Uma nova possibilidade surge quando, mais uma vez, o Tenente Luiz (Stênio Garcia), agora um oficial da 2.ª Guerra, retorna ao deserto.

História interessante, não? Pois é. Mais interessante ainda é a forma com que o enredo foi conduzido. O inspirado roteiro de Elena Soárez apóia-se em poucos diálogos e concentra sua ação nas insólitas imagens. É aí que o silêncio mostra a que veio: as muitas seqüências sem diálogos ajudam bastante o espectador a colocar-se na aterradora posição de Áurea e Maria. Outro elemento que podemos considerar também um personagem é a locação. Os Lençóis Maranhenses (onde a ação acontece), com toda aquela grandiloqüência e aquele vazio, são um palco perfeito para o pesadelo poético, surrealista, quase kafkiano, das pesonagens do filme. Aí é que reside também um dos problemas de Casa de Areia: em alguns momentos, tem-se a impressão de que Andrucha Waddington preocupou-se mais em captar as imagens do local do que direcionar sua câmera à história. É tanta areia e tanto sol que dá enjôo só de pensar em ir à praia! :-P

Por outro lado, este ponto é compensado pela excelente atuação de Fernanda Montenegro, justificando mais uma vez porque é nada menos que a melhor atriz em atividade aqui na nossa terrinha, e também de Fernanda Torres, que pode não chegar aos pés do talento da mãe (sim, desculpem os fãs da moça!), mas não deixa de estar no ramo certo. As mudanças de época não confundem nunca, e são notáveis as mudanças nas características das atrizes. No elenco, também destacam-se os impressionantes trabalhos de Seu Jorge e Luiz Melodia (cuja oportunidade em cena é bem maior do que em seu último longa, Quase Dois Irmãos), que ultimamente andam investindo no filão cinematográfico de forma muito bem-sucedida. O Seu Jorge já atuou até com o Bill Murray, olha só! :-D O trabalho hipnótico e contido de Seu Jorge, seguido no mesmo nível por Luiz Melodia, quase rouba o filme em algumas cenas.

Talvez o único defeito de Casa de Areia seja mesmo a ambição de ser um “produto cult para as massas”; o clima propositadamente arrastado do longa pode aborrecer aquela parcela que procura um cinema mais, digamos, dinâmico. Afinal, só o apelo das atrizes centrais não é o suficiente. A competente direção de Andrucha parece não se decidir entre se entregar a um público específico e tornar o trabalho popular. Um cena em questão dá uma idéia do que estou falando: o longa tem duas cenas de sexo. A primeira delas é totalmente sugestiva, sem que a câmera revele absolutamente nada, sequer uma nudez. Já a segunda quase beira o explícito. Não precisava, né tio! Este problema, esta dúvida em tomar partido de um dos lados, é constante na exibição de Casa de Areia. Entretanto, é um detalhe que não compromete a fita, um excelente trabalho de técnica, atuação e roteiro, que resulta num fantástico exercício metalingüístico sobre o tempo e a ação do tempo nas decisões das pessoas.

Pois é. Como eu disse lá no primeiro parágrafo, não se sabe ainda se a intenção de Andrucha Waddington, de conquistar duas categorias tão distintas com um único trabalho, dará certo. O que podemos afirmar sem dúvidas é que Casa de Areia abrirá muitas portas para diretores que não temem ousar com o nosso cinema, cineastas que não têm uma idéia equivocada do público brasileiro. Vejamos se, com este trabalho, o cinema nacional consegue conquistar mais alguns adeptos, pois está difícil! E quisera eu ver mais filmes com este nas telas… de preferência no lugar de certas coisas protagonizadas pela Juliana Paes. Sim, aquilo foi apavorante! Me deu vontade até de fugir pro deserto do Maranhão. :-D

Ah, antes de terminar, só um parêntese: finalmente tomei vergonha na cara e assisti o DVD de Os Normais – Sem Cortes. Bem, nunca assisti ao seriado, pois a Globo não pega lá em casa (!), e este foi meu primeiro contato com o tão falado programa. Ah, eu achei engraçado. E só.

CURIOSIDADES:

• O russo Andrei Tarkovsky (1932-1986) e o grego Theo Angelopoulos (1935), citados ao início deste artigo, são considerados dois grandes nomes do cinema europeu; seus longas geralmente usam o silêncio, a ausência de diálogo e as imagens como metáforas pesadas do cotidiano. Angelopoulos é bastante conhecido aqui no Brasil por conta dos filmes A Eternidade e um Dia (1998) e o lírico Paisagem na Neblina (1988); Tarkovsky, que ajudou a colocar o cinema russo no mapa, foi responsável pela primeira versão de Solaris (1972), filmaço de sci-fi baseado no best-seller de Stanislaw Lem que ganhou uma releitura totalmente equivocada em 2002 pelas mãos do prepotente Steven Soderbergh (Doze Homens e Outro Segredo). Bem, quando a adaptação de um pusta livro torna-se conhecida apenas por mostrar a bunda pelada do George Clooney, é sinal de que algo está errado…

• O roteiro de Casa de Areia, que levou cerca de dois anos para ser concluído, recebeu em 2003 o prêmio Sundance/NHK International Filmmakers Awards, cedido como estímulo para que o projeto consiga sair do papel. Este mesmo prêmio foi entregue a Central do Brasil, de Walter Salles, alguns anos antes. Walter Salles é um dos produtores executivos de Casa de Areia, ao lado de Luciano Huck. Loucura, loucura, loucura! :-P

• Seu Jorge, músico de renome internacional, fez o papel de Mané Galinha em Cidade de Deus, e deu as caras recentemente no novo trabalho de Wes Anderson, A Vida Marinha com Steve Zissou, ao lado de Bill Murray. Aliás, um clipe de uma das músicas de Seu Jorge, Tive Razão, conta com a participação especial de Murray e também do glorioso Willem Dafoe, também presente no elenco de Vida Marinha.

• A idéia de rodar Casa de Areia surgiu a partir de uma fotografia de uma casa abandonada e parcialmente coberta por uma duna de areia. Andrucha tomou conhecimento da história por trás desta fotografia através de Luiz Carlos Barreto, produtor de cinema e pai de Bruno Barreto.

• Os mais contentes com a produção de Casa de Areia com certeza são os moradores da pequena cidade de Santo Amaro, localizada na fronteira do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (região protegida pelo Ibama). A pequena cidade, que serviu de base para a equipe técnica, possuía apenas uma pousada e outra em construção. A equipe do filme adiantou as obras da segunda pousada, alugou 32 casas na região e ainda gerou uma série de empregos para seus habitantes.

Casa de Areia custou aproximadamente R$ 8.6 milhões.

• Um milagre: Caco Ciocler, o Jude Law brasileiro, não está no elenco deste filme! :-P

CASA DE AREIA • BRA • 2005
Direção de Andrucha Waddington • Roteiro de Elena Soárez
Elenco: Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Ruy Guerra, Seu Jorge, Luiz Melodia, Enrique Diaz, Stênio Garcia, Emiliano Queiroz, Jorge Mautner.
103 min. • Distribuição: Columbia Pictures.

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One Response to Casa de Areia

  1. Spot Schmitz disse:

    Muito legal o filme e a crítica!!

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