Beijos e Tiros

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 28/11/2005.

Beijos e Tiros (Kiss Kiss Bang Bang)

Em certo momento do ótimo Alta Fidelidade, o personagem de Jack Black questiona: “É justo condenar uma pessoa por seus erros no passado”? A meu ver, acho que não. Mas não posso negar que, no passado, se alguém me dissesse que uma das coisas mais divertidas que chegaria aos cinemas em 2005 era uma comédia policial protagonizada por Robert Downey Jr., mais conhecido como “mamãe-sou-junkie” (!), e um outro indivíduo chamado Val Kilmer, eu teria um surto de pânico e ficaria tão desorientado e temeroso quanto os pobres habitantes de Oakey Oaks quando descobriram que o céu estava caindo no divertidíssimo O Galinho Chicken Little. :-)

Quem não entendeu o “momento medo” deste que vos fala, eu explico: até pouco tempo atrás, os nomes de Robert Downey Jr. e Val Kilmer eram associados a fitinhas bem chulé – alguém aí pensou em Na Companhia do Medo e Planeta Vermelho? Como se não bastasse, todos estão carecas de saber que os dois atores conseguem ser beeem canastrões quando querem. E para agravar ainda mais a situação, a tal película estrelada por Downey e Kilmer é escrita e dirigida por Shane Black, que fez história com os roteiros da crassicona cinessérie Máquina Mortífera e depois só fez “caquinhas” como O Último Boy Scout, caindo ao limbo do esquecimento com a mesma velocidade que chegou ao topo.

Depois disto tudo, duvidar da qualidade de Beijos e Tiros (Kiss Kiss Bang Bang, 2005) é perfeitamente plausível e justificável. A boa notícia, entretanto, surpreende qualquer um: Beijos e Tiros é, sem sombra de dúvidas, a produção mais bacanuda e divertidona do ano – guardadas, claro, as devidas proporções. Não dá para compará-lo com um Batman Begins ou um Sin City da vida, pois são gêneros completamente diferentes. Enfim, o longa é tão descompromissado e tão cheio de ótimas piadas e sacadas geniais, que é impossível não sair da sessão com um baita sorrisão na fuça.

Por incrível que pareça (e acreditem, eu não enlouqueci de vez – ainda), Beijos e Tiros torna-se uma experiência tão engraçada por conta de seus milhões de… clichês. Sim, a fita é infestada de clichês. Mas subverte os clichês e os usa a seu favor, para fazer graça. O bem-sacado roteiro de Shane Black, uma sátira disfarçada de cinema policial, não se leva a sério em momento algum. O resultado? Um filme movimentadíssimo, frenético, que usa e abusa de hilariantes referências ao cinema noir e aos clássicos “filmes de parceiros” (um dos mais zoados é curiosamente o próprio Máquina Mortífera). E com tudo isto, ainda sobra tempo para Black desenvolver personagens ultracarismáticos, diálogos irresistíveis e uma história tão inteligente quanto tapada. Pois é, a trama é tão absurdamente idiota e surreal que só idealizá-la já é divertido.

Então, vamos ao enredo: o medíocre ladrãozinho Harry Lockhart (Downey), acostumado a sempre se dar mal, comete mais uma burrada e é perseguido pela polícia. Na confusão, o cara invade um teste de atores para um seriado de TV e termina contratado como o protagonista da série (?), onde interpretará um detetive. Assim, Lockhart é despachado para Los Angeles, onde deverá acompanhar o dia-a-dia de um detetive real, Perry Van Shrike (Kilmer), mais conhecido como “Gay Perry” por conta de sua condição sexual (!). Mas Harry é daquele tipo de pessoa que atrai problemas até quando está dormindo. Logo, durante uma investigação de rotina, Harry e Gay Perry encontram-se mergulhados até o talo numa bizarra seqüência de assassinatos…

Ok, agora chega! Falar mais é um crime – e talvez nem fosse possível, já que Beijos e Tiros conta com um sem fim de reviravoltas mirabolantes em seu decorrer. O que posso falar aqui é que a fita conta com atuações impagáveis de Robert Downey Jr., da maravilhosa Michelle Monaghan (ai, ai, ai…) e principalmente de Val Kilmer, há tempos precisando de um bom papel. Os diálogos são uma atração à parte: a impagável narração de Harry em off, por exemplo, solta uma infinidade de pérolas engraçadíssimas! Só para citar um exemplo, durante os créditos finais, o narrador lembra o espectador de carimbar o ticket do estacionamento (!) e pede desculpas em nome dos personagens, envergonhados por terem declamado a palavra “fuck” várias vezes durante a projeção (!!!). Piada boba e clichê, mas que todo mundo gosta. ;-)

O mérito maior de Beijos e Tiros, no entanto, é justamente a parceria entre Downey e Kilmer. Seguindo o velho estilo de Máquina Mortífera, os atores demonstram um timing perfeito para a comédia e entregam uma das melhores atuações de suas carreiras. Por esta ninguém esperava, né? :-D Enfim, ambos estão bem à vontade e Kilmer merece uma salva especial por não estereotipar seu personagem em momento algum.

Infelizmente, há um pequeno problema. Bem, na verdade, este problema não é do filme, e sim da distribuidora. Beijos e Tiros foi muito mal lançado por aqui, quase sem divulgação e entre dois pesos-pesados chamados Harry Potter e o Cálice de Fogo e As Crônicas de Nárnia, que não darão trégua nas bilheterias. Se eu fosse um marketeiro da Warner, faria das tripas coração para conseguir lançar Beijos e Tiros em algum período de poucos lançamentos, e com uma boa divulgação. Ainda assim, a película certamente ganhará muitos fãs em seu futuro lançamento em DVD. Uma pena que uma boa parcela do público poderá virar a cara para o filme, já que não é todo mundo que gosta de humor negro. Principalmente quando envolvem cadáveres mutilados e coisas singelas do gênero. :-P

Resumindo rapidamente: um filmaço com F maiúsculo, engraçadão e delicioso de assistir!

Olha, eu nunca pensei que fosse dizer isto, mas… Robert Downey, Jr. e Val Kilmer são OS CARAS! Depois de declarar esta simpatia publicamente (além de afirmar que os clichês são a melhor coisa do filme), até eu mesmo acho que estou ficando meio pancada…

CURIOSIDADES:

• O roteiro de Beijos e Tiros é inspirado em parte no romance Bodies Are Where You Find Them (traduzindo literalmente, Cadáveres Estão Onde Você Os Encontra), de Brett Halliday. O longa é dividido em vários capítulos, e cada um é nomeado com um título. Os títulos dos capítulos remetem às obras do escritor de pulps Raymond Chandler.

• Os papéis centrais seriam vividos por Johnny Knoxville (como o ladrão) e Harrison Ford (como o detetive). Outros atores sondados para viver os personagens foram Benicio Del Toro e Hugh Grant.

• O climão de amizade reinou supremo nos bastidores de Beijos e Tiros. Tanto que Val Kilmer recusou-se a beber álcool durante as filmagens e nos intervalos, como forma de estimular Robert Downey Jr. a manter-se no tratamento para dependentes químicos.

• Michelle Monaghan é a rainha da sala de montagem. Ela já participou de filmes como Constantine e o inédito Syriana – A Indústria do Petróleo. Mas sua participação foi simplesmente cortada. Tadinha. :-) Atualmente, Monaghan está no elenco de Missão: Impossível III. E o Fanboy e eu acreditamos que ela seja irmã ou alguma parente próxima do Dominic Monaghan (Lost). Não que ela pareça com aquele orelhudinho, é só por causa do nome mesmo. :-P

KISS KISS BANG BANG • EUA • 2005
Direção de Shane Black • Roteiro de Shane Black
Elenco: Robert Downey Jr., Val Kilmer, Michelle Monaghan, Dash Mihok, Corbin Bernsen, Larry Miller.
102 min. • Distribuição: Warner Bros.

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