Be Cool – O Outro Nome do Jogo

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 14/04/2005.

Be Cool - O Outro Nome do Jogo

Quando o notório Quentin Tarantino lançou seu Pulp Fiction – Tempo de Violência em 1994 e fez história, todo mundo queria ser igual a ele. E quando foi divulgado, neste mesmo ano, que o próximo projeto do cineasta seria a adaptação de Ponche de Rum, a deliciosa pulp escrita pelo renomado autor americano Elmore Leonard, todos trataram de escolher livros do cara e rodar suas versões o mais rápido possível. Já que Tarantino estava na moda, nada melhor do que pegar carona na cauda do cometa, certo? Enfim, o mala Steven Soderbergh apresentou o divertido Irresistível Paixão, o polêmico Paul Schrader rodou o bacaninha Caindo em Tentação e o próprio Tarantino finalmente mostrou ao mundo o controverso Jackie Brown, não exatamente uma adaptação, mas uma variação de Ponche de Rum. Antes de todos estes, porém, Barry Sonnenfeld entregou voando o primeiro longa da onda Elmore Leonard: O Nome do Jogo, em 1995.

Minha opinião? Fraco. O Nome do Jogo soou pra mim como uma tentativa desesperada de transformar o estilo narrativo de Tarantino num subgênero dentro do conceito policial. A história do gângster Chili Palmer, um cobrador da máfia com uma atração irresistível para as artes (?), pareceu não se adequar tanto assim ao universo do cinema. E olhe que os produtores usaram até um “ator de Tarantino”, um ressuscitado John Travolta, para viver o personagem! Isso porque a primeira escolha da MGM para dirigir O Nome do Jogo era o próprio diretor de Pulp Fiction… Enfim, a fita fez um relativo sucesso – custou US$ 30 milhões e rendeu US$ 72 milhões só nos States – e abriu as portas para que o nome de Elmore Leonard fosse terrivelmente desgastado no cinemão americano (como sempre acontece, né?). E parece que esta sexta-feira, 15 de Abril, é o dia das continuações tardias! Eis que, dez aninhos depois, finalmente estréia em circuito comercial Be Cool – O Outro Nome do Jogo (Be Cool, 2005). Na direção, sai Sonnenfeld e entra F. Gary Gray (de O Negociador e Uma Saída de Mestre).

Em O Nome do Jogo, o longa-metragem anterior, Chili Palmer queria se tornar um grande produtor de cinema de qualquer jeito – usando, para isso, seus métodos pouco convencionais… Agora, o universo é outro: Palmer está cansado e iludido com a meca cinematográfica, depois de ter sido forçado a rodar uma desnecessária continuação (!) para o maior sucesso de seu “pupilo”, o bisonho Martin Weir (Danny DeVito, repetindo seu papel do primeiro longa). A ironia já começa logo na primeira fala, quando Palmer dispara: “Odeio seqüências!”. Hehehe… Entenderam a ligação? Dãããã! :-D

Depois que um amigo e produtor musical (James Woods numa rápida aparição, mas ainda assim muito bacana) morre durante um almoço, Palmer descobre que sua viúva, a bela Edie (Uma Thurman), herdou um estúdio e pretende tocar os negócios do marido. Com isto, Palmer decide abandonar a carreira de produtor cinematográfico e investir neste novo filão: a pop music norte-americana. De quebra, ele tentará ganhar o coração da moça e também lançar uma nova diva rapper, Linda Moon (Christina Milian). O problema é que, no caminho, Palmer acabará cruzando com a Máfia russa e um grupo de rappers assassinos e, como sempre, tentará resolver as coisas a seu modo…

O enredo é isso aí, esticado em duas horas cravadas. Como se pode ver, é uma bobagem. Ainda assim, o diretor F. Gary Gray, visivelmente mais fraco que Barry Sonnenfeld, conseguiu realizar um longa que funciona até melhor que seu antecessor – o que não significa que Be Cool seja bom. Se O Nome do Jogo apresentava uma história bacaninha porém cansativa, Be Cool tem na história o seu fraco, mas sustenta-se na bizarra galeria de personagens desenvolvidos pelo roteiro de Peter Steinfeld (do hiperdescartável A Máfia Volta ao Divã). Enquanto John Travolta e Uma Thurman não conseguem repetir a fantástica química de Pulp Fiction e deixam a desejar – aliás, Thurman comprova que só se sai bem quando dirigida pelo próprio Tarantino –, somos presenteados com hilariantes e descompromissadas atuações dos atores que assumem os personagens secundários, que incluem o desprezível gerente musical Nick Carr (Harvey Keitel), o produtor de rap Sin LaSalle (Cedric The Entertainer), o assassino Joe Loop (Robert Pastorelli) e o imbecil líder da gangue rapper Dabu (André Benjamin, mais conhecido como André 3000, da dupla Outkast).

Só pra ter uma idéia de como o negócio é tosco, até o Steven Tyler, o cabeça e boca (principalmente boca) do Aerosmith, está no elenco – e satirizando a si mesmo num papel até importante. Olha a frase que o cara solta: “Vejam, não sou apenas um destes cantores que aparecem em filmes!”. Mais sarcástico, impossível. Pelo menos Steven Tyler não interpreta um duende do Papai Noel desta vez… Alguém lembra de O Expresso Polar? Ugh! :-P

No entanto, se há algum elemento que realmente justifique o preço do ingresso, este elemento tem nome. Ou melhor, dois nomes: Vince Vaughn e Dwayne Johnson, mais conhecido como The Rock. Vaughn, que interpreta Raji, um mafioso nojento que acredita fielmente ser negro (!), está em um de seus melhores dias e explica tranqüilo porque anda tão em alta hoje em dia. O caso mais impressionante é o de The Rock, que revela um ótimo timing para a comédia e transforma seu Elliot – guarda-costas gay, namorado de Raji e aspirante a ator – no personagem mais divertido da fita toda! Disparado, é a melhor sacada do filme. Quando The Rock e Vince Vaughn estão juntos em cena, então, é de fazer o espectador usar fraldinha, pra não molhar as calças de tanto rir. :-P

Então Be Cool vale a pena? Em partes. Algumas atuações, sim, são divertidíssimas. Mas o clima totalmente “MTV gringa” incomoda bastante. Se você é como eu e não consegue suportar três minutos sequer daquelas “tentativas de música” e bandas de hip-hop estadunidenses, a produção não é a mais indicada. O visual, as atuações e a estrutura do filme são tão MTV que quase torna o longa restrito aos fãs deste gênero musical. Neste ponto, Be Cool falha bonito: se a produção tencionava retratar os bastidores da indústria fonográfica com fidelidade, só conseguiu mesmo abranger o universo rapper, e as duas horas de projeção, para quem não é chegado, se transformarão em uma eternidade. Mas o problema maior ainda é o fator Quentin Tarantino: a direção de F. Gary Gray sofre uma terrível influência do diretor de Kill Bill, e esta influência está impregnada em cada fotograma. Tanto que Travolta e Thurman até protagonizam uma cena de dança! Se Be Cool não fosse tão preocupado em ser “o novo Pulp Fiction”, certamente seria muito mais engraçado.

Pra resumir, é um trabalho bacana que até vale o ingresso, caso você esteja MUITO desesperado pra assistir. Se você não deixará de viver caso não assista, então é melhor economizar o dinheiro do ingresso! Bem, eu dei algumas risadas… Mas ainda prefiro o Tarantino original! Nada de pirataria, moçada! :-P

CURIOSIDADES:

Be Cool – O Outro Nome do Jogo foi o último filme do ator Robert Pastorelli (de Queima de Arquivo), que faleceu em Março de 2004, vítima de overdose.

• A idéia de convidar Uma Thurman para estrelar a fita veio do próprio John Travolta. O ator tinha intenção de “recriar” o clima de Pulp Fiction. Só a intenção, mesmo…

• Originalmente, Be Cool foi oferecido a Brett Ratner (Dragão Vermelho, Ladrão de Diamantes), que desistiu de dirigi-lo por razões não esclarecidas.

• Outro que foi convidado a participar do longa, mas recusou misteriosamente, foi o meio sumidão Joe Pesci (Cassino). Na verdade, Pesci não aparece nas telonas desde 1998, quando rodou Máquina Mortífera 4; de 1998 até hoje, o ator só participou de um documentário em homenagem a Robert DeNiro e um tardio making of do clássico Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese.

BE COOL • EUA • 2005
Direção de F. Gary Gray • Roteiro de Peter Steinfeld
Baseado no romance “Be Cool”, de Elmore Leonard
Elenco: John Travolta, Uma Thurman, Vince Vaughn, Dwayne “The Rock” Johnson, Cedric The Entertainer, Christina Milian, Andre Benjamin, Harvey Keitel, Danny DeVito, Steven Tyler, James Woods, Seth Green.
118 min. • Distribuição: United Artists/Metro Goldwyn Mayer.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: