Tudo Por Dinheiro

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 20/04/2006.

Tudo por Dinheiro (Two for the Money)

Lugar de filme é no cinema? Mais ou menos. Existem longas-metragens que nasceram para ser exibidos nos cinemas e longas-metragens que funcionam melhor na telinha da TV. Isto é fato. Na minha humilde opinião, aliás, alguém precisa construir com urgência um cinema que exiba coisinhas lindas como Alien, Blade Runner e Clube da Luta eternamente, para que possamos desfrutá-los sempre que quisermos e da maneira correta: na tela grande. Uma idéia nada má, não é mesmo? Pensarei nesta proposta com carinho, depois de fundar meu tão sonhado Cinema Unitário (não sabe do que estou falando? Busque “Cinema Unitário” neste website que você entenderá). :-)

Aparentemente, parece que os executivos de estúdios e marketeiros de distribuidoras não estão ligando muito para isto. Há algumas semanas atrás, por exemplo, conferi o DVD de MirrorMask – Máscara da Ilusão, de Neil Gaiman e Dave McKean, e não pude deixar de amaldiçoar eternamente aquele que teve a “brilhante” idéia de desovar este embasbacante delírio visual direto nas prateleiras das locadoras, sem propiciar um (mais que merecido) lançamento nos cinemas. Pô, aquele filmaço é pra ser ver na telona, com um som decente e a maior qualidade de imagem que se possa imaginar! Infelizmente, mesmo sendo um trabalho bem legal, MirrorMask se perde feio na telinha. Sacanagem.

Mesmo sem vínculo algum em termos de história ou estrutura, o drama esportivo Tudo por Dinheiro (Two for the Money, 2005) funciona como antagonista de MirrorMask neste ponto. Afinal, o longa, que chega aos cinemas nesta sexta-feira, poderia cair direto para o vídeo que ninguém notaria a diferença. Nada a ver com as (poucas) qualidades da película, mas Tudo por Dinheiro é um filminho bem “ugh” que até poderia agradar quando exibido na TV aberta num daqueles dias chuvosos na qual você só quer mergulhar no edredon e morrer em frente à televisão tomando um chocolate quente. No cinema, entretanto, fará muita gente sair xingando Deus e o mundo – ainda mais quando sabemos que o preço do ingresso anda tão “baratinho” (cuidado: ironia).

Pra ser bem sincero, não consigo enxergar outro atrativo nesta produção além do nome poderoso do senhor Al Pacino (O Poderoso Chefão) no elenco – se você é fã do cara e não pensa duas vezes em pagar pra ver qualquer coisa dele, vai fundo.

Vamos às explicações: esta produção, dirigida pelo irregular D. J. Caruso (de A Sombra de um Homem e Roubando Vidas), já traz um plot ambientado num universo meio desconhecido e praticamente ignorado pelo público brazuca – a banca de apostas de esportes, mais exatamente do futebol americano, mercado que movimenta mais de US$ 200 bi por ano lá fora -, o que o torna basicamente um “filme para ianque ver”, sem apelo aqui no Brasil. Só este detalhe já seria suficiente para espantar boa parte dos espectadores, mas para complicar, Tudo por Dinheiro é uma fita longa demais, cansativa demais, sua história é bem fraca e está repleta de clichês e personagens estereotipados, o que enfraquece bastante a esforçada (mas não milagrosa) atuação dos atores centrais.

Na trama, o quarterback Brandon Lang (Matthew McConaughey, Armações do Amor), humilde e carente de amor paterno, sofre um acidente na quadra e fratura o joelho. Com isto, é forçado a abandonar seu sonho de se tornar um grande jogador de futebol americano para trabalhar como atendente num furreco serviço de informações 0-900 de Las Vegas, onde o cara dá dicas de entretenimento. Sua má sorte começa a mudar quando assume o cargo de um colega e começa a falar de esportes: com seu enorme conhecimento no ramo, Lang passa a dar pequenas dicas para apostas em jogos, revelando um talento nato para o lance.

Os dons quase proféticos de Lang em prever resultados chamam a atenção de Walter Abrams (Al Pacino), o cabeça de uma empresa de “consultoria esportiva” (leia-se: previsões de apostas de esportes) de Nova York. Walter fica tão empolgado com o talento de Brandon que o leva para NY e arrisca tudo o que tem no rapaz. Na verdade, o que Walter quer mesmo é construir um império em torno do indivíduo. Conseqüentemente, ambos estabelecem uma inconsciente relação pai-filho. E o resto… bem, o resto você já sabe: Brandon torna-se a galinha dos ovos de ouro de Walter Abrams, enriquece aos poucos e, como toda pessoa humilde que alcança o sucesso sem preparação, muda de personalidade e perde-se em sua própria arrogância, que o faz desmoronar e aprender algumas lições, e piriri e pororó…

Deu pra sentir o drama, não?

Ainda assim, mesmo depois de descer o sarrafo na fita, seria incorreto dizer que Tudo por Dinheiro é uma tragédia total. Se você não esperar muita coisa, até consegue se divertir com a película. O problema maior da produção é a insistência do fraco roteiro de Dan Gilroy (Lendas da Paixão) em seguir a trilha mais fácil.

Só para citar alguns exemplos: quando vemos a personagem de Rene Russo, a esteticista Toni, fica nítido que Brandon Lang tentará alguma coisa com a dita cuja – e olhe que ela é a esposa do chefe. E quando somos apresentados ao executivo vivido pelo eterno coadjuvante Jeremy Piven (Todo Mundo em Pânico 3), na mesma hora sacamos que ele é o atual queridinho da empresa de Walter, e certamente perderá sua posição a favor de Brandon, o que o transformará em um inimigo em potencial. Não é preciso ser um ás das apostas para matar a fita inteira. Desculpem o trocadilho infame, mas não resisti. :-P

Por outro lado, Tudo por Dinheiro não é um desperdício total, e os pontos positivos atendem pelos nomes de Matthew McConaughey e Al Pacino. Enquanto o primeiro esbanja carisma e usa uma cena em especial (a do aeroporto em Porto Rico) para provar que é algo mais do que o homem mais sexy do planeta segundo a revista People, o segundo não interpreta nada além de ele mesmo – mas ainda assim, interpreta muito bem. Uma pena que a construção dos personagens e o roteiro em si não estejam à altura de seus méritos… Já a ainda sensacional Rene Russo continua se especializando em interpretar “portas” em papéis descartáveis (busque Os Seus, os Meus e os Nossos neste website que você entenderá).

Ao final, embora não machuque ninguém e não chegue a causar desejos obscuros de morte, Tudo por Dinheiro não é nada além de mais um drama descartável, totalmente apoiado nos moldes já desgastados por Hollywood, preso a uma temática voltada somente ao público norte-americano e sem nenhuma inovação ou elemento atraente ao gênero. Vale uma conferida… mas só quando passar na Sessão da Tarde de um daqueles terríveis dias chuvosos em que você está com uma pusta preguiça de correr na locadora. Entretanto, se eu fosse você, correria até a primeira locadora e torraria um dindim levando MirrorMask, para compensar sua ausência dos cinemas. Esta fita merece, viu? :-D

CURIOSIDADES:

• O roteiro de Tudo por Dinheiro é inspirado na história real do ex-jogador de basquete Brandon Link, que precisou abandonar as quadras por conta de um problema no joelho e, em pouco tempo, tornou-se uma das maiores “bolas de cristal” da bolsa de apostas de esportes em Nova York. Segundo o jogador, sua vida é exatamente o que é mostrado nas telas.

• O número de telefone mostrado em CG no programa televisivo do personagem de Al Pacino (1 800 BET ON IT) é o mesmo número de telefone de uma empresa especializada em fornecer dicas para apostas. Coincidência? Patrocínio? Vai saber…

• Um dos erros mais gritantes e risíveis de Tudo por Dinheiro diz respeito à geografia: na seqüência em que Walter Abrams e Brandon Lang visitam um milionário apostador em sua casa em Porto Rico, vê-se ao fundo da casa do apostador uma cadeia de montanhas. Não seria algo tão ridículo se esta cadeia de montanhas não fossem um famosíssimo cartão-postal… do Canadá. :-P

TWO FOR THE MONEY • EUA • 2005
Direção de D. J. Caruso • Roteiro de Dan Gilroy
Elenco: Al Pacino, Matthew McConaughey, Rene Russo, Armand Assante, Jeremy Piven, Jaime King, Kevin Chapman.
122 min. • Distribuição: Paramount Pictures.

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