O Exorcismo de Emily Rose

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 01/12/2005.

O Exorcismo de Emily Rose (The Exorcism of Emily Rose)

Olha, demorou bastante até que eu conseguisse encontrar um ponto de partida para esta matéria sobre O Exorcismo de Emily Rose (The Exorcism of Emily Rose, 2005). Porque se tem algo que eu odeio discutir é religião: este assunto me incomoda e me faz sair andando de qualquer rodinha de bate-papo quando abordado. O causo é que já me aborreci demais com todas as lenga-lengas que envolvem as instituições religiosas num todo, mas tenho lá minha fé e minhas crenças, e elas não importam a mais ninguém além de mim, assim como não me importa muito quais são as crenças de cada um. Pra resumir, eu sei no que acredito, cada um acredita em uma coisa e acabou. Conheço uma pá de gente que defende a tolice de que o caráter de uma pessoa só é bom caso ela seja evangélica, católica, protestante e afins, mas isto jamais influirá no que EU penso das pessoas.

Decidi optar por esta linha de início porque O Exorcismo de Emily Rose é centrado nisto. O questionamento da fé versus a racionalidade da ciência é exatamente o centro nervoso deste bacaníssimo longa, comandado com certo cuidado pelo cineasta Scott Derrickson (de Hellraiser: Inferno). Afirmo numa boa que a fita é a melhor obra cinematográfica envolvendo exorcismos desde o próprio O Exorcista original (tirando da lista o engraçadíssimo A Repossuída, com Leslie Nielsen… hehehe). Mas devo alertar que aqueles que esperam uma simples produção de horror cheia de sangue e efeitos visuais ficarão muito decepcionados, a ponto de sair por aí declamando aos quatro ventos que O Exorcismo de Emily Rose é o pior filme do ano. BESTEIRA! Este pessoal decididamente não assistiu Coisa de Mulher. Sorte a deles. :-D

O que acontece é o seguinte: O Exorcismo de Emily Rose foi, desde o princípio, anunciado como um DRAMA, que é exatamente o que ele é. Isto não impede, contudo, que aqueles que embarcarem na proposta da história sintam um medo horroroso e molhem as vestimentas da parte de baixo em certos momentos – e O Exorcismo de Emily Rose traz pelo menos três seqüências perturbadoras o suficiente para tirar o sono da galera. Eu mesmo precisei arrumar um lugarzinho bem confortável na cama de mamãe e papai no dia em que assisti a fita… :-)

A história, inspirada na história real da jovem alemã Anneliese Michel (ocorrida nos anos 70), narra o julgamento do padre Richard Moore (Tom Wilkinson, dono da Lacuna Inc., num papel à altura de seu enorme talento). Algum tempo antes, Moore comandou o ritual de exorcismo da estudante Emily Rose (Jennifer Carpenter, da obra-do-tinhoso As Branquelas), moradora de uma pequena fazenda que começou a apresentar sinais de possessão demoníaca quando saiu da cidadezinha em que vivia para cursar a universidade. O problema: Emily, que supostamente foi dominada por seis demônios simultaneamente (!), entre ele o próprio cabrunco em pessoa (!!), não resistiu e morreu durante a cerimônia. E Moore, acusado de homicídio culposo ao recomendar que Emily recusasse auxílio médico e científico para a questão – a medicina acreditava que Emily sofria de “epilepsia psicótica”.

Preocupada com o desenrolar do caso, a arquidiocese, que reconheceu a autenticidade da possessão da menina mas não quis se pronunciar publicamente, contrata a notória advogada de defesa Erin Bruner (Laura Linney, de Kinsey, sempre linda e talentosa) para representar o padre Moore no tribunal. Na verdade, a real função de Erin na história é impedir o padre de testemunhar e abrir o bico sobre os detalhes do exorcismo – o pároco é categórico em afirmar que não se importa com o resultado do julgamento, desde que possa usar seu testemunho para contar o que de fato aconteceu. Nota pessoal: a comovente conclusão do martírio de Emily lembra muito um recente filme do Gabriel Byrne, que não falarei qual é pois isto mataria a grande reviravolta do filme.

Voltando: Bruner, totalmente cética e fria, aceita o espinhudo caso apenas porque ganhará a sociedade de uma importante firma de advocacia caso o padre Moore seja inocentado. Mas ela deverá manter a sanidade intacta, o que será meio difícil quando começa a se aprofundar na história de Emily Rose… MEDO! :-O

Com um enredo tão instigante e arrepiante como este, seria muito fácil apelar para questões óbvias. Felizmente, o roteiro de Derrickson, escrito em parceria com Paul Harris Boardman (autor do horrível script de Lendas Urbanas 2), foge das soluções fáceis, preferindo focar sua câmera nas dúvidas de cada personagem acerca da história contada pelo padre Moore versus as explicações racionais defendidas pelo odioso promotor de acusação Ethan Thomas (Campbell Scott, de Singles – Vida de Solteiro, numa atuação correta), ironicamente católico praticante.

Ou seja, dá para entender o ódio com a qual o público certamente recepcionará O Exorcismo de Emily Rose, visto que a fita não é centrada no gênero terror como o trailer indica.

Por outro lado, não concordo de forma alguma com este lance de “não gostei porque não é terror”. Independente de encaixar-se melhor no gênero dramático, O Exorcismo de Emily Rose traz uma pusta de uma senhora trama que, vista através de um olhar mais abrangente do que o estúpido pensamento “terror tem que ter sangue”, é capaz de botar medo até nos mais céticos. As seqüências do ritual de exorcismo, reveladas em flashback no decorrer da película, são assustadoras e, sozinhas, estão muito acima da besteirada patética mostrada naquele filmeco meia-boca chamado Exorcista: o Início. E a interpretação de Jennifer Carpenter é muito, muito boa – embora ela seja meio estranha e esteja com uma inegável cara de “mulher madura interpretando ninfeta colegial em filme pornô” (!).

A meu ver, só há um pequeno problema em O Exorcismo de Emily Rose, um problema diretamente ligado ao primeiro parágrafo deste texto: em certos momentos, senti uma leve apologia ao catolicismo. O roteiro parece querer nos dizer em dadas situações que os ensinamentos católicos são sempre os certos, e os personagens descrentes são sempre retratados com algum desvio de caráter, e não é bem por aí que a bandinha toca. A própria Erin Bruner é apresentada com uma pessoa fria, arrogante e ambiciosa, mudando sua personalidade à medida que entende e aceita as evidências divinas (e demoníacas) da morte de Emily Rose. Enquanto isto, o promotor Ethan Thomas, que é católico fervoroso, defende a ciência com todas as forças e usa métodos pouco convincentes para isto. Para defini-lo, Erin Bruner usa o bordão “E depois ainda diz que é um homem de fé”. Não nego que esta tendência do roteiro em posicionar a igreja católica como o mocinho e a ciência como o vilão me incomodou em boa parte do filme.

Mas como diz o simpático parlapatão Fanboy, “é tudo cinema”. Visto da maneira correta, ou seja, um filme ficcional e nada mais, O Exorcismo de Emily Rose torna-se um ótimo exercício de medo e um competente drama de tribunal, que mostra que, independente do que você segue, é sempre bom ter um pouquinho de fé em alguma coisa, para ver se conseguimos criar um pouco de esperança. Presença garantida na listinha de grandes filmes de 2005! Só não me peça para assistir de novo. Não estou nem um pouco afim de usar fraldinhas de novo, e mamãe já falou que vai me deixar de castigo e sem sobremesa se eu pedir para dormir na cama deles mais uma noite. :-P

CURIOSIDADES:

• A verdadeira Emily Rose, uma garota chamada Anneliese Michel, nasceu em 1952 na cidade de Leiblfing, na Bavária, e morreu em 1976. Diz-se que a menina sofria de epilepsia, mas muitos acreditavam realmente que Anneliese estava possuída pelo demônio. A partir de 1973, Anneliese sofreu uma série de exorcismos, até falecer. Sua morte é tida até hoje como um mistério, e muitos acreditam que os padres Ernst Alt e Arnold Renz, os responsáveis pelo exorcismo, são os verdadeiros culpados. O caso é conhecido como “o caso Klingenberg”.

• O roteiro de Scott Derrickson foi visivelmente suavizado, tanto que mudou sua ambientação para os EUA (Anneliese vivia na Alemanha) e trocou os nomes dos personagens. Atualmente, um longa alemão chamado Requiem está em fase de pós-produção; os produtores garantem que Requiem contará toda a verdade, sem suavizar pilombas, da macabra história de Anneliese. Creda!

THE EXORCISM OF EMILY ROSE • EUA • 2005
Direção de Scott Derrickson • Roteiro de Scott Derrickson e Paul Harris Boardman
Elenco: Laura Linney, Tom Wilkinson, Jennifer Carpenter, Campbell Scott, Colm Feore, Mary Beth Hurt, Duncan Fraser, Henry Czerny, Shohreh Aghdashloo.
119 min. • Distribuição: Columbia Pictures.

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