A Conquista da Honra

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 02/02/2007.

A Conquista da Honra (Flags of our Fathers)

Clint Eastwood é um cara que, embora dê um ou outro escorregão de vez em quando, não precisa mais fornecer provas de seu ilimitadíssimo talento tanto à frente quanto atrás das câmeras. Para cada filme meio xôxo que o ator/diretor/compositor lança ou atua, sempre há um forte candidato a clássico a surgir no futuro. Vindo de dois trabalhos aclamadíssimos pelo público e pela crítica – a saber, o ótimo Sobre Meninos e Lobos (2003) e a obra-prima Menina de Ouro (2004) –, óbvio que a expectativa era grande. Ainda mais quando se sabe que o projeto seguinte do senhor Clint é um retrato de um dos períodos mais sangrentos da Segunda Guerra Mundial: a infame Batalha de Iwo Jima, que deixou um aterrorizante saldo de quase 30 mil mortos, entre soldados japoneses e ocidentais.

Melhor ainda quando se sabe que este tal projeto sobre Iwo Jima será dividido em duas partes distintas, mas conexas: uma, contando a história do ponto de vista dos soldados norte-americanos; outra, contando a mesma história, do ponto de vista dos orientais. Garantia de filmaço? CLARO! É o Clint Eastwood! É o Dirty Harry, cacetada! :-D

Enfim, A Conquista da Honra (Flags of our Fathers, 2006), o lado ianque, finalmente chega aos cinemas brazucas cercado de ansiedade. Há, porém, um ponto falho na distribuição do filme em nossa terra: ele veio incompleto. Não, os rolos de filme disponibilizados pela Warner Bros. não estão cortados pela metade (!). O que falta mesmo é a sua também esperada contraparte japonesa, Cartas de Iwo Jima.

Tá, vamos explicar isso aí. A Conquista da Honra é um trabalho muito bem realizado e merece um parêntese na carreira de Eastwood como diretor. É sombrio, é cruel, é denunciador e passa muito longe das expectativas de se revelar uma xaropada patriótica ao extremo (o que é de se esperar em filmes de guerra feitos em Hollywood e, o que é pior, produzidos por Steven Spielberg, caso deste aqui). Só que não dá pra negar que a película está longe de ser comparada aos melhores trabalhos do cineasta. Longe, pelo menos, quando citamos A Conquista da Honra como um único filme; ao melhor estilo Kill Bill e O Senhor dos Anéis, este A Conquista da Honra cresce muito mais quando está ao lado de seu “irmãozinho” (hehehe). Um é o complemento do outro, e a controversa visão de Eastwood acerca dos horrores da guerra faz um sentido muito mais visceral quando as duas produções são vistas juntinhas, uma atrás da outra.

Sozinho, A Conquista da Honra é apenas um bacanésimo filme de guerra, como O Resgate do Soldado Ryan, por exemplo. Já a magnitude do acontecimento que marcou a história dos EUA e do mundo só nos é revelada quando assistimos ao fenomenal Cartas de Iwo Jima e temos uma visão geral de todos os lados envolvidos – a principal proposta do titio Clint ao transpor às telonas os dois lados da moeda.

Bem, na verdade, não é tão justo afirmar que A Conquista da Honra é, afinal, sobre a guerra, sobre Iwo Jima. Com sua infinita habilidade habitual em contar histórias, Clint Eastwood quer falar mesmo é sobre outro assunto, tão amplo e tão universal quanto as batalhas: a capacidade do ser humano em propagar uma mentira e dizer que é pela honra ou pela oportunidade de injetar doses de esperança àqueles envolvidos diretamente ou indiretamente ao evento. Sim, temos várias cenas de batalha pesadíssimas, temos alguns clichêzinhos básicos do gênero… Mas o foco real é a falta de escrúpulos daqueles que estão no poder, acostumados a vender-se por qualquer coisa. Mais do que a guerra física, as câmeras da produção querem mesmo é revelar a manipulação da verdade pela mídia e como isto pode desencadear outra espécie de batalha, uma batalha interna.

O ponto zero da história é justamente o momento mais famoso da história da batalha de Iwo Jima: o momento em que seis soldados, cinco fuzileiros e um sujeito vindo do corpo médico da marinha, hasteiam uma imponente bandeira norte-americana no alto do Monte Suribachi; momento registrado em fotografia por Joe Rosenthal, da Associated Press. A foto, que representou a tomada da ilha e a conseqüente vitória dos estadunidenses, logo se torna um sucesso nas mãos dos lobistas. Imediatamente, o sujeito do corpo médico, John “Doc” Bradley (Ryan Phillippe), e os soldados Rene Gagnon (Jesse Bradford) e Ira Hayes (Adam Beach), os três protagonistas sobreviventes desta história – os outros três morreram assim que ergueram a bandeira – são enviados de volta aos Estados Unidos, para correr o país em “turnês de divulgação” e representar fisicamente a esperança de um retorno daqueles que arriscaram suas vidas na guerra. Criou-se assim o culto às celebridades.

A partir daí, uma série de idas e vindas no tempo entrega o que aconteceu a estes soldados, convertidos pelo governo em heróis instantâneos para estimular os civis a confiar na “vitória ianque”, e desconstrói o mito da foto da bandeira no Monte Suribachi. Não é preciso explicitar as coisas para o roteiro de William Broyles Jr. e Paul Haggis (aquele de Crash – No Limite, lembra?) deixar claro sua mensagem: em uma guerra, não há heróis. Há mortos, e há feridos. E há aqueles que voltam inteiros fisicamente, mas com uma enorme ferida psicológica que nunca mais irá sarar. Até que ponto é justa a exploração da imagem destas pessoas fora da guerra? Aliás, é justo? O que é o heroísmo? Clint Eastwood faz este questionamento a nós com uma narrativa embaralhada, sem ordem cronológica e alternando de forma atemporal o cotidiano dos soldados sobreviventes nos anos 40 e nos dias de hoje, e entregando com isto uma série de seqüências traumatizantes – repare, por exemplo, nos combatentes japoneses que resolvem suicidar-se com granadas. Ugh! :-P

Se tudo parece deveras impactante e desafiador quando dissecado assim, o caldo não parece tãããão atraente quando apresentado na telona. Sim, A Conquista da Honra é cheio de ótimos momentos, mas perde um pouco de sua força por conta de seu roteiro um tanto redundante e também pelo fraco elenco escolhido pelo diretor, em especial os péssimos Jesse Bradford e Adam Beach. Chamar estes dois aí pra trabalhar atuando é complicado, viu? Tudo bem que o Clintão é O CARA, mas ainda não faz milagre (!). Por outro lado, a excepcional fotografia desbotada e quase em preto e branco de Tom Stern, que também trabalhou com Eastwood em seus filmes mais recentes, e a impressionante dedicação de Ryan Phillipe em seu papel apagam qualquer incêndio.

De qualquer forma, não importa muito como você assiste a A Conquista da Honra. Estamos falando, inegavelmente, de um belo trabalho de Clint Eastwood, não importa se é um dos menores. Clint é um daqueles profissionais que, por mais que errem a mão (o que não é o caso aqui, não me entenda mal), ainda assim conseguem ser bem superiores ao que rola por aí. Recomenda-se, contudo, a chegada de Cartas de Iwo Jima ao nosso circuito. E quando isto acontecer, assista um e em seguida assista ao outro. E então, junte as peças do quebra-cabeça e entenda como Clint, genial por natureza, esfrega na nossa cara que qualquer ato de glorificação e glamourização de “vitoriosos” de uma guerra só nos faz entender como somos é fracassados moralmente por concordar inconscientemente com qualquer prática de violência, seja pela honra de um país, seja por qualquer outra razão.

CURIOSIDADES:

A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima foram rodados ao mesmo tempo. Por sinal, o primeiro vídeo que surgiu na Internet era um trailer montado especialmente por Clint Eastwood com cenas mescladas dos dois filmes.

• Inicialmente, Clint Eastwood queria Jared Leto para viver o papel do médico Bradley. Leto não pôde aceitar o convite, pois estava prestes a excursionar com sua banda, 30 Seconds to Mars. Vixe, o cara deixou de trabalhar com o Dirty Harry para tocar naquela bandinha furreca? :-P

• Em A Conquista da Honra, há uma pontinha do ator David Rasche. Rasche é bastante conhecido dos estadunidenses por conta do hilário seriado Sledge Hammer, rebatizado no Brasil como Na Mira do Tira (lembra desta velharia?). Por sinal, Na Mira do Tira é uma declarada sátira ao personagem que imortalizou Clint Eastwood, o durão “Dirty” Harry Calahan.

• O governo japonês não permitiu que a equipe de filmagens rodasse certas cenas de batalha na praia de Iwo Jima, o que obrigou a negada a mover-se à Islândia, local onde praias de areia escura são comuns por conta dos vulcões em atividade.

FLAGS OF OUR FATHERS • EUA • 2006
Direção de Clint Eastwood • Roteiro de William Broyles Jr. e Paul Haggis
Baseado no romance de James Bradley e Ron Powers
Elenco: Ryan Phillipe, Jesse Bradford, Adam Beach, John Benjamin Hickey, John Slattery, Barry Pepper, Jamie Bell, Paul Walker, Robert Patrick, Neal McDonough, Melanie Lynskey, Thomas McCarthy.
132 min. • Distribuição: Warner Bros.

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