Soldado Anônimo

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 04/01/2006.

Soldado Anônimo (Jarhead)

Não é de agora que o cinema de guerra perdeu seu rótulo de “filmes de meninos” e assumiu uma verve mais centrada no lado político e psicológico dos conflitos e de seus envolvidos – cortesia de cineastas como Oliver Stone, por exemplo. Recentemente, tornou-se moda usar a guerra como pano de fundo moral para os dilemas de personagens envolvidos direta ou indiretamente ao evento retratado, como em M*A*S*H (Robert Altman, 1972), O Resgate do Soldado Ryan (Steven Spielberg, 1998) e Tigerland – A Caminho da Guerra (Joel Schumacher, 2000). Fitas como o fenomenal Três Reis (David O. Russell, 1999), por exemplo, aproveitaram-se deste momento de maturidade do gênero para ir mais além e discutir o próprio posicionamento do homem acerca de seus deveres e suas vontades para com a pátria.

Levando estes itens em consideração, Soldado Anônimo (Jarhead, 2005), inspirado na aclamada autobiografia do ex-combatente da Guerra do Golfo Anthony Swofford, pode ser definido numa boa como um cruzamento do que há de melhor em muitos exemplares do gênero, principalmente Três Reis, Tigerland, Nascido para Matar (Stanley Kubrick, 1987) e Apocalypse Now (Francis Coppola, 1979) – trechos deste último longa, aliás, são exibidos durante a película. O resultado final de Soldado Anônimo está dentro da média, embora não cause impressão tão forte a ponto de fazer qualquer um sair gritando “Uau, que filmaaaaaaço!”. É uma produção bacana que vale cada moeda investida no ingresso, e ponto final. Mas se é assim, por que cargas d’água Soldado Anônimo fracassou feio nas bilheterias ianques?

Para resumir a questão: você, caro leitor, acredita mesmo que o público médio aceitará uma fita de guerra sem guerra, sem combates, sem uma história com começo, meio e fim, sem sangue e sem heróis íntegros massacrando alemães/árabes/quaisquer-inimigos-em-potencial malvadões? Se a sua resposta é um sonoro NÃO… bem, você pensa como eu. :-)

O que acontece é o seguinte: esqueça das infalíveis seqüências grandiosas de batalhas e da adrenalina de produções como Falcão Negro em Perigo. Com a sutileza de sempre, ex-diretor teatral e agora cultuado cineasta Sam Mendes (de Beleza Americana e Estrada para Perdição) não conta uma história sobre a guerra em si e nem sobre seus efeitos devastadores; sem mostrar uma gota de sangue e um minuto sequer de batalhas, Soldado Anônimo preocupa-se mais em colocar o espectador na posição dos recrutas enviados ao Oriente Médio durante a Guerra do Golfo, em 1990, para transmitir sua mensagem anti-bélica.

Pelos vários meses em que estes recrutas ficaram confinados na vastidão do deserto, eles fizeram absolutamente NADA (não por culpa deles, claro). E “nada” é exatamente o que se vê na tela em boa parte da projeção, já que o roteiro acompanha a rotina dos jarheads (apelido dado aos recrutas recos) em sua longa e inútil espera de alguma coisa no front. Não podemos nos esquecer que estamos falando da Guerra do Golfo, um dos eventos mais estupidamente desnecessários dos anos 90.

Assim, conhecemos Swofford (Jake Gyllenhaal, o nosso amigo Donnie Darko, bacana como sempre), marine que acabou de completar a maioridade, irônico e absurdamente cínico – seu perfil psicológico é facilmente delineado já na primeira seqüência do longa, o processo de “preparação” dos marines, descarada referência ao antológico Nascido para Matar. Tudo o que Swofford quer é ser útil para os Estados Unidos, ideologia que o faz tentar seguir carreira no exército.

Convocado para servir como atirador de elite na Guerra do Golfo, Swofford e seu amigo Troy (mais uma grande atuação de Peter Sarsgaard) vibram quando sua divisão recebe a tarefa de proteger um campo de poços de petróleo no deserto da Arábia Saudita. A empolgação e a ansiedade em lutar contra o inimigo dão lugar ao marasmo quando sua tropa percebe que não há o que combater. Para quem não sabe, a invasão das tropas americanas no Iraque – carinhosamente apelidada de “guerra de videogame” por abusar da tecnologia – aparentemente não tinha função alguma a não ser encobrir o real conflito, de natureza interna.

O que rola a seguir é apenas o cotidiano da tropa de Swofford no Oriente Médio, sob o comando do ríspido Sargento Sykes (Jamie Foxx), por meses e meses, à espera do momento em que finalmente serão convocados para atuar à frente da linha de combate – momento, por sinal, que nunca chegou. Neste meio tempo, os jovens soldados, à mercê do tempo, vêem suas vidas ir embora. Como o próprio personagem de Gyllenhaal resume sua rotina em certo momento da película, “limpar fuzis e masturbar-se são dois grandes passatempos para não perder a sanidade”. De fato, muitos destes soldados voltaram para casa traumatizados e à beira da loucura não por ter presenciado os horrores da guerra, mas por NÃO ter presenciado. Parece exagero, não é? Não, não é exagero.

É nesta carga que reside o grande “quê” de Soldado Anônimo. Descartando a proposta tentadora de dar uma de Michael Moore e utilizando uma narrativa totalmente despida de patriotismo e apologias políticas, Sam Mendes constrói um mosaico eficiente da juventude alienada de hoje, que não entende seus comandantes e sequer tem vontade de entender; jovens recrutados para lutar contra um inimigo invisível, e que conseguiram apenas perder um tempo precioso de suas vidas afastados de seus lares para encobrir uma guerra interna. Com diálogos excelentes e boas atuações, Mendes entregou mais um filme típico de sua pequena filmografia: denso, correto em sua concepção, sutilmente espinhudo e, tal qual o evento que mutilou a juventude de Anthony Swofford e de milhares de soldados, com o poder concentrado nas palavras ao invés da ação.

Ainda assim, devo confessar que Soldado Anônimo, para mim, é somente um filme muito bom, que não deverá ficar muito tempo na memória, ao contrário do poderosíssimo Três Reis. Se você procura um típico longa de guerra com todos os seus estereótipos, nem perca seu tempo precioso. E… céus, como o Jake Gyllenhaal é esquisito! Eu definitivamente tenho muito MEDO deste cara. Se ele estiver acompanhado de um coelho bizarro com cara de caveira, aí é que eu não durmo à noite mesmo. :-)

CURIOSIDADES:

• As filmagens de Soldado Anônimo aconteceram no Imperial Valley, ao sul da Califórnia, cujas condições climáticas assemelham-se bastante ao clima do Iraque. O lugar é característico por suas montanhas, que foram “apagadas” digitalmente. Algumas tomadas foram realizadas no México.

• Aquela palavrinha amada por todos os norte-americanos (sim, aquela que começa com F…) é usada 278 vezes no decorrer do longa, 38 usando o prefixo “mother”. Há! Entenderam, entenderam? Fica motherf****r! :-D

• O papel de Jake Gyllenhaal foi disputado por nomes de peso, como Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Christian Bale e Joshua Jackson. Bem, er… “nome de peso” não se encaixa tão bem no caso deste último! Hehehe. :-)

JARHEAD • EUA • 2005
Direção de Sam Mendes • Roteiro de William Broyles Jr.
Baseado no livro “Jarhead”, de Anthony Swofford
Elenco: Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Lucas Black, Chris Cooper e Jamie Foxx.
123 min. • Distribuição: Universal Pictures.

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