Quanto Vale ou é Por Quilo?

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 19/05/2005.

Quanto Vale ou é Por Quilo?

Depois de assistir a este Quanto Vale ou é Por Quilo? (Idem, 2005), novo trabalho do polêmico cineasta brazuca Sérgio Bianchi (um dos principais nomes do chamado cinema marginal, ao lado de Neville D’Almeida), desisti de tentar convencer aos meus conterrâneos para as maravilhas do cinema “da casa”. Sim, porque se alguém que detesta cinema nacional resolve assistir este troço só porque eu disse que os nossos filmes são bons, é capaz deste alguém querer acabar com a minha raça!

Bem, eu já não morria de amores pelos trabalhos de Sérgio Bianchi mesmo. O diretor, conhecido por filmes como A Causa Secreta (1994) e Cronicamente Inviável (2000), é chegado em expôr na telona as mazelas da política e da sociedade atual. A forma com que estas feridas são mostradas beiram o cruel e o escatológico. Em A Causa Secreta, por exemplo, a tortura de um rato (!) é usada para traçar um paralelo com a criminalidade nas grandes metrópoles.

Este estilo também está presente neste novo filme. O problema de Bianchi é que o cara consegue transformar estas discussões em produções pretensiosas, mal dirigidas, mal interpretadas e exageradamente militantes. Do que adianta ter uma idéia até interessante, se o resultado é um péssimo cinema? O sujeito acredita fielmente que realiza um cinema-denúncia da melhor qualidade, quando na verdade só fez um filminho chato. Bem, um plot interessante nem sempre gera um bom trabalho. Isto é fato comprovado.

Quanto Vale ou é Por Quilo? é dividido em duas épocas distintas, e cada época é por sua vez subdividida em pequenos capítulos. No século 18, acompanhamos alguns casos que envolvem comércio de escravos e seus relacionamentos com seus donos; na época atual, vemos uma ONG que implanta um projeto de Informática numa escola de periferia, enquanto uma garota empenhada com o projeto descobre que os micros foram superfaturados – e agora está marcada para morrer. Ainda nesta mesma história, um rapaz desempregado e prestes a ser pai só consegue arrumar emprego como matador de aluguel. E um de seus primeiros serviços é, adivinhem: eliminar a garota dos micros! Não diga…

Beleza, o enredo central é este. Como é de praxe quando o assunto é Sérgio Bianchi, há uma infinidade de “micro-historinhas” que são contadas aleatoriamente e parecem não ter conexão. E todas elas têm o mesmo objetivo: chocar o espectador revelando uma faceta injusta e dolorosa de nosso país, onde prevalecem o benefício à classe média, muitas vezes às custas dos pobres. Bianchi aproveita e cava mais fundo, quando afirma que, em sua visão, as ONGs não querem nada além de lucrar, e muito, nas costas dos menos privilegiados. E ainda compara esta atividade aparentemente cheia de boas intenções ao comércio escravista dos idos de 1700, onde o senhor branco comprava a liberdade dos escravos somente para lucrar com os juros no retorno do pagamento…

Um bom material para um excelente filme? Parece que sim, não é mesmo? Pois é. E ainda há a presença de nomes ilustres como Caco Ciocler (Olga), Herson Capri (A Partilha) e Lázaro Ramos (Cidade Baixa, sucesso em Cannes), então beleza! O forte teor da trama certamente influenciará a opinião de muitos veículos por aí. Mas o que estamos julgando aqui n’A ARCA não é “importância de enredo”, e sim CINEMA. E como cinema, eis o resultado: um filmeco chato, arrastado e tão panfletário como um horário político. Os clichês pipocam o tempo todo na tela, seja nos pobres – que só aparecem sambando ou algo do gênero -, seja nos executivos da ONG – sempre com expressões malvadas e fazendo careta quando olham para algum representante de classe baixa.

Para contar sua história, Bianchi ainda se aproveita de cenas de extremo mau gosto. Algumas seqüências desnecessárias quase me fizeram sair da sessão, como a seqüência da “purificação” através do vômito. Só de lembrar me dá náuseas! Não vou detalhar, para não estragar a “surpresa” de quem quiser assistir à fita e também não embrulhar o estômago de qualquer usuário que porventura esteja lendo esta matéria tomando café, por exemplo. :-)

Outro grave problema, que também assola boa parte das produções nacionais, é o “diálogo certinho”. Incrível como no mundo de Bianchi, marginais e moradores de favela falam um português corretíssimo, com todos os “S” no lugar e sem um pingo de naturalidade; o que sabemos bem que não acontece de forma alguma. O preso interpretado por Lázaro Ramos, então, é de fazer tapar os ouvidos quando abre a boca! O cara é um autêntico filósofo. Já disse aqui e torno a dizer: ninguém na vida real fala daquele jeito! Este elemento destrói a interpretação da esmagadora maioria dos atores, em especial a sofrível Ana Carbatti (do bom Lost Zweig), justamente o fio condutor de todas as histórias. Talvez a única surpresa do elenco seja Silvio Guindane. O ator, que estourou no excelente De Passagem, mostra que está no ramo certo.

O mais legal é ter a sensação de que o próprio Sérgio Bianchi faz parte deste núcleo que tanto apunhala. Senão, reparem nisto: numa cena aleatória, vemos dois assistentes sociais ajudando velhinhos num asilo. Estes velhinhos não são atores, e sim pessoas reais; a seqüência foi realmente rodada em um asilo. No meio da seqüência, uma senhora cobre o rosto, mostra o “dedão do meio” para a câmera e solta um natural e sonoríssimo “vai encher o saco da p%#$ que te p$@#%!”. Engraçado como o diretor passou a fita inteira descendo a lenha naqueles que se aproveitam dos menos favorecidos e, ao final, acabou fazendo praticamente o mesmo. Irônico.

E depois ainda reclamam que o público não gosta do cinema nacional. Também…

QUANTO VALE OU É POR QUILO? • BRA • 2005
Direção de Sérgio Bianchi • Roteiro de Sérgio Bianchi, Nilton Canito, Sabrina Anzuapegui e Eduardo Benaim
Inspirado levemente no conto “Pai Contra Mãe”, de Machado de Assis
Elenco: Ana Carbatti, Cláudia Mello, Herson Capri, Caco Ciocler, Ana Lúcia Torre, Silvio Guindane, Lena Roque, Leona Cavalli, Lázaro Ramos, José Rubens Chachá, Joana Fomm, Zezé Motta, Antônio Abujamra, Caio Blat.
110 min. • Distribuição: RioFilme/Europa Filmes.

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