Nem Tudo é o que Parece

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 05/07/2005.

Nem Tudo é o que Parece (Layer Cake)

Quando a 20th Century Fox anunciou o nome de Matthew Vaughn, ator e produtor dos longas de Guy Ritchie, como o suposto diretor que assumiria o comando de X-Men 3, ninguém entendeu pitombas. Enquanto alguns sequer ouviram falar no dito-cujo, eu só conseguia pensar em uma coisa: quem, em sã consciência, teve a brilhante sensação de que um produtor de cinema inglês com experiência zero como diretor seria uma boa escolha para cuidar do terceiro filme da franquia dos mutantes rejeitados pela sociedade? Meu medo sincero era o de ver X3 transformado numa comédia de ação cheia de correria, personagens caricatos e tiradinhas cômicas bem aos moldes de Snatch – Porcos e Diamantes. Nada contra, digo desde já. Aliás, adoro os filmes do cara. Mas não é o estilo dos X-Men, não é mesmo?

De qualquer forma, hoje sabemos que Vaughn não está mais envolvido com a produção de X3, tendo sido substituído pelo cineasta bacana Brett Ratner – o homem forte por trás do divertidíssimo Ladrão de Diamantes – por alguma razão não aparente. E finalmente os brazucas podem conferir a resposta da pergunta do primeiro parágrafo deste artigo: Nem Tudo é o que Parece (Layer Cake, 2004). Não, não interprete a expressão literalmente: este é o título brazuca (péssimo, por sinal) do primeiro longa-metragem dirigido por Vaughn. E depois de assistir a esta fita, só digo uma coisa: Matthew Vaughn teria sido mesmo uma escolha muito boa. Mas o problema aí, pelas notícias que andam pipocando, não é tanto o diretor, mas X3 em si! :-P

O fato é que Nem Tudo é o que Parece é uma fita bastante ágil, soturna e divertida, embora modesta e com alguns buracos. E o mais legal de tudo é que Vaughn demonstra ter mão firme na direção e um estilo próprio de narrativa, evitando plagiar as características das películas de seu amigo Ritchie. Se há alguma coisa em comum entre Nem Tudo é o que Parece e Snatch ou Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, é apenas o roteiro complexo. Pois é, se você piscar durante a projeção, já não entenderá mais nada da história.

O enredo desta produção de ação recicla o velho clichê do “bandido bonzinho que quer virar honesto, mas recebe uma última tarefa e acaba tomando no esfíncter” (!). O tal bandido boa-praça aqui é o personagem de Daniel Craig (Estrada Para Perdição). Nas primeiras cenas do filme, sabemos que seu personagem é um grande traficante londrino. Ele não tem nome, por acreditar que um fornecedor de drogas jamais deve transparecer sua identidade tanto para os “clientes” quanto para qualquer um dos “colegas de trabalho” – mas é identificado nos créditos como “XXXX”, sendo assim, portanto, a forma que usarei para me referir ao sujeito neste texto.

Enfim, XXXX é tido como um homem de extrema confiança entre os figurões da máfia inglesa por realizar seu “trabalho” de forma competente, não se envolver com mortes (aliás, o cara orgulha-se de nunca ter empunhado uma arma) e respeitar a polícia, não dando bandeira de seu status. O indivíduo é até dono de uma pequena imobiliária, para justificar seus “ganhos”. Pra resumir, XXXX é um homem íntegro e até mesmo honesto. Conforme explica sua narração em off ao início do filme, o fato de vender drogas é um mero detalhe, já que em sua visão, a sociedade consome centenas de “drogas legalizadas” (como perfumes, bebidas e afins) tão ou até mais perigosas que cocaína. Ele não quer status, poder ou respeito. Ele quer dinheiro, e nada mais. Bem, quem não quer? :-)

E como já possui dindim suficiente para viver bem até o fim de sua vida, XXXX quer aproveitar que está com sua ficha totalmente limpa para se aposentar. Mas antes que isto aconteça, ele é convocado para uma reunião com um dos dois nomes mais temidos da máfia britânica, Jimmy Price (Kenneth Cranham). Price quer que XXXX encontre Charlie Ryder, a drogada e desaparecida filha do “outro” nome mais temido, o engenheiro Eddie Temple (Michael Gambon, de Capitão Sky e o Mundo de Amanhã e A Vida Marinha com Steve Zissou). Paralelamente, XXXX recebe a ordem de negociar a venda de milhares de pílulas, roubadas de um poderoso mafioso russo e atualmente em poder do xabuzento traficante Duke (Jamie Foreman), o que o deixa mais do que nervoso.

XXXX sabe que envolver-se com Duke é o mesmo que anunciar na TV que é um distribuidor de drogas. Mas descobrirá que Duke não é nada perto da enorme fria em que está se metendo…

Claro que este plot não corresponde a meia-hora de projeção. Um dos poucos pontos semelhantes à filmografia de Guy Ritchie é o roteiro intrincadíssimo, escrito por J. J. Connoly – também autor da pulp fiction em que Nem Tudo é o que Parece se inspira. Então, pode esperar por reviravoltas em cima de reviravoltas, personagens totalmente ambíguos e uma montagem muito, mas muito criativa – cortesia do editor Jon Harris, o mesmo de Snatch. A boa notícia é que a direção de Vaughn jamais se deixa influenciar pelos trabalhos que produziu, transformando seu filme num exercício bastante sério, frio e pé-no-chão. É como se Guy Ritchie decidisse abandonar o pastelão e os estreótipos para dar um ar de seriedade aos seus longas.

Por outro lado, este mesmo ponto positivo o prejudica. A inexperiência de Vaughn como diretor é visível e o cara se perde um pouco, o que ocasiona alguns furos na trama e também momentos bastante confusos. Pois é, o roteiro, muito parecido com a história de O Pagamento Final, de Brian DePalma, é tão intrincado que deixa algumas situações sem explicação e desperdiça certos personagens que poderiam render mais, como a sensualíssima Tammy, vivida pela gata Sienna Miller (de Alfie – O Sedutor), mais conhecida como “aquela que o Jude Law catou primeiro”. :-D

Mas nada que prejudique o resultado final: Nem Tudo é o que Parece é uma fita muito bacana, que cumpre o que promete, vale o preço do ingresso e deverá abrir muitas portas para Matthew Vaughn. Tomara, porque o cara é legal mesmo! Aliás, depois de Nem Tudo é o que Parece, afirmo com toda convicção: por mais que seu perfil físico (leia-se: sua cara feia) não seja tão condizente com o personagem, Daniel Craig daria sim um excelente 007. Ah, e qualquer longa-metragem que mostre um assassinato ao som de Ordinary World, do Duran Duran, torna-se bom imediatamente. E só uma observação: tudo bem que tem muito pouco de Guy Ritchie aqui. Mas ainda assim, fiquei com aquela sensação de que a qualquer hora o Benicio Del Toro e seu Franky Four Fingers apareceria passeando por ali! :-D

CURIOSIDADES:

• Inicialmente, Nem Tudo é o que Parece seria dirigido por Guy Ritchie. O cineasta precisou abandonar o filme por estar envolvido com Revolver e outros projetos não divulgados.

• O título original, Layer Cake (traduzindo literalmente, bolo em camadas) é uma metáfora para as várias “fases” pelo qual o negociante precisa passar para meticulosamente planejar sua “saída do mercado”. Há também um sentido literal para a expressão, visto que em muitas cenas os personagens aparecem comendo bolo…

LAYER CAKE • ING • 2004
Direção de Matthew Vaughn • Roteiro de J. J. Connolly
Elenco: Daniel Craig, Colm Meaney, Kenneth Cranham, Michael Gambon, Jamie Foreman, Sienna Miller, Dexter Fletcher, Jason Flemyng.
105 min. • Distribuição: Sony Pictures Classics.

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