Napoleon Dynamite

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/06/2005.

Napoleon Dynamite

“Esquisito” é uma palavra rasa para definir Napoleon Dynamite. Adolescente de no máximo 17 anos, Napoleon tem uma série de, bem, “particularidades”. Só para citar algumas: o cara é legalmente segurado contra abdução de OVNIs. Tem um talento nato para desenhar mutações animais, como leões mesclados com unicórnios. Veste-se como o mais estereotipado dos nerds. Mora com a avó – adepta de corridas de quadriciclos motorizados em dunas – e o irmão de 32 anos, que possui uma bizarra inclinação para as artes-marciais e passa os dias teclando em chats na Internet… com uma conexão discada. Tem os lábios frágeis, mas diz a lenda que é mestre em lutar com tchacos (!). Nas férias, Napoleon trabalha engaiolando galinhas numa granja, e passa as horas vagas lutando contra lobos selvagens no Alaska (!!). É dono de uma temperamental lhama de estimação chamada Tina, e é um dançarino de mão cheia, mas ainda não sabe disso. Como vocês podem ver, o ser é absolutamente normal. :-D

Napoleon, esta bizarrice em pessoa, é o personagem central de Napoleon Dynamite (Idem, 2004), fitinha despretensiosa e esquisita que saiu da cabeça do ex-assistente de câmera Jared Hess, estreante na direção de longas-metragens. Hess escreveu o roteiro em parceria com sua esposa Jerusha Hess e investiu cerca de US$ 400.000 do próprio bolso para rodar a fita. Depois de uma pequena exibição no Festival de Sundance, Napoleon Dynamite foi comprado por ninguém menos que a Fox Searchlight, divisão indie da 20th Century Fox, que distribuiu o longa num reduzidíssimo número de salas com o auxílio da Paramount e da MTV Films. Repentinamente, Napoleon Dynamite tornou-se uma febre nos circuitos independentes dos States em 2004, gerando um número de mais de US$ 40 milhões em bilheteria (uma marca excelente para uma produção de menos de US$ 1 milhão), além de conquistar a adesão de mais de 26 mil pessoas ao fã-clube oficial do filme. Nada mal para uma fita de estréia – até então, Jared Hess realizara um único curta-metragem como diretor, a comédia Peluca, de 2003.

Depois que Napoleon Dynamite venceu a edição 2005 do MTV Movie Awards – que, cá entre nós, não é um prêmio a ser muito considerado por ser escolhido pela audiência (os adolescentes ianques), mas ainda assim está valendo -, este que vos fala cansou de esperar pelo lançamento do longa em solo brazuca e finalmente tratou de correr atrás de uma cópia para conferir o motivo de tanto alarde. E posso dizer uma coisa: valeu a pena, pois a película é bacana mesmo! Se assistisse ao longa sem saber o nome de seu diretor e roteirista, eu diria numa boa que trata-se de uma comédia teen escrita pelo Charlie Kaufman e dirigida pelo Spike Jonze! Lamentável que seja muito, mas muito difícil, ver esta pérola ser lançada comercialmente por aqui. :-(

Mas o que acontece? Bem, o problema é que é muito fácil odiar Napoleon Dynamite. Ou você adora, ou você sente ganas de matar aquele que te indicou o filme, e é bem provável que a segunda alternativa prevaleça. Os personagens, por exemplo, são os mais estereotipados possíveis; sua narrativa é lenta e cheia de pausas entre os diálogos, o que espanta qualquer um acostumado à correria dos filmes-pipoca; a história é recheada de piadinhas e referências familiares somente aos iniciados na cultura pop norte-americana da década de 80; e o enredo parece não fazer muito sentido para nós, brazucas. Ao contrário: só não é mais estadunidense por falta de espaço! Isto não significa, contudo, que a película não consiga criar um elo com o espectador. Algumas das situações descritas no roteiro soam tão universais que chega a ser impossível não simpatizar com Napoleon.

Também, olha só a situação do cara: Napoleon (o ótimo Jon Heder) é o freak do colégio secundário onde estuda, em Idaho; aquele tipo de nerd desajustado cujas figuras mais populares jamais gostariam de ter por perto. Claro que a mente fértil do rapaz e seu talento para tiradas bizarras ajudam bastante a disseminar esta posição desconfortável – não é difícil vê-lo apanhar por soltar jóias como “devemos defender nossa amiga, a Nessie, o monstro do Lago Ness”! :-D Sua falta de status no colégio não o impede de tentar conquistar as garotas mais desejadas da escola com desenhos toscos e aterrorizantes…

Em casa, a má sorte de Napoleon não é tão diferente assim. Afinal, há a avó (Sandy Martin) e o irmão mais velho, Kip (Aaron Ruell), para atanazar a vida do pobre coitado. Enquanto a avó considera Napoleon um grande inútil, Kip é o próprio inútil, um mané que nunca trabalhou na vida (mesmo estando na casa dos 30 anos), acredita ser um mestre de Tae Kwon Do e passa praticamente o dia inteiro na Internet, alimentando seu romance virtual com uma certa LaFawnduh (Shondrella Avery), garota que nunca viu mais gorda. O inferno astral de Napoleon tem início quando a avó sofre um acidente com o namorado, e o insuportável Tio Rico (Jon Gries) é enviado para “cuidar” dos dois irmãos. Tio Rico, um infame e fracassado ex-jogador de futebol americano, parece sentir um prazer sobrehumano em humilhar Napoleon das formas mais estúpidas possíveis, como oferecer serviços de “aumento de busto” para as meninas que o elemento tanto se esforça em ganhar… :-P

O destino de Napoleon parece mudar quando cruza o caminho do mais novo aluno da escola, o mexicano Pedro (Efren Ramirez). Pedro simpatiza com Napoleon de imediato, e este torna-se seu fã – afinal, Pedro tem bigode (!). Quando o calado estrangeiro decide candidatar-se à presidência do grêmio, o nerd usará de todo seu “charme” para que o outro consiga atingir seu objetivo. Ao mesmo tempo, Napoleon interessa-se discretamente pela figura retraída e desengonçada de Deb (Tina Majorino, a piveta de Waterworld – O Segredo das Águas), que pode ou não estar envolvida com Pedro. O surgimento do primeiro amor e a descoberta de algumas “aptidões” podem representar uma virada de 180º na vida de Napoleon Dynamite. Enquanto isso, Tio Rico e Kip vendem tupperware de porta em porta para juntar dinheiro e comprar um aparelho para… viajar no tempo. Vixe!

O tempo, aliás, marca presença constantemente em Napoleon Dynamite: apesar de não se passar em uma época definida, nota-se que a ação do longa acontece nos dias atuais. Uma boa parcela dos personagens, porém, parece viver congelado nos anos 80. O delicioso climão retrô está presente em quase todos os fotogramas do filme, seja nos ótimos figurinos criados por Jerusha Hess, na caracterização da família Dynamite e de Deb e Pedro (preste atenção nas perucas!), ou na trilha sonora, que mistura melodias bacaninhas como We’re Going to be Friends, do White Stripes – que abre o filme na já famosa seqüência de abertura, com os créditos escritos em pratos de comida – com clássicos das baladas-chiclete, como Time After Time, da eterna punk Cyndi Lauper, e Forever Young, do Alphaville (lembram desta?). Canções que falam da ação indissolúvel do tempo e do desejo de poder voltar ao passado para consertar alguma coisa – tema nitidamente valorizado no roteiro da fita. Esta identificação com os anos 80 é apenas um dos vários acertos da produção.

As interpretações correspondem a outra bola-dentro da equipe. Destacam-se as hilariantes atuações do estreante Aaron Ruell, como o viajado Kip, e Jon Gries (de Homens de Preto), muito à vontade no papel do ofensivo Tio Rico. Quem rouba o show, no entanto, é mesmo Jon Heder. Como o excêntrico Napoleon, o semi-estreante Heder – que até então participara de apenas dois filmes, um para a TV e o outro, um curta-metragem – mostra que tem fôlego de sobra para carregar um filme nas costas. Um belo exemplo é a antológica e comentadíssima cena da “dança da eleição”, também premiada no MTV Movie Awards, em que Napoleon improvisa um número de dança ao som de Canned Heat, do Jamiroquai. É de rolar de rir! ;-D

Mas nada adiantaria tudo isso sem o roteiro inteligente e engraçadíssimo de Jared Hess, uma crítica ácida e muito oportuna à sociedade estadunidense, ávida por heróis perfeitos na pele de jovens bonitos, comunicativos e bem-sucedidos. Vale a pena dar uma espiada neste filme bastante original e divertido. E qual é o problema, afinal, se uma pessoa não se encaixar em nenhum destes pré-requisitos? Oras, como o próprio cartaz original do filme diz, Napoleon Dynamite está aí para provar a todos que não precisa provar nada a ninguém! E faz isto com louvor.

E enquanto Napoleon Dynamite aguarda ansioso pela boa vontade das distribuidoras tupiniquins em lançá-lo em nossos cinemas, mesmo que durante uma semaninha apenas, somos obrigados a agüentar troços como os da Xuxa que, depois de não-sei-quantos-meses de estréia, parecem manter-se eternamente em cartaz… Revolta, revolta, revolta! >:-( Ah, tudo bem. Agora eu já assisti mesmo…

CURIOSIDADES:

• O nome Napoleon Dynamite é também um pseudônimo usado pelo cantor Elvis Costello no álbum Blood and Chocolate, de 1986. O produtor executivo do filme, Jeremy Coon, declarou que a produção não tinha conhecimento do pseudônimo e tudo não passou de uma estranha coincidência. Será?

• Depois do estrondoso sucesso no Festival de Sundance, Jared Hess aproveitou a adesão da Fox Searchlight à distribuição do filme e incluiu, depois dos créditos finais, uma cena surpresa de aproximadamente 5 minutos. A cena, cujo tema não comentarei aqui para não estragar a diversão, consegue ser mais bizarra que a fita inteira!

• O personagem Tio Rico é viciado em carnes, e aparece comendo bifes em muitas cenas. O ator Jon Gries, intérprete de Rico, entretanto, é vegetariano. Este pequeno detalhe não foi problema para Gries, que mastigava a carne e depois cuspia discretamente. Numa sequência, porém, é possível perceber o ator cuspindo um pedaço de bife na mão.

• Em dado momento da projeção, há uma seqüência que envolve uma espingarda, uma vaca e um ônibus escolar cheio de crianças. A cena pode parecer estranha demais e até de mau gosto, mas trata-se de uma reprodução fiel de uma conhecida anedota americana.

Napoleon Dynamite foi rodado em 22 dias. Jon Heder recebeu US$ 1.000 para viver o papel central. A fita foi editada em um Macintosh caseiro de US$ 6.000, no apartamento de Jeremy Coon, através de um programa chamado Final Cut Pro.

• A coreografia da seqüência da dança da eleição é de autoria de Jon Heder e Tina Majorino. Heder afirmou que a coreografia utiliza passos típicos de Michael Jackson, dos Backstreet Boys, do personagem de John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite, entre outros.

• Pouco depois do lançamento de Napoleon Dynamite, uma série de notícias davam como certa a suposta morte de Jon Heder em um acidente de carro. Logo em seguida, outras notícias diziam que o ator estava morto sim, mas a causa teria sido overdose de drogas. Tudo foi por água abaixo quando Heder deu as caras em um evento beneficiente, desmentindo os boatos. Há quem diga que esta foi apenas uma jogada dos produtores para criar um ar mitológico para o filme e, como conseqüência, vender mais ingressos.

NAPOLEON DYNAMITE • EUA • 2004
Direção de Jared Hess • Roteiro de Jared Hess e Jerusha Hess
Elenco: Jon Heder, Jon Gries, Aaron Ruell, Efren Ramirez, Tina Majorino, Diedrich Bader, Shondrella Avery, Haylie Duff, Sandy Martin, Trevor Snarr.
86 min. • Distribuição: Paramount Classics/Fox Searchlight.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: