Maria Cheia de Graça

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 05/04/2005.

Maria Cheia de Graça (Maria Full of Grace)

No anúncio dos indicados ao Oscar 2005, uma certa Catalina Sandino Moreno surgiu entre os nomes escolhidos para disputar o prêmio de Melhor Atriz. Moreno competiu por sua performance num longa-metragem chamado Maria Cheia de Graça (Maria Full of Grace, 2004), uma co-produção entre os Estados Unidos e a Colômbia, que marca a estréia na direção do cineasta Joshua Marston. A menina não levou o prêmio. Mas a semente da dúvida estava plantada: afinal, quase ninguém sabia que raio de filme era esse, e muito menos quem era esta tal Catalina Sandino Moreno que saiu do anonimato e brilhou entre os grandes nomes hollywoodianos logo em sua estréia nas telonas. Imagino que, assim como eu, muitos devem ter visto o título da fita e imaginado se tratar de uma produção religiosa. Contanto que não fosse um Irmãos de Fé da vida… Ugh! :-P

Enfim, o Oscar passou e alguns de seus principais trabalhos provavelmente nunca mais serão citados – repararam que geralmente é isso que acontece? Mas se alguém aí ainda quiser saber que filme é esse e quem é esta atriz, eu posso responder: Maria Cheia de Graça é um dos trabalhos independentes mais contundentes e aterrorizantes do ano – ao menos por enquanto. Esqueçam a tal conotação religiosa do título; o que temos aqui é um drama assustadoramente realista, com ritmo de suspense e que faz o espectador se sentir tão encurralado quanto suas personagens. E sim, Catalina Sandino Moreno mereceu estar entre as indicadas. E em comparação a pelo menos uma delas – né, Annette Bening? -, com certeza deveria ter levado! E esta vai para aqueles que acompanharam a festa até o final: que atire a primeira pedra aquele que não babou pela beleza da moça! Eu salivei bastante. :-D

A Maria do título não é aquela que à primeira vista todos pensam que seja, e sim uma adolescente colombiana de 17 anos que vive numa região pobre de Bogotá. Maria Alvarez (Moreno) amarga um subemprego numa fábrica de arranjos de flores, e seu salário é integralmente desviado para cobrir as despesas da família – Maria divide uma pequena casa com a mãe, a avó, a irmã mais velha e um sobrinho ainda bebê. É uma jovem rebelde, viva, destemida e louca pra ganhar a vida. Em seu caminho, entretanto, só encontra as limitações de sua pequena cidade, de seu emprego, de sua família e até do namorado Juan (Wilson Guerrero), oposto perfeito de Maria. A garota quer crescer e não consegue, embora não esteja disposta a aceitar seu destino assim tão facilmente.

Até então, Maria Cheia de Graça é apenas um longa dramático bem construído e com bons diálogos. A coisa muda de figura quando Maria desentende-se com seu autoritário patrão e pede demissão. Sem trabalho e grávida de Juan, a moça encontra em seu caminho o sedutor Franklin (Jhon Alex Toro), rapaz descolado, diferente de qualquer um que conheça. Franklin, que representa fisicamente tudo aquilo que a garota almeja, lhe oferece um “emprego fácil, que dá oportunidade de viajar e não oferece risco algum”, em suas próprias palavras. Ela sabe que existem riscos, e não são poucos, mas ainda assim aceita. O emprego: trabalhar como “mula”. Para quem não sabe, “mula” é o nome dado às pessoas que viajam da Colômbia aos Estados Unidos transportando heroína – na grande maioria das vezes, alojadas dentro do corpo, no estômago, no formato de dezenas de cápsulas embrulhadas em sacos de borracha. Se uma destas cápsulas se abre no estômago, é morte certa.

É aqui que o drama dá lugar ao horror: Maria e mais três mulheres – entre elas sua melhor amiga Blanca (a ótima Yenny Paola Vega) e a experiente Lucy (Guilied López) – passam por maus bocados no avião, na alfândega (onde uma delas é presa) e no motel onde devem “descarregar” a mercadoria. E, mais tarde, perdidas em Nova Jersey, a milhas de casa, Maria e Blanca experimentam na pele todas as dificuldades e humilhações enfrentadas por imigrantes estrangeiros ilegais nos Estados Unidos, ironicamente alardeado como “a terra das oportunidades”. Isso tudo sem esquecermos de que Maria está há poucos meses de tornar-se mãe.

Chega a ser desconcertante a forma com que o diretor Joshua Marston conta sua história. A câmera no ombro dá a impressão de que estamos assistindo a um documentário; é tudo filmado de maneira crua, sem exageros e utilizando apenas as lições básicas de montagem, fotografia e um mínimo de trilha sonora. E como se isto ainda fosse pouco, o roteiro de Maria Cheia de Graça – de autoria do próprio Marston – é excelente e com os dois pés no chão, evitando a todo custo romancear, estereotipar e tomar partido de qualquer um dos assuntos abordados, seja o tráfico de drogas, seja a situação desumana dos estrangeiros nos States. Ainda em termos de história, é louvável a forma com que Marston constrói a odisséia de Maria: todas as encrencas na qual a moça se envolve, por maior que se tornem a cada instante, como uma gigantesca bola de neve, nunca escapam ao controle do roteirista e tampouco ficam confusas ao espectador. E a significativa cena final é, ao mesmo tempo, desoladora e cheia de esperança, dois sentimentos que caminham lado a lado durante quase a película inteira.

Nada disso funcionaria, contudo, caso o diretor não contasse com um pequeno trunfo nas mãos chamado Catalina Sandino Moreno. Outra atriz neste papel correria o sério risco de transformar a personagem em uma chorona ou em uma super-heroína. Moreno, por outro lado, parece ter nascido para interpretar Maria, encontrando o tom certo para não despencar na pieguice e nem glamourizar demais. Por mais que tome toneladas de decisões erradas e saibamos disso, ela nos faz acreditar a todo o momento que aquilo é o correto. E nos sentimos na obrigação de concordar. Prestem atenção na seqüência do avião, que culmina na cena da alfândega: é de uma aflição perturbadora. E tudo graças à interpretação de Moreno. E pensar que a garota não tinha experiência alguma em atuação até este filme… :-D

Pra resumir, Maria Cheia de Graça é um drama humano, tocante, sensível e ao mesmo tempo cruel. O tráfico de drogas é apenas pano de fundo para uma película que não mede esforços para retratar com realismo a busca de pessoas comuns, como eu e você, por um mundo cheio de possibilidades. Pessoas comuns, que sabem da existência de um futuro melhor e com perspectivas, mas que precisam passar por cruéis obstáculos até, quem sabe, chegar a este futuro. :-)

CURIOSIDADES:

• Um dos personagens-chave de Maria Cheia de Graça, Dom Fernando, é interpretado por Orlando Tobón, que não é ator. Tobón participava como consultor técnico e produtor associado do longa quando recebeu o convite de Joshua Marston, que desenvolveu o personagem especialmente para ele. Tobón, que é dono de uma agência de viagens em Queens, presta um valioso serviço: ele reenvia para a Colômbia os corpos das “mulas” que falecem durante o transporte para os Estados Unidos. Tobón já impediu que mais de 400 colombianos fossem enterrados nos EUA como indigentes. O cara também é o ponto de referência de todos os imigrantes colombianos que decidem tentar uma nova vida em solo estrangeiro, arranjando empregos, moradias e afins. Tobón conhece tanto sobre o assunto que geralmente presta serviços de assessoria até para a polícia norte-americana.

• O trabalho de pesquisa de Joshua Marston incluiu entrevistas com os agentes alfandegários do aeroporto JFK, além de “mulas” que se encontram atualmente presas nos EUA e um cirurgião geralmente contatado para tentar salvar a vida das “mulas” cuja carga estoura dentro do estômago. Segundo este cirurgião, um adulto consegue levar até 1 kg de heroína no interior de seu corpo, e basta que 10g invada a corrente sangüínea para que o indivíduo embarque desta para uma melhor. Joshua Marston também ajudou a interrogar passageiros no mesmo aeroporto.

• A ótima Yenny Paola Vega, intérprete de Blanca, foi descoberta em uma escola de segundo grau. Até o momento, Vega não tinha participado sequer de peças de teatro para a escola. E não pretende fazer mais nada além do longa, já que seu sonho é se formar professora. Puro desperdício, e não sou só eu que falo: a garota ganhou uma justa indicação ao prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Independent Spirit Awards de 2005.

• Dentre os 21 prêmios conquistados até agora, destaca-se o Prêmio Alfred Bauer de Melhor Primeiro Filme no Festival de Berlim 2004. Catalina Sandino Moreno levou para casa o Urso de Prata de Melhor Atriz, mesmo troféu que Fernanda Montenegro conquistou com Central do Brasil em 1999. Maria Cheia de Graça foi o vencedor do Prêmio do Júri de Melhor Filme na 28.ª Mostra BR, e também foi coroado Melhor Filme no concorridíssimo Festival de Sundance.

• As cenas de Maria Cheia de Graça que se passam no povoado colombiano foram rodadas no Equador, devido à violência no país de origem.

MARIA FULL OF GRACE • EUA/COL • 2004
Direção de Joshua Marston • Roteiro de Joshua Marston
Elenco: Catalina Sandino Moreno, Yenny Paola Vega, Wilson Guerrero, Jhon Alex Toro, Guilied López, Patricia Rae, Orlando Tobón.
101 min. • Distribuição: HBO Films/Imagem Filmes.

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