Mar Aberto

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 23/10/2004.

Mar Aberto (Open Water)

O que é, afinal, um filme de horror? A pergunta parece ser meio besta, mas é complexa e justificável. Bem, na minha opinião, um filme de horror não é apenas aquele que por razões óbvias está dentro de seu gênero, como O Exorcista, mas também aquela produção de qualquer gênero que me cause um sentimento similar a angústia e medo. Um exemplo: gosto de acreditar que Clube da Luta, o neo-clássico de David Fincher, se enquadra bem aí porque passei uma noite inteira em claro pensando na tragédia que poderia acontecer se um louco subversivo surgisse do nada por aí e resolvesse levar adiante as idéias peculiares de Tyler Durden. Outro exemplo? Réquiem Para Um Sonho me fez fechar os olhos e tapar os ouvidos pelo menos três vezes nas últimas cenas de Sara Goldfarb na clínica psiquiátrica e Harry Goldfarb no hospital. E a função de um filme de terror não é causar medo, pombas? Se não sinto medo, pra mim a fita não é bem-sucedida. É a mesma coisa que ficar sério em filme de comédia.

Dá pra se ter uma noção do que estou falando quando se assiste a Mar Aberto (Open Water, 2003). Por mais que esta pequena produção não seja exatamente um filme de horror, acaba se tornando um. Porque nos exatos 79 minutos de duração da fita, o que se vê na tela é uma sucessão de eventos angustiantes e revoltantes que culminam no mais absoluto terror. O que nem sempre é, mas deveria ser a função básica de qualquer filmeco do gênero por aí. O diretor Chris Kentis, em sua segunda aventura na direção (a primeira fita, Grind – Correndo Contra a Vida, é bem difícil de encontrar por aqui), cumpriu com louvor seu objetivo: ao final da projeção, o espectador está em frangalhos, chocado, com o coração um pouco acelerado. O que era pra ser um drama com toques de suspense acabou se tornando um belo de um filme de horror. Porque vou confessar, não durmi a noite toda com a tal última seqüência martelando na cabeça.

Mas um aviso: muita gente vai odiar Mar Aberto. Principalmente aquele pessoal que adora ir ao cinema e falar: “Ah, esses caras são muito moles, se fosse eu no lugar deles…” ou então “Que bobeira de filme, nem dá medo, eu já passei por coisa pior”. Se alguém aí é assim, é melhor procurar outro filme pra ver (aliás, sendo assim é melhor nem sair de casa. Que graça tem em pagar ingresso e não embarcar na proposta da fita?). Porque é uma produção independente, totalmente rodada com câmera digital (o que, na telona do cinema, causa uma quebra razoável na imagem), não têm nomes hollywoodianos no elenco, quase não tem sustos e boa parte de sua história é apoiada em sugestões, tal qual o maravilhoso A Bruxa de Blair (1999).

E como A Bruxa, aqui em Mar Aberto o que começa sem muitos atrativos vai num crescendo e explode à medida que a fita caminha rumo ao seu final. O que alguns podem detestar, no entanto, é justamente o que torna Mar Aberto tão apavorante: não há nada mais aterrador do que o desespero humano. E vou falar uma coisa: quando as luzes se acenderam e os créditos subiram, me senti aliviado por aquela tortura psicológica ter, finalmente, acabado.

Logo no início do longa, somos apresentados a Daniel (Daniel Travis) e Susan (Blanchard Ryan), casal à beira de uma bela crise no relacionamento. Susan só tem olhos para o trabalho e negligencia o marido; ele se sente rejeitado por ela em vários aspectos, principalmente na cama – cena, aliás, que fará a alegria dos homens da platéia. Pra piorar, a maçante rotina se instalou de vez na vida nos dois. A fim de tentar salvar o casamento, Daniel e Susan resolvem passar férias em um paraíso tropical, com todas aquelas mordomias que um belo pacote turístico pode oferecer. Até aí, é apenas um bom filme, com boa atuação dos atores centrais.

Com 20 minutos de filme, o casal participa de um passeio de barco com mais 18 pessoas e três guias de turismo, com direito à prática de mergulho em um recife em pleno mar aberto. Todos os vinte tripulantes caem na água e se divertem por meia horinha, até que um erro de cálculo e a falta de atenção de um dos guias do barco dão início ao pesadelo: Susan e Daniel sobem à superfície e o barco simplesmente não está mais lá. A início, o casal tão acostumado a ter as rédeas das situações até que não se desespera tanto. Um barco passa ao fundo, um navio cargueiro segue no horizonte, e eles tentam acenar, sem sucesso. À medida que as horas passam, Daniel e Susan se convencem mais e mais de que só um milagre poderá salvá-los. Sozinhos, Daniel e Susan reavaliam suas vidas e buscam redenção.

As conseqüências naturais da situação em si se manifestam, e cada uma delas é mostrada em detalhes na telona, de modo a aumentar ainda mais nosso sofrimento: o casal é obrigado a fazer suas necessidades fisiológicas ali mesmo; Susan é mordida por uma barracuda e Daniel é queimado por águas-vivas; a fome começa a apertar e sinais de desidratação se tornam visíveis; a maré arrasta o casal para longe do local do mergulho, impedindo assim a localização por parte de alguma suposta equipe de resgate, e o traje térmico especial para mergulho já não consegue mais impedir o frio. Mas a coisa fica preta mesmo quando urubus começam a sobrevoar os dois e eles notam a presença de um cardume de tubarões ao seu redor, só aguardando uma relaxada deles pra atacar.

E é isso. O que se pode dizer é que a direção não dá descanso, transformando a platéia em testemunha ocular do definhamento dos personagens. Em muitos momentos, o estado físico e psicológico de Daniel e Susan é sufocante, principalmente de Susan. E a cena que se passa à noite fará muita gente desviar o olhar da tela, tamanha sua aflição. A quase total ausência de música e a fotografia crua e granulada ajudam a manter o clima documental e propositalmente amador, o que já não acontece com a montagem, “clássica” demais para os movimentos e enquadramentos de câmera. Outro trunfo da produção é a escolha dos protagonistas: Daniel Travis e Blanchard Ryan são naturais e realmente nos convencem de que estão no limite do desespero. Talvez estivessem mesmo, uma vez que os produtores optaram por usar tubarões de verdade nas filmagens. Sai fora! :-)

Não é exagero afirmar que Mar Aberto é, sem sombra de dúvida, um dos longas mais nervosos do ano até agora. E um dos mais completos no que diz respeito à sua proposta: você realmente sente medo, angústia e revolta enquanto assiste à película. É pra isso que um filme serve, para despertar sentimentos na platéia, correto? Por isso, por mais que não seja exatamente um filme de terror, provoca o mesmo impacto que as boas produções de gênero. E sua vantagem em cima de outros como A Bruxa de Blair é que o que acontece aqui realmente PODE acontecer com qualquer um. Não há nada de fantasia, somente a realidade pura e crua. Isso já dá medo suficiente.

Só uma coisa: apesar de não ser do gênero horror, Mulher-Gato também dá muito medo. Medo de ver Pitof dirigindo qualquer outra coisa no futuro! Hehehe…

CURIOSIDADES:

• O roteiro de Mar Aberto foi escrito por Chris Kentis em parceria com sua esposa, a também produtora Laura Lau, e se baseia num fato verídico ocorrido na Austrália. Em 1998, o casal de turistas americanos Tom e Eileen Lonergan foram abandonados numa barreira de corais pelo barco em que estavam. Não há nada afirmado sobre o paradeiro do casal Lonergan, mas o que se sabe é que a região em que os dois desapareceram é freqüentemente “visitada” por tubarões. A embarcação responsável pelos turistas desaparecidos, o The Outer Edge, demorou absurdas 51 horas para relatar o ocorrido, e chegou a cogitar a hipótese de suicídio, pelo fato de Tom Lonergan sofrer de psicose maníaco-depressiva. Alguns meses depois do desaparecimento, pescadores encontraram uma espécie de palmtop especial para registros embaixo d’água, com uma desesperada mensagem de socorro do casal.

• Ainda sobre este fato, há pelo menos 26 “teorias da conspiração” correndo pela Internet envolvendo a suposta morte do casal Lonergan. Uma delas é a de que, na verdade, Tom e Eileen não estavam em férias, e sim a trabalho: eram espiões contratados do governo para investigar um caso na Ilha de Fiji. Já disseram que os Lonergans forjaram a própria morte para mudar de indentidade, e a teoria mais absurda é a de que um submarino teria seguido o The Outer Edge e assassinado os dois em pleno mergulho…

• Foram usados cerca de 45 tubarões reais na produção. A cada dia de filmagem, a atriz Blanchard Ryan, que morria de medo de tubarões, fazia Daniel Travis entrar na água primeiro, para se certificar de que estariam seguros, mesmo rodeados pelos peixões. É, pimenta no dos outros é refresco… Em compensação, a intérprete de Susan foi realmente mordida por uma barracuda no primeiro dia de filmagem. O castigo vem a cavalo…

Mar Aberto custou US$ 130 mil, dinheiro financiado exclusivamente por Chris Kentis e Laura Lau. O longa ganhou gás quando exibido com muito sucesso no Festival de Sundance, e seus direitos de distribuição foram comprados pela Lions Gate pela bagatela de US$ 2,5 milhões. Mar Aberto foi totalmente rodado em fins de semana e feriados, com uma equipe técnica que contava apenas com dois ou três integrantes.

• Numa cena, é possível ver as identidades dos protagonistas. Na ID de Daniel, podemos perceber que seu nome completo é Daniel Kintner. Este é o mesmo sobrenome do garoto assassinado em Tubarão (1979), de Steven Spielberg.

OPEN WATER • EUA • 2003
Direção de Chris Kentis • Roteiro de Chris Kentis
Elenco: Blanchard Ryan, Daniel Travis, Saul Stein, Estelle Lau e John Charles.
79 min. • Distribuição: Paris Filmes.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: