Jogos Mortais

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 31/01/2005.

Jogos Mortais (Saw)

Não adianta. Como alguém quer que eu faça uma crítica sem me envolver emocionalmente com o que escrevo? Vejam só meu caso: sou um fã ardoroso e declarado de fitas de suspense, obcecado por Alfred Hitchcock, pelos primeiros trabalhos do Brian DePalma e doente por “filmes com final surpresa” (à exceção das produções assinadas por M. Night Shyamalan, de quem sou chegado pero no mucho). E tudo isto por culpa de um sujeitinho chamado David Fincher que, há exatamente dez anos atrás, ainda um “quase estreante”, comandou uma fita independente que estraçalhou todos os blockbusters em seu caminho, virou de ponta-cabeça todos os conceitos do gênero e se tornou um divisor de águas na forma de se fazer filmes: Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995). Com esta fita, David Fincher também fez a gentileza de me apresentar ao universo do cinema de suspense – gênero que hoje em dia é o meu preferido.

Seven marcou época graças à sua forma praticamente inédita de contar uma história – usando e abusando de tomadas mórbidas, cenas cruéis e um roteiro pra lá de enxuto com um final arrasador, e logo gerou seus filhotinhos. Todos, principalmente os grandes estúdios, queriam copiar a fórmula de terror psicológico que fez tanto sucesso nas mãos de Fincher. Com isso, surgiram do nada várias produções deste que já era considerado um subgênero. Todos ruins, aliás. Vixe, cada um pior que o outro! E foram necessários dez anos para que chegasse às telonas um exemplar digno de honrar a memória do primeiro longa. E olhem só: este exemplar da qual estou falando também é uma produção indie e saiu da cabeça de dois estreantes – dois caras que, sem as amarras de estúdios “top de linha”, puderam fazer o que quisessem sem suavizar porcaria nenhuma. Pois é, enquanto veteranos andam desapontando cada vez mais, os novatos só nos surpreendem. E será que ainda é possível alguém como eu não gostar de Jogos Mortais (Saw, 2004)? Não, não é possível.

Na verdade, o ideal mesmo é que não houvesse uma resenha para esta produção. Jogos Mortais é um daqueles trabalhos que ficam bem mais impressionantes e saborosos quando não se sabe absolutamente NADA a respeito deles. Por isso, dou aqui a opção: não revelarei nada neste texto além do que é naturalmente divulgado pela distribuidora numa sinopse, mas se ainda assim você achar melhor descobrir o enredo por si mesmo, pare de ler este texto agora!

Voltando à nossa programação normal, acho que sou até ponderado ao afirmar que há tempos não surge nas telonas um exercício de horror tão impressionante quanto este. Jogos Mortais é o típico longa-metragem que chega pra provar que, pra se fazer terror de verdade, daqueles de fazer tremer na base e grudar o espectador na poltrona, não é preciso investir rios de dinheiro em efeitos especiais mixurucas e inventar uma pusta história sem pé nem cabeça com demônios, monstros e afins (alô, Exorcista: o Início?). É só bolar um enredo coerente (hmmm, isto é o difícil em Hollywood… achamos o problema!), um roteiro técnico que não ofenda a inteligência do público – sim, nós somos inteligentes! – e colocar no meio um serial killer metódico e cauteloso, capaz de botar medo em qualquer um. Tudo bem, o cartaz nacional da fita, que divulga em letras garrafais a frase “Esqueça Seven”, com certeza exagera bastante. Mas ainda assim, Jogos Mortais é, sim, ducacete! :-D

A culpa é dos tais dois caras estreantes, os amigos James Wan e Leigh Whannel, ambos de 27 anos. Os dois escreveram a história original, e enquanto Wan dirigiu os atores, Whannel cuidou dos diálogos e do tratamento final do texto. O resultado do trabalho em conjunto foi um roteiro que, de tão bom, nem precisou ser lido até o final para receber sinal verde (diz a lenda que os investidores do projeto toparam desembolsar um tutuzinho depois de ler apenas as primeiras páginas). Bem, se é assim, tinha que sair alguma coisa boa, certo?

Certíssimo. A exemplo do John Doe de Seven, o lunático de plantão aqui, apelidado de Jigsaw (literalmente, o Assassino do Quebra-Cabeça), acredita fazer “um favor à humanidade”, mas ninguém sabe ao certo o que isso significa (e quem sabe não vai contar pra não estragar a surpresa, né!). O que o cara faz: seqüestra alguma pessoa aparentemente inocente e arma uma espécie de “jogo” para esta pessoa. Se ela não concluir o jogo, morre. Se concluir, é libertada. O problema é que o próprio jogo oferece muitos riscos de vida – e são riscos que podem causar (e causam) mortes e/ou mutilações horríveis, daquelas que você não consegue nem mesmo imaginar, tamanho o nível de crueldade. Em um destes jogos, por exemplo, uma garota é presa a uma espécie de “armadilha de urso ao contrário”, um mecanismo que pode arrancar sua mandíbula quando acionada. Para tirar o aparato, ela precisa… bem, é melhor não entrar em mais detalhes.

Enfim, o tal serial killer, apesar de ser perseguido aos quatro cantos pelo detetive Tapp (Danny Glover), não pode ser condenado, já que ele não suja as mãos matando as vítimas; simplesmente fornece as “ferramentas” para que elas se matem sozinhas.

Enfim, quando Jogos Mortais começa, somos apresentados a duas pessoas “estranhas” entre si. Um é o Dr. Lawrence Gordon (Cary Elwes, de O Mentiroso e Beijos que Matam), médico que atravessa uma crise no casamento com a bela Alison (Monica Potter, que atuou em Na Teia da Aranha – curiosamente, um prequel de Beijos que Matam). O outro é Adam (Leigh Whannel, o autor do roteiro), que trabalha como… bem, deixa pra lá. Enfim, Gordon e Adam têm algo em comum: os dois acordam em um imundo e desativado banheiro do que parece ser um galpão abandonado. Cada um está em um canto do extenso ambiente, e ambos estão acorrentados pelo pé em grossas tubulações de água. No centro do banheiro, um corpo de um homem mortalmente ferido na cabeça. Junto ao corpo, uma arma e um mini-gravador.

Adam e Gordon não tardam a entender que são as novas vítimas do tal Jigsaw, que assiste o martírio dos dois homens através de uma câmera escondida, e dois envelopes escondidos em seus bolsos explicam que devem participar de “uma brincadeira”, se tencionam sair dali com vida. As “regras” do jogo são dadas, e… tá bom, agora chega!

Pois é, não tem mais o que dizer. Qualquer coisinha, por menor que seja, estraga. Só o que posso comentar é que a direção de James Wan é bem competente, o roteiro de Leigh Whannel prende a atenção do início ao fim e até o trio Danny Glover/Cary Elwes/Monica Potter – três atores com uma enorme (e verdadeira) fama de “canastrões” – dá conta do recado. A direção de fotografia do semi-desconhecido David Armstrong (cujo trabalho mais prestigiado é O Professor Aloprado, e ainda como assistente de câmera) é um primor e algumas cenas beiram o horror escatológico, nos fazendo fechar os olhos e tapar os ouvidos numa boa. Melhor não assistir comendo, pois há o risco de você “chamar o Hugo”! Talvez o único ponto fraco de Jogos Mortais seja a seleção da trilha sonora. Nada contra heavy-metal e hard-rock, mas em determinadas cenas simplesmente não combinou.

E quanto ao final, alardeado como “surpreendente”… bem, sim, ele é. Um final chocante mesmo, de fazer todo mundo exclamar “Putz, como não pensei nisso antes?”. Só não é tãããão chocante assim. O que torna Jogos Mortais uma experiência impressionante é justamente seu roteiro bem amarrado e, por muitas vezes, original. Um verdadeiro tapa na cara de muito cineasta velho de guerra que só anda fazendo lixo. Talvez o que mais surpreenda nisso tudo é saber, com Jogos Mortais, que ainda há gente infiltrada no meio, cuja preocupação maior é oferecer um trabalho com qualidade, sem intenções de apenas arrancar nosso dinheiro e nos chamar de “burros” na cara dura. E pelo amor de Deus: de onde surgiu aquela cabeça de porco e aquele palhaço maldito? Se eu dou de cara com aquilo no meio da noite, eu infarto na mesma hora! :-)

CURIOSIDADES:

Jogos Mortais foi rodado em apenas 18 dias.

• O enredo, escrito a quatro mãos por James Wan e Leigh Whannel, foi enviado a seu agente, que leu as primeiras páginas e, sem pensar duas vezes, despachou o manuscrito a um executivo de Los Angeles. Este imediatamente entrou em contato com os roteiristas. Nem bem leu a resenha, o tal executivo forneceu verba para Wan e Whannel rodar uma das cenas de Jogos Mortais em formato de curta-metragem, para apresentar aos estúdios.

• Originalmente, James Wan e Leigh Whannel pretendiam lançar Jogos Mortais direto em VHS/DVD. Depois de uma exibição teste, os produtores insistiram que a Lions Gate, empresa responsável pela distribuição, deveria jogá-lo nos cinemas, e investiram uma nota preta em marketing. Confiando em seu próprio taco, o diretor se recusou a receber um salário fixo e optou por ganhar somente uma parcela na bilheteria. Levando-se em consideração que o filme rendeu US$ 55 milhões só nos EUA – uma marca impressionante para uma produção independente -, Wan fez a escolha certa.

Jogos Mortais teve problemas com os puritanos da MPAA (Motion Picture Association of America), que exigiram cortes para que o longa pudesse ganhar a classificação R (classificação indicativa que exige acompanhamento de adultos para menores de 17 anos) ao invés da temidíssima NC-17 (que proíbe rigorosamente a entrada a menores de 18 anos, mesmo acompanhado dos pais). Uma das cenas cortadas é a tão comentada “cena do intestino”, que James Wan já prometeu que estará no DVD. Então beleza! Ah, não sabe qual é a cena do intestino? Assista e entenda, uai! :-D

• Leigh Whannel declarou em uma entrevista que sua principal fonte de inspiração foi a filmografia do cineasta italiano Dario Argento, especializado em histórias extremamente bizarras e responsável por Suspiria (1977), considerado um dos grandes trabalhos de horror da história do cinema.

SAW • EUA • 2004
Direção de James Wan • Roteiro de Leigh Whannel
Elenco: Leigh Whannel, Cary Elwes, Danny Glover, Monica Potter, Ken Leung, Dina Meyer, Shawnee Smith.
102 min. • Distribuição: Paris Filmes.

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