Eragon

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 21/12/2006.

Eragon

Afe, maior barato como algumas produções já carregam uma incômoda fragrância de BOMBA desde as primeiras notícias, não é? Sério mesmo, será que alguém no universo viu o trailer da aventura Eragon (Idem, 2006) e esperou um grande filme daí? Eu com certeza não, desculpe por ter nascido.

Bem, o fato é que talvez eu seja o único, mas já estou mais do que saturado de filmes épicos medievais. Talvez tenha sido a superexposição do já clássico O Senhor dos Anéis de Peter Jackson, ou talvez seja a má qualidade dos pseudo-filhotinhos que pegaram carona no cometa que foi a trilogia baseada na obra de J. R. R. Tolkien. Na verdade, a meu ver o que incomoda é que todos estes filmes usam basicamente uma mesma estrutura para contar basicamente uma mesma história. E isso, depois de zilhões de películas praticamente idênticas, enche o saco. E quando somos forçados a engolir uma coisa tão batida e tão cheia de defeitos como Eragon, só o que podemos concluir é que não adianta nada ser um bom menino o ano todo, pois o senhor Papai Noel, aquele barrigudo safado, é um sujeito com um senso de humor bastante esquisito. Na verdade, acho que ele ODEIA a humanidade (eu em particular). :-P

O que acontece é que Eragon poderia ser um filmaço muito bem produzido que ainda não conseguiria fugir de seu defeito maior: o enredo babaquinha. Quando você assiste a esta produção e é um escolado na arte cinematográfica (uia!), você automaticamente reconhece “n” referências a outros filmes. É impossível não se lembrar de Star Wars, Harry Potter e principalmente o próprio O Senhor dos Anéis enquanto assiste a Eragon. O que não seria lá um problema, se esta nova aventura não se limitasse a apenas chupinhar elementos dos citados. Do jeito que está, só o que sobra é aquela sensação de já ter visto tudo aquilo antes, e de forma bem mais legal… o que é uma grande verdade.

Eragon pode alegar em sua defesa que não pretende ser nada além de uma aventurazinha juvenil, assim como o é o chatíssimo livro de Christopher Paolini (que escreveu a história quando tinha apenas 15 anos) na qual esta fita é baseada. Ok, isto não deixa de ser fato – mas podemos alegar na acusação que ser um filme voltado à crianças e adolescentes não é desculpa para entregar um trabalho furrequinha. Pô, alguém aluga Labirinto e A História Sem Fim para este povo! Vamos jogar assim: muita gente anda referindo-se a Eragon como um O Senhor dos Anéis para a molecada; eu diria que estamos falando é de um Coração de Dragão para os pequenos, ou melhor, um Dungeons & Dragons! Iéca! Deu pra sentir o drama?

Se você ainda duvida das “qualidades” de Eragon, tire a prova: Eragon (o galãzinho Edward Speelers, um “talento nato”, se é que você me entende) é um rapazola no auge de seus dezessete anos, órfão, que vive feliz e tranqüilo com seu tio em uma pequena fazenda (sim, você já viu isso em algum lugar). E Eragon é um garoto que não faz idéia de que é o predestinado muito mais poderoso do que imagina (sim, você já viu isso em algum lugar). O que acontece é que o aborrescente é o centro de uma profecia que prevê o ressurgimento de uma Ordem de Cavaleiros de Dragões, grupo responsável pela paz, ordem e progresso no reino de Alagaësia – reino agora dominado pelo Rei Galbatorix (John Malkovich, o clichê puro e absoluto em pessoa, com seus gritos e sua carinha de mau), tirano que, no passado, foi um Cavaleiro de Dragão que traiu seu clã e tomou o poder para si, passando a espalhar o horror pelos limites de seus domínios (sim, você já viu isso em algum lugar).

Tudo muda quando Eragon encontra uma pedra bizarra e, encantado com a possibilidade de vendê-la para saciar a fome de seus entes queridos (ô, dó), descobre atônito que aquilo é, na verdade, um ovo de dragão. Nisso, ele entende que é uma espécie de descendente da Ordem de Cavaleiros de Dragões e que seu destino é lutar contra a tirania de Galbatorix (sim, você já viu isso em algum lugar). Depois de um treinamentozinho bem rápido ao lado de seu mentor Brom (Jeremy Irons, a PIOR coisa do filme), Eragon é um cavaleiro. Agora, resta a ele enfrentar a crueldade do rei e de seu capachão braço-direito, o bruxo Durza (Robert Carlyle), que tem até sua própria raça de criaturas medonhas, gigantescas e com dentes podres (orcs?). No final, quem sabe Eragon consegue dar uns malhos na singela princesinha Arwen, ops, Arya (Sienna Guillory, uma delícia e nada mais – desculpe o chauvinismo).

Gostou da trama? Bem ORIGINAL, não é mesmo? :-P

Deixando de lado o enredo chulé, até dá pra se divertir com os efeitos visuais. A direção de Stefan Fangmeier, conceituado supervisor de efeitos visuais que fez carreira na Industrial Light & Magic, descaradamente privilegia a parte técnica da coisa e entrega algumas seqüências até bacaninhas de se ver. Só que Fangmeier não é cineasta; ou seja, se os efeitos visuais de Eragon não decepcionam e estão dentro do padrão de qualidade estabelecidos pela Hollywood de hoje (ainda que não haja nada além do dragão Saphira, dublado por Rachel Weisz, que faça encher os olhos da platéia), o mesmo não pode se dizer do RESTO DO FILME. É tudo tão falso, tão clichê e contado de uma maneira tão prepotente que incomoda. As péssimas atuações de todo o elenco – todo MESMO -, os diálogos terrivelmente batidos (“Você é o lider de seu coração”… AI, MEUS TÍMPANOS!) e a estrutura tão idêntica aos filmes épicos medievais não são nada perto da pretensa grandiosidade do longa em si. O diretor quer levar sua história a sério, mas seu trabalho está muito, muito longe de ser algo além de um entretenimento barato para a pivetada.

Há, também, uma outra questão a se ressaltar: a duração da fita. Eragon é rápido DEMAIS. É apenas uma hora e quarenta minutos de filme que não dá conta da “complexidade” (?) da trama. Demora muito até que o garoto descubra seu destino (ai, ai…) e daí para se tornar um guerreiro habilidoso com a espada é um instante. Mas o moleque NUNCA teve qualquer contato com uma espada, como ele sai por aí lutando com vilões muito maiores e mais poderosos num piscar de olhos? Pô, se um treinamento de 15 minutos já deixou o pivete tão FO-DE-DO daquele jeito, eu também vou treinar lá no quintal de casa para virar um cavaleiro Jedi! Eu aproveito e uso os restos do boneco com a cara do Tom Hanks que queimei na última malhação do Judas como saco de pancadas. :-D

Enfim, são pequenos detalhes sem explicação que, à primeira vista, parecem não incomodar, mas conseguem destruir a película inteira.

Num resumão, enquanto o autor Christopher Paolini fez uma salada de elementos copiados de outras histórias e acreditou fielmente que criara um O Senhor dos Anéis para as novas gerações (o que deve-se perdoar, visto que o indivíduo estava no auge da adolescência ao desenvolver a trama de seu romance), Fangmeier caiu no conto do vigário e também acreditou que deveria rodar uma nova “trilogia do anel”. Só o que ele conseguiu fazer foi quase duas horas de um cinema de entretenimento que, de tão pretensioso, grandioso e vazio, fica pior ainda do que já é. E se a idéia era fazer um novo O Senhor dos Anéis, a inexperiência dos envolvidos, tanto no livro quanto no filme, só permitiu que Eragon chegasse ao chatíssimo nível de um Coração de Dragão mesmo. E cá entre nós, se este que vos escreve já procura manter distância de qualquer cópia besta da saga do senhor Frodo Baggins, uma pseudo-variação de Coração de Dragão eu dispenso, muito obrigado. Prefiro voltar ao cinema e rever O Labirinto do Fauno, que não é um épico mas é “muito mais melhor de bom”.

E só pra finalizar, alguém pelo amor de Deus me responda uma questão levantada pelo senhor El Cid em uma das muitas reuniões de pauta deste glorioso website nerd: como é que raios o senhor Eragon consegue ser um guerreiro e não ter uma única cicatriz na cara? Como é que um guerreiro que se diz mestre na espada consegue ter aquela carinha de bebê? Aliás, como Eragon consegue erguer aquela espada que deve pesar muito mais do que ele mesmo? De verdade, acho que a cada erguida de espada que o garoto dá, é uma “freada de bicicleta” a mais nas roupas íntimas. Grows! :-P

Papai Noel, me dá um presente melhor no ano que vem, tá? Sacana de uma figa.

CURIOSIDADES:

• Antes da escalação do novato Edward Speelers para o papel de Eragon, outros atores foram considerados. Elijah Wood (Uma Vida Iluminada) e Shia LaBeouf (Constantine) chegaram a ler o roteiro, mas recusaram. Dá para entender o porquê. Alex Pettyfer, que viveu Alex Rider recentemente, também foi cotado, mas desistiu do papel ao saber que Eragon seria rodado em Budapeste – e o sujeito tem pavor de voar.

• Sir Ian McKellen e Patrick Stewart foram chamados para o papel de Brom, mas sabiamente recusaram. A desculpa usada foi a mesma para ambos: agenda lotada com as filmagens de X-Men: O Conflito Final.

• Comprovado: Jeremy Irons REALMENTE carrega uma maldição milenar. Ele destrói todo e qualquer filme épico-medieval na qual participa! Incrível!

ERAGON • EUA/ING • 2006
Direção de Stefan Fangmeier • Roteiro de Peter Buchman
Baseado no romance de Christopher Paolini
Elenco: Edward Speelers, Jeremy Irons, Sienna Guillory, Robert Carlyle, John Malkovich, Garrett Hedlund, Alun Armstrong, Djimon Hounsou, Joss Stone e Rachel Weisz.
104 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

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