Encurralados

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 24/04/2008.

Encurralados (Butterfly on a Wheel)

Sabe quando a gente descobre que um ator é realmente fera? Quando o ator em questão aceita viver nas telonas um personagem marcante, às vezes até conhecido mundialmente através de outras mídias (HQs, livros, figuras reais, etc.), e consegue não apenas arrebentar na pele deste personagem, mas também não ser engolido por ele. Esta é a grande questão. Bem, não é preciso olhar muito para o passado para ver quantos artistas já sofreram por não conseguir fugir do estigma “ator de um papel só” – temos aí o caso do Superman (ops, Christopher Reeve), do primeiro James Bond (ops, Sean Connery), do Jim Morrison (ops, Val Kilmer), do Harry Potter (ops, Daniel… qual é mesmo o sobrenome daquela praga?). Alguns injustamente, outros nem tanto, verdade seja dita, e esperamos de coração que este não seja o mesmo destino daquele que, em poucos meses, nos brindará com o Coringa mais desgraçado-perverso-psicótico-medonho-pavoroso já visto, o saudoso Heath Ledger.

Então, enrolei água pra burro no primeiro parágrafo só para deixar você, leitor, bem à vontade e dizer-lhe: não se sinta culpado caso não consiga olhar para a cara do Pierce Brosnan sem enxergar o nosso amiguinho 007. Independente dos talentos do ator irlandês, o fato é que o sujeito tem uma cara tão marcante de cafajeste-que-bate-em-todos-e-come-todas (!) que coube certinho a James Bond. E agora, não importa o quanto Brosnan seja bom fora do perfil interpretativo do agente secreto; será mesmo bem difícil vê-lo em papéis antagônicos e não associá-lo ao lendário personagem que viveu em 4 fitas da cinessérie.

Mas Brosnan está tentando, viu? O sujeito já relaxou em obras bem divertidas como O Alfaiate do Panamá (2001), Ladrão de Diamantes (2004) e o excelente O Matador (2005), além de vários personagens de época e dramas românticos em seu currículo que comprovam que o ator tem talento de sobra para sobreviver longe do smoking e do Aston Martin. A curiosidade maior em seu novo trabalho, o thriller Encurralados (Butterfly on a Wheel, 2007), que acaba de chegar aos nossos cinemas, é ver o ator em uma rara incursão em papel de vilão – e fora o sotaque tenebroso roubado do cigano vivido por Brad Pitt em Snatch (?), até que o cara se dá bem.

E… quanto ao filme? Resumindo em uma linha: o enredo começa normal, revela-se absolutamente original e surreal, mas o resultado final é meio bizarro, porque tinha tudo para ser lascado e ficou apenas meia-boca com o finalzinho meio chumbrega, ainda que excelente em suas idéias. QUÊ? :-D

Por favor não me xingue, vou explicar: o plot central de Encurralados, que mexe com aquela velha questão de “jogo de gato e rato entre seqüestrador e seqüestrado”, é batido e manjado. Então, logo nos primeiros minutos, sabemos que o publicitário Neil Randall (Leônidas, ops, Gerard Butler) está prestes a receber uma promoção-monstro no mega-escritório em que trabalha. Como se não fosse suficiente, o hómi vive em uma casa de sonho com sua sensacional esposinha Abby (Maria Bello) e a filhinha Sophie, de uns 5 ou 6 anos. O público logo percebe que a vida do casal não é lá estas coisas: é aniversário da esposa e o cara não poderá degustá-la como se deve (!) pois passará o final de semana em um chalé no meio do nada com o futuro patrão, “tudo em nome do trabalho”.

Antes que tudo isto aconteça, porém, Neil e Abby são subitamente seqüestrados por Tom (Pierce Brosnan), que revela estar em poder de Sophie e força o casalzinho a realizar algumas “tarefas” em troca da vida da criança. Aqui, a coisa começa a esquentar, porque a estrutura narrativa de Encurralados, através da direção segura de Mike Barker (o mesmo do divertido porém obscuro Planos Quase Perfeitos, suspensinho com Reese Witherspoon), mantém tudo nos trilhos, mas o mais interessante é que os rumos da história são totalmente anti-convencionais – até o final, por exemplo, não dá pra saber por qual razão Tom mantém Neil e Abby em seu poder, nem por qual razão Neil parece tão amedrontado com a simples presença do indivíduo em suas vidas.

A originalidade do roteiro do semi-estreante William Morrissey revela-se em alguns detalhes inusitados que deixam o espectador sem pistas e sem ter o que deduzir. Por exemplo: por que um seqüestrador comum aparentemente interessado em dinheiro faria o seqüestrado sacar 160.000 dólares de sua conta pessoal, só para em seguida QUEIMAR toda a grana, literalmente, e atirar a maleta de cima de uma ponte? Pois é, é daí pra pior. Assim como o ótimo Vidas em Jogo, de David Fincher, nada é o que parece ser e o final pode até revelar uma “brincadeira” ou um motivo totalmente nada a ver, quem sabe… Só por fugir da obviedade de filmes deste gênero, Encurralados já mereceria lugar de destaque. :-)

Maaasss… (sempre tem um “mas”…) não estamos falando de uma fita perfeita, nem de uma trama construída à perfeição. Se o plot é bastante divertido e não tem problemas em deixar o espectador com os olhos grudados na tela até seus momentos finais, o mesmo não se pode dizer de sua conclusão cheia de reviravoltas e revelações bizarras. A idéia é boa… só que mal desenvolvida. Você fica com aquela sensação de “tudo aquilo para chegar a ISSO?”, e quando as luzes do cinema se acendem e os créditos sobem, a idéia de “brincadeira de mau gosto” (no bom sentido) presente em filmes como o já citado Vidas em Jogo dá lugar apenas à sensação de “ótima história com final bobinho”.

Então, Encurralados é bom ou não é? Sim, estamos falando de um trabalho bem legal e que vale a pena ser visto. Porém, o que tinha tudo para se tornar imperdível, transformou-se apenas em um passatempo divertido e agradável que não justifica uma ida ao cinema e cabe mais na telinha, em um dia chuvoso, quando não se tem pilomba nenhuma para fazer a não ser ficar enrolado no edredon com um balde de pipoca e um barril de guaraná. Se você sofre do bom e velho “mal de grana”, guarda o punhado de moedas para o Homem de Ferro, que chega aos cinemas na próxima semana e o Borbs viu antes de todos nós. Maldito! :-)

Pra finalizar, só um recadinho para o senhor Pierce Brosnan, caso ele esteja porventura visitando este website e lendo esta matéria (hehehe): não adianta, viu? Você é um bom ator, um sujeito engraçado e eu morro de rir só de lembrar de algumas das sensacionais piadas de O Matador, que ainda é seu melhor trabalho em minha opinião. Mas devo confessar que olho para a sua cara e só consigo ver… James Bond. Pior aqui, que é o 007 arrepiando na cabeça do Leônidas. Putz! :-D

BUTTERFLY ON A WHEEL • CAN/ING • 2007
Direção de Mike Barber • Roteiro de William Morrissey
Elenco: Pierce Brosnan, Gerard Butler, Maria Bello, Emma Karwandy, Claudette Mink, Nicholas Lea.
95 min. • Distribuição: Europa Filmes.

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