Dreamgirls – Em Busca de um Sonho

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 15/02/2007.

Dreamgirls - Em Busca de Um Sonho

Um dos atores mais legais e mais psicóticos que o cinema estadunidense já criou, George C. Scott, não concordava com “competição no cinema”. Partindo deste princípio, solicitou gentilmente à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que retirasse seu nome de futuras listas de “indicados” ao Oscar. Não adiantou muito, já que alguns anos depois, em 1971, a Academia deu o prêmio ao ator por seu fenomenal desempenho em Patton – Rebelde ou Herói?. Como resposta à indiferença e ao leve sarcasmo dos membros, Scott recusou solenemente a estatueta do carequinha dourado. Cá entre nós, a opinião de George C. Scott é bastante relevante. Nem digo pela questão de competição, mas enxergo esta posição por um outro prisma, que talvez nem seja o mesmo ponto de vista do ator, mas tudo bem: o caso é que qualquer espécie de premiação tende a supervalorizar seus indicados e subvalorizar aqueles que são (muitas vezes injustamente) ignorados.

Vejamos o caso de Dreamgirls – Em Busca de um Sonho (Dreamgirls, 2006). O musical, que conta uma história ficcional nítidamente inspirada na trajetórias das Supremes (nunca ouviu falar, calma que já explicamos), nasceu com uma invejosa aura de neo-clássico e saiu por aí papando prêmio em cima de prêmio. Dizem até que estamos falando de um dos melhores e mais ultra-mega-super-hiper maravilhosos filmes do ano passado. Por sinal, venceu o prêmio de Melhor Filme (musical ou comédia) na última edição do Globo de Ouro e prepara-se para fazer bonito no Oscar – é o longa com mais indicações neste ano, um total de oito possíveis estatuetas.

Um pusta de um senhor exagero, viu? Ok, Dreamgirls é aquele tipo de fita que faz qualquer um sair do cinema com um gigantesco sorriso estampado no rosto, cantarolando qualquer uma das ótimas (e grudentas) canções espalhadas pela projeção e com uma vontade tremenda de dar uns beijinhos na boca e arriscar uns passinhos de dança colado(a) com a(o) primeira(o) indivídua(o) que atravessar seu caminho. Este fator não o torna um clássico: Dreamgirls é bacana, e ponto final. Numa escala de 0 a 5, sendo 0 = instrumento de tortura e 5 = experiência extrasensorial, leva uma nota 3. Cá entre nós, só no ano passado vi uma série de fitas que merecem muito mais o glorioso pedestal fornecido a Dreamgirls. Vai entender essa mania dos gringolas em escolher um filme e resolver dar a ele todos os títulos possíveis e imagináveis…

Mas não vamos diminuir a película sem necessidade, não é mesmo? O que vale é olhar a metade cheia do copo, então basta dizer que Dreamgirls é uma produção divertidíssima e que vale cada centavo do ingresso. Numa comparação bastante oportuna e eficaz entre outros filmes ambientados no universo da música, este não é nem de longe um trabalho de importância histórica como Johnny & June, encaixando-se melhor naquela categoria de “diversão garantida e descompromissada” da qual também faz parte The Wonders – O Sonho Não Acabou. E antes que alguém venha tirar sarro da minha humilde pessoa… sim, eu curto The Wonders prá dedéu. Mesmo sendo um filme dirigido por Tom Hanks, detalhe que prefiro ignorar. Rá! :-D

Bem, voltando ao assunto: baseado em um espetáculo da Broadway de muito sucesso, Dreamgirls traça um painel rico em detalhes, embora um tanto superficial, de uma das fases mais importantes da história do soul, a fase em que o rhythm ‘n’ blues começou a sair de circulação para dar lugar à música negra como a conhecemos hoje. É em meio a esta turbulenta época que três garotas que não se cansam de se enfiar em concursos de calouros – a saber, Deena Jones (Beyoncé Knowles), Lorrell Robinson (Anika Noni Rose) e Effie White (Jennifer Hudson) – são descobertas pela gravadora Motown e iniciam uma carreira de sucesso como backing vocals do decadente cantor James “Thunder” Early (Eddie Murphy). Não tarda para que o trio, batizado Dreamettes, consiga ultrapassar seu astro e emplaque nas paradas.

O problema é que o sucesso requer sacrifícios. Sendo assim, o sábio empresário das meninas, Curtis Taylor Jr. (Jamie Foxx), decide alçar Deena, a mais bonita (e vazia) das três, à condição de líder do trio, o que desperta a cólera do dragão e a força do Pégasus em Effie, o estereótipo da gordinha desengonçada mas o verdadeiro e único talento por trás das Dreamettes. Afinal, o que importa de verdade é a beleza, e não as aptidões. Ou será que não? Talvez não, já que daí para a decadência é um pulinho – e muito ajuda as constantes transformações do cenário musical dos EUA dos anos 60 até os 80, o que obriga as garotas a se “adaptar”, nem sempre com sucesso, a novos e estranhos estilos.

A história de Dreamgirls renderia, sim, um excelente longa-metragem, daqueles de fazer qualquer fanático por musicais encomendar o DVD ainda na pré-venda. Mas há problemas na fita comandada pelo mesmo Bill Condon que entregou o surpreendente Deuses e Monstros e o superestimado Kinsey – Vamos Falar de Sexo: a primeira hora do filme é muito bem conduzida, mas sofre uma baixa em sua segunda hora, quando a Deena de Beyoncé Knowles, aquela que atua tão bem quanto a porta da minha casa (!), começa a ganhar destaque. Quando Deena torna-se o centro das atenções e a pseudo-atriz precisa mostrar mais esforço na condução de seu personagem, nota-se que a velocidade diminui e tudo parece mais arrastado. Fazer o quê, nem dá para culpar a coitada. Afinal, Beyoncé é uma escolha proposital para um papel que lhe apetece: a da cantora que tem beleza e gostosura demais, e gogó de menos. :-P

Além da Beyoncé, há de se destacar a duração excessiva de Dreamgirls. Na boa, não precisava de 130 minutos. Chega um momento em que o espectador não resiste à tentação de dar aquela olhadela no relógio, para ver quanto tempo falta pra acabar.

Se Dreamgirls não é surpreendente enquanto resultado final, entretanto, impressiona por dois fatores chamados Jennifer Hudson e Eddie Murphy. A primeira, ex-American Idol, não precisa de mais de 10 minutos em cena para demonstrar um enorme potencial dramático – não há uma única cena na qual Effie não vire o centro das atenções, seja pela sua deliciosa interpretação, seja por seu grande talento como cantora. Beyoncé de loló é pirulito! Já Eddie Murphy… uau, este é o mesmo que fez O Professor Aloprado? Céus, o cara está FANTÁSTICO! A construção do amargurado e decadente Thunder de Murphy é tão moderada e introspectiva que não dá nem pra acreditar que estamos falando do comediante que especializou-se em caras, bocas e piadinhas bobinhas. Se as previsões se concretizarem e Hudson e Murphy saírem da próxima edição do Oscar carregando suas estatuetas, será mais do que merecido.

Entre erros e acertos, Dreamgirls acaba com um saldo positivo. Não só por ter ótimas atuações, mas por ter uma produção de encher os olhos – os cenários dos premiados John Myhre e Tomas Voth (Memórias de uma Gueixa) e os estonteantes figurinos de Sharen Davis (Ray) são excelentes – e também pelas zilhões de referências à era de ouro da soul music e também à própria história das Supremes e sua líder, Diana Ross, aquela que tem 365 dentes na boca (!). Um prato cheio para quem conhece esta época. Para quem não conhece, sobra uma produção divertida e que cumpre bem seu papel. Não é o registro definitivo da decadência do soul, tampouco um ótimo exemplar do gênero musical. E nem merece levar toda esta leva de prêmios que anda conquistando por aí. Mas vale uma espiada, nem que seja para se perder no espetáculo que é sua produção ou para babar nas curvinhas da titia Beyoncé. Eita mulher linda, viu? :-D

Cacetada, o que é isso? Ultimamente só tenho visto filmes legais! Juro que estou APAVORADO com o primeiro filme ruim que aparecer depois desta leva. Quando a esmola é muita… :-)

• CASO VOCÊ ESTEJA SE PERGUNTANDO…

…quem diabos são as Supremes, cabe aqui um parênteses explicativo: trata-se do grupo de performers negras mais bem-sucedido dos anos 60, chegando até a rivalizar com os Beatles em termos de apelo comercial. Com boas doses de elementos pop permeando sua sonoridade soul, o trio formado por Diana Ross, Mary Wilson e Florence Ballard fazia parte da lendária gravadora Motown e conseguiu se infiltrar nas paradas de sucesso e nos programas de TV de todo o país. Apesar de não ser a melhor cantora do cast da Motown, Ross era a que tinha maior apelo pop, combinando perfeitamente com o estilo visual e as coreografias estilizadas das moças.

Não demoraria, no entanto, para que outras estrelas da gravadora e as próprias Supremes se sentissem incomodadas com toda a atenção dada a Ross pelo empresário Berry Gordy (que logo resultaria em um caso amoroso). Logo o grupo seria rebatizado como Diana Ross & the Supremes, aumentando as especulações sobre a sua saída para uma carreira solo – que seria anunciada oficialmente em 1969. As Supremes tentaram continuar na ativa, com Jean Terrell no lugar de Ross, mas diversos problemas pessoais (sempre envolvendo a polêmica figura de Mary Wilson) impediram que a carreira seguisse muito em frente depois disso, mesmo com outras modificações de formação. Ballard tentou até um processo contra a Motown depois do fracasso de suas tentativas solo, mas perdeu e acabou morrendo na pobreza, em 1976, aos 32 anos.

CURIOSIDADES:

• Depois do sucesso nos palcos, uma versão cinematográfica de Dreamgirls vinha sendo há muito tempo considerada. No final dos anos 80, Whitney Houston (“and iiiiiiiiiii-iiiiiiiiiiii will always love yoooooo-ooouuuuuuu”) foi considerada para o papel de Deena, mas as negociações foram por água abaixo quando a cantora insistiu que sua personagem deveria cantar algumas das canções de Effie, em especial “And I Am Telling You I’m Not Going”.

• Já na década de 90, Joel Schumacher chegou a ser nomeado para a cadeira de diretor, com Lauryn Hill (The Fugees) interpretando Deena e Kelly Price vivendo Effie. Mas outros musicais acabaram indo muito mal nas bilheterias e o projeto foi abortado. Só depois do sucesso de Chicago é que os produtores procuraram Bill Condon – que chegou a ir à noite de abertura da performance original de Dreamgirls, em Nova York, no ano de 1981.

• Will Smith e Terrence Howard chegaram a ser pensados para interpretar Curtis Taylor Jr. – e quando se ofereceu o papel para Jamie Foxx, ele não topou por achar o salário insuficiente. Denzel Washington chegou a ser procurado depois disso, mas não quis se envolver por não saber cantar. Quando Beyoncé Knowles e Eddie Murphy foram confirmados no elenco, Foxx reavaliou e aceitou a proposta.

• O também cantor Usher Raymond foi a primeira escolha para viver C.C. White, mas declinou do convite por “problemas de agenda”.

• Jennifer Hudson derrotou outras 782 atrizes pelo papel de Effie White, incluindo sua rival no programa American Idol, Fantasia Barrino. A moça teve que fazer o teste repetidamente por seis meses, e ao final de cada uma delas chegou a ouvir dos produtores que seu nome não estava mais na lista.

• Beyoncé Knowles, grande fã do musical original, queria tanto o papel de Deena Jones que foi fazer o teste a caráter, fazendo inclusive a coreografia – derrotando a também cantora Alicia Keys. Knowles passaria então seis meses se preparando com treinadores de atuação e vocais. Só para constar, ela vem dizendo que considera este o seu primeiro filme como atriz.

• A cantora Mary Wilson, fundadora das Supremes e base para a personagem Lorell Robinson, afirmou publicamente que os eventos do filme estariam mais “próximos da verdade” do que as pessoas imaginam.

• Na cena na qual as Dreamettes posam em frente a uma enorme réplica de seu primeiro disco, com o titulo de Meet The Dreams, a arte de capa é uma réplica quase idêntica do álbum More Hits by the Supremes (1965). As fotos das moças, no entanto, trazem poses que relembram imediatamente o disco The Supremes A Go-Go, de 1966.

DREAMGIRLS • EUA • 2006
Direção de Bill Condon • Roteiro de Bill Condon
Elenco: Jamie Foxx, Beyoncé Knowles, Eddie Murphy, Danny Glover, Jennifer Hudson, Anika Noni Rose, Keith Robinson, Sharon Leal.
131 min. • Distribuição: UIP/Dreamworks SKG.

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Uma resposta para Dreamgirls – Em Busca de um Sonho

  1. Luiz disse:

    Concordo que o filme é im poco longo e que se perde algumas informacos, exemplo disso, como Deena ficou com Curtis, mas so gostaria de salientar que Beyonce alem de linda canta muito bem, seu papel nao lhe deu o devido destaque justamente porseu excesso de glamour, quie lhe e natural, mas ela twem uma voz maavilhosa,Effie canta muito bem tambem, mas Beyonce tem agudas maravilhosos e graves tambem. MAsa isso so acompanhando mais detalhadamente.

    Agradeco a oportunidade!

    Um abraca e desculpe erros ortograficos.

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