Dark Water – Água Negra

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 09/08/2005.

Dark Water

Hollywood é mesmo um caso sério. Basta alguém (leia-se: executivo de estúdio) aparecer com alguma boa idéia (leia-se: reciclagem) que renda um bom trabalho (leia-se: faça dinheiro), os caras tratam logo de esgotar a fonte até dizer chega, com uma série de derivados. Foi assim com os épicos – alguém lembra da avalanche de produções que pipocaram nas telas depois de Gladiador? -, foi assim com as fitinhas de terror adolescente – que iniciou seu ciclo com Pânico, de Wes Craven, que tira um sarro do gênero, e parece ter sido finalmente enterrado com o fracasso do horroroso Amaldiçoados, do mesmo Craven – e agora é assim com as aterrorizantes películas de horror vindas do Japão.

Depois que O Chamado, um divertido remake de um obscuro trabalho japonês chamado Ringu, estourou nas telonas, todo mundo queria refilmar tudo quanto é podreira saída da terra do Sol Nascente. Então vieram coisas até legais como O Grito (aquele do arroto) e lixos como Medopontocom. O legal disto tudo é que nós, brazucas, tivemos a oportunidade de conhecer ótimas produções que talvez jamais conhecêssemos se não fosse o impulso tomado pelo apelo dos filmes americanos. Produções como o próprio Ringu, o esquisitíssimo Ju-On: The Grudge (que gerou O Grito) e o excelente Kairo Pulse (“papai” de Medopontocom), além de outras pequenas jóias nipônicas como The Eye, que ganhou uma continuação recentemente, e One Missed Call, que no momento está sendo refilmado pelos ianques. Que novidade… :-)

O que nos leva a Água Negra. Como todos devem saber, finalmente chega às telas tupiniquins o novo trabalho do diretor brazucão Walter Salles, que marca sua primeira aventura cinemão americano de entretenimento. Água Negra também veio de uma história japonesa, Dark Water (Honogurai mizu no soko kara, 2002). Além do fato de ser dirigido por Salles, uma responsabilidade maior rondou os sets da fita estrelada pela deusa Jennifer Connelly: Dark Water, o original, é tido pelo povo de lá como o melhor longa de horror a aportar nas telas do Japão nos últimos tempos. Vai vendo bem.

Mas… o que o cineasta responsável por obras-cabeça multipremiadas como Central do Brasil e Diários de Motocicleta foi fazer no comando de um filme de horror americano? Sim, esta dúvida me atormentou mais do que a sinistra e pavorosa menina de branco que quase me matou de susto na saída da sessão de O Chamado. Vixe, meu sangue gelou só de lembrar! E se você não faz idéia do que estou falando, é só ler a crítica de O Chamado 2, também neste website, que tudo ficará mais claro. Fica aí o jabá. :-P

Voltando ao assunto: acho mesmo que não fui o único a achar estranho o envolvimento de Salles com a produção de Água Negra. Mas justifica-se numa boa quando se assiste a Dark Water. Eu explico: se repararmos, todos os filmes de terror made in Japan seguem um padrão. A atenção sempre é centrada na vida e no estado psicológico das pessoas envolvidas diretamente ao mistério do que ao mistério em si – tanto que, em Ringu, demora um bocado até que consigamos presenciar uma aparição daquela figura medonha que atende pelo nome de Sadako (Samara, no remake americano). Geralmente, a solução do tal mistério implica na solução de muitos problemas pessoais na vida dos protagonistas – ou da protagonista, já que o papel central nestes filmes é sempre feminino. Já repararam nisso? :-)

O Dark Water japonês – um filme ÓTIMO, diga-se de passagem – segue esta mesma linha meio padronizada dos japoneses, embora não possa jamais ser acusado de ser “apenas uma variação de um mesmo tema”. Pra início de conversa, considero um erro chamá-lo de “filme de terror”, pois pra mim está mais para um drama psicológico com toques sobrenaturais. Sim, há um mistério macabro. Mistério este, aliás, que é de longe o mais tenso, interessante e bem-bolado de todos os exemplares orientais do gênero que estouraram recentemente por aí (e digo com conhecimento de causa, pois assisti a todos eles). Mas o lance sinistro não é de jeito algum o centro nervoso desta nova parceria entre o cineasta Hideo Nakata e o escritor Kôji Suzuki, os mesmos criadores de O Chamado: o que importa mesmo é o processo pelo qual a pobre infeliz Yoshimi Matsubara (Hitomi Kuroki), recém-divorciada e mãe de uma criança, passa ao decorrer da história.

Yoshimi está desempregada e prestes a perder a custódia de sua filha Ikuko (Rio Kanno) para o nojento ex-marido. Ao obter a guarda provisória da menina (uma gracinha, devo dizer), Yoshimi quer provar que tem estrutura emocional suficiente para cuidar bem da garotinha – a mulher é marcada por vários traumas do passado, decorrentes do abandono da mãe, e tem em seu histórico uma longa passagem por um instituto psiquiátrico. Enfim, para convencer o juiz de que pode ser uma boa mãe, Yoshimi muda-se com Ikuko para um apartamento.

Um apartamento MUITO MACABRO, num prédio MUITO MACABRO e totalmente VAZIO, com um zelador MAIS PAVOROSO ainda. Eu diria até que o zelador morreu e esqueceu de ser enterrado, de tão sinistro que é! Mas isto é um mero detalhe. :-)

As duas, Yoshimi e Ikuko, vão tocando a vida sem maiores pepinos. Até que surge um problema: no teto do apartamento há uma goteira. Uma água escura e suja. Provavelmente uma infiltração de um vazamento qualquer no apartamento de cima. Yoshimi tenta solicitar ajuda tanto com o zelador do prédio quanto com o corretor de imóveis que lhe vendeu aquele muquifo, sem sucesso. Ela decide investigar. E então… eu não conto mais nada! Só digo uma coisa: à medida que a goteira cresce, uma pequena mochila vermelha sem dono insiste em aparecer nos cantos mais improváveis do prédio… Sai fora!

Embora a trama envolvendo a “água negra” seja deveras interessante, ela fica propositadamente em segundo plano. Dark Water é, na verdade, sobre o processo de decomposição da sanidade da própria Yoshimi. Uma sacada muito bacana da direção de Nakata foi deixar muitas brechas para que o espectador não consiga discernir se os acontecimentos presenciados pela jovem senhora são reais ou não passam de alucinação. Yoshimi é louca? Tudo aquilo realmente está acontecendo? A resposta demora a aparecer. Mas quando aparece… sai de baixo! Tá bom, a conclusão do mistério é até normalzinha. Mas que assusta, ah, isso assusta! :-D

O maior barato, contudo, é perceber o quanto os japoneses dizem com seus trabalhos. Ok, Dark Water não é um filme perfeito e contém erros consideráveis. A trama é de certa forma previsível, o tratamento dado a seus personagens é superficial demais em alguns momentos, o roteiro concentra alguns pequenos buraquinhos e certas situações simplesmente não se explicam. Por outro lado, Hideo Nakata prova ser um excelente contador de histórias: é impossível não simpatizar com as protagonistas da película; as seqüências estão cheias de mensagens nas entrelinhas; algumas seqüências são capazes (mesmo) de emocionar; e quando o assunto é dar medo, o cineasta não brinca em serviço. Quanto a isto, só posso dizer que NUNCA MAIS ENTRO EM UM ELEVADOR DURANTE TODA MINHA VIDA!

Pra finalizar – já que não quero me aprofundar muito no assunto para não entregar nada da película -, posso dizer que Dark Water, a versão original, é mesmo uma produção muito bacana, capaz de fazer o espectador passar longe de banheiras e atravessar corredores de prédios o mais rápido que puder, sem olhar para os lados! Como ainda não pude conferir a refilmagem ianque (heresia esta que pretendo remediar em breve), infelizmente não tenho como fazer maiores comparações. Mas posso dizer sem pensar duas vezes que, se o Água Negra de Walter Salles for tão competente quanto o Dark Water de Hideo Nakata, podemos esperar daí o melhor longa desta safra de remakes americanos de produções orientais de horror, sem pestanejar. Desta vez, parece que Hollywood acertou. E já não era sem tempo, oras bolotinhas! :-D

E um parêntese: por que diabos estes roteiristas japoneses teimam tanto com água? O elemento está presente como “símbolo do mal” em todos os filmes! Será que eles têm medo de tomar banho? :-P

HONOGURAI MIZU NO SOKO KARA • JAP • 2002
Direção de Hideo Nakata • Roteiro de Yoshihiro Nakamura, Hideo Nakata e Kenichi Suzuki
Inspirado no romance de Kôji Suzuki
Elenco: Hitomi Kuroki, Rio Kanno, Mirei Oguchi, Asami Mizukawa, Fumiyo Kohinata.
101 min. • Distribuição: Alpha Filmes.

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Uma resposta para Dark Water – Água Negra

  1. Esther Simonato disse:

    Eu reamente não entendi esse filem…no final a mãe abraça a assombração, diz que é mãe dela e simplesmente abandona a filha biológica…como assim!!!Ela era ou não mãe da assombração??

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