Xeque-Mate

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 12/09/2006.

Xeque-Mate (Lucky Number Slevin)

Se você esteve no planeta Terra no ano de 1995, certamente lembra deste nome: Keyser Soze. Para quem não anda muito bem de memória, Keyser Soze era o pilar do fantástico Os Suspeitos, filme que lançou um certo Bryan Singer; Soze era um meliante que nunca dava as caras, mas tão temido e tão aterrorizante que fazia qualquer um se borrar de medo. Só a pronuncia do nome de Keyser Soze era o suficiente para fazer Hannibal Lecter virar vegetariano, Darth Vader arrancar seu capacete por conta própria e a letal Bridget Gregory abdicar de seus bens materiais, aceitar Jesus no coração e se enfiar para sempre em um convento (!). E olha que muitos acreditavam até que Soze não existia… mas ninguém era louco de pensar em enfrentá-lo mesmo assim.

Enfim, citei Os Suspeitos porque o elogiado policial Xeque-Mate (Lucky Number Slevin, 2006) me fez lembrar da fita de Bryan Singer várias vezes durante sua projeção, por duas pequenas razões. Não, aqui não tem um Keyser Soze – mas tem um certo Nick Fisher que não é um vilãozão, e sim um mané fracassado e azarado que, ao melhor estilo Franky Four-Fingers (aquele boçal de Snatch, lembra?), tem a mania besta de apostar muito dinheiro com pessoas muito perigosas. Mas o fato de este Nick Fisher ser tão onipresente (e tão importante para sua trama) quanto Soze é uma característica similar e uma das razões pelo qual foi inevitável pensar em Os Suspeitos durante Xeque-Mate.

O outro motivo é que Xeque-Mate, mesmo com um enredo totalmente diferente, mantém a mesma estrutura de Os Suspeitos: é um policial que começa aparentemente tranqüilo e até um pouco confuso e, quando o público menos espera, já está mergulhado em um intrincadíssimo labirinto que, em determinado momento, dá um giro tenebroso de 180º e, no final, nocauteia o espectador sem dó nem piedade. Se 2006 terminasse hoje, neste instante, Xeque-Mate seria exatamente o que Os Suspeitos foi à sua época: o suspense mais original e bem escrito do ano. Sem exageros.

Por sinal, o roteiro, escrito pelo estreante nas telonas Jason Smilovic (autor de alguns episódios da série Karen Sisco), é o grande achado da fita. Misturando elementos dos clássicos thrillers de Alfred Hitchcock – em especial O Homem Errado (1956), citado durante a projeção – com um humor negro típico das fitas dos Irmãos Coen e alguns doentios personagens que a princípio parecem ter saído da cabeça de Guy Ritchie em sua pirada fase-Snatch, a trama é tão minuciosa e tão cuidadosamente escrita que consegue esfregar todas as “pistas” na fuça do espectador o tempo inteiro e não deixá-lo matar a(s) grande(s) charada(s) da história.

Não à toa, precisei conferir uma segunda sessão do longa só para checar as peças do quebra-cabeça, pois não acreditei que não havia um único buraquinho nesta trama tão rocambolesca. Pois é, não tinha não! ;-D

E a história é tão excelente assim? Bem, ela é COMPLICADA demais, o que já dá um mérito gigantesco à direção do inglês Paul McGuigan (do suspensinho qualquer nota Paixão à Flor da Pele), visto que o cara tinha tudo pra se embolar no meio de campo e felizmente se saiu muito bem. Mas detalhar as nuances do enredo seria uma senhora SA-CA-NA-GEM, pois Xeque-Mate é um daqueles filmes que funcionam muito mais quando o público não faz idéia do que verá. Então, façamos assim: não contarei nada aqui além do que é divulgado pela distribuidora, mas se você preferir descobrir as coisas por si só, então…TCHAU! PARE DE LER ESTE TEXTO! RUN FORREST, RUN! :-D

Ah, você ficou aí? Obrigado pelo voto de confiança, tá? ;-)

Então, bora lá: embora fale muito sobre o tal misterioso Nick Fisher, a história de Xeque-Mate não é sobre ele, e sim sobre um certo Slevin Kelevra (Josh Hartnett). Slevin é um sujeito que dá um novo significado à palavra “azar”. Afinal, num único dia, ele a) foi demitido, b) descobriu que terá que sair de seu apartamento por conta de problemas no prédio, e c) flagrou sua namorada fornecendo a “retaguarda” para um fulano qualquer. Desolado, Slevin decide sair de Los Angeles e passar uns tempos em Nova York, no apêzinho de um velho amigo seu. Nick Fisher.

Aí é que o inferno astral de Slevin tem início. Pra começar, ele é assaltado e perde seus documentos. Quando chega no apartamento do cara, descobre que Fisher está desaparecido. E quando o apê é invadido por uma dupla de marginais que procuram Fisher, quem está lá é Slevin. Naturalmente confundido com seu colega – e sem um documento sequer para provar quem realmente é -, Slevin é levado ao escritório de um dos dois mafiosos mais temidos da cidade, que se auto-intitula O Chefe (Morgan Freeman): Nick Fisher deve uma grana preta a’O Chefe, e como ele sumiu, Slevin terá que assumir a dívida e quitá-la em três dias… ou fazer um pequeno “favorzinho” ao bandidão para livrar sua cara…

O que acontece é que o filho d’O Chefe foi assassinado recentemente, e este desconfia que o mandante do crime seja O Rabino (Ben Kingsley), o outro mafioso mais temido da cidade – O Rabino nutre tanto ódio pel’O Chefe e vice-versa que os dois vivem em coberturas de dois prédios vizinhos, só para se vigiarem dia e noite (!). Enfim, para se vingar, O Chefe quer que Slevin localize e mate A Fada (Michael Rubenfeld), o filho homossexual d’O Rabino. O pior é que Nick Fisher também deve muito dinheiro a’O Rabino, e não demorará para que este TAMBÉM confunda Slevin com o indivíduo e faça sua cobrança/peça seu favorzinho…

Esta é apenas a primeira meia-hora do filme. E ainda temos no meio deste rolo uma linda e simpática legista e enxerida-nas-horas-vagas, Lindsey (Lucy Liu); um metódico e furioso detetive, Brikowski (Stanley Tucci); e um perigosíssimo assassino profissional apelidado Goodkat (Bruce Willis), que serve tanto a’O Chefe quanto a’O Rabino e é lendário por supostamente conseguir estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Céus!

Agora chega. Definitivamente não dá pra contar mais.

Achou complicado? O mais legal é que Xeque-Mate é tudo, menos confuso. A narrativa é simples, direta ao ponto e, embora brinque muito com o espectador ao apresentar elementos aparentemente sem nexo no meio da história, é tão clara e nítida quanto água. Não, não é fácil pescar todas as pistas, mas não é preciso ser nenhum Einstein para entender a trama. Porém, a compreensão do enredo depende da vontade do espectador: Xeque-Mate não é o tipo de produção a se conferir quando o objetivo é apenas esfriar a cabeça numa sala de cinema (para isto temos Serpentes a Bordo), pois a quantidade de informação despejada na tela por minuto é beeem considerável. Piscou, perdeu.

Por outro lado, Xeque-Mate não precisa ser simplezinho e mastigadinho para ser divertido. Na primeira hora do longa, que carrega no humor sutil antes de mergulhar no bizarro clima soturno da segunda parte, nota-se que as atuações são bem descompromissadas – Morgan Freeman, por exemplo, está muito à vontade no papel d’O Chefe. E… meu Deus, até o Josh Hartnett se sai surpreendentemente bem! Sério, o cara está aprendendo a atuar, pelo visto. Sem contar um dos grandes pontos positivos do roteiro: os diálogos. É cada um mais espirituoso que o outro. Repare, por exemplo, na explicação de Morgan Freeman sobre A Fada… Hehehe! ;-)

Então, vejamos: um suspense policial rocambolesco, que consegue surpreender e ser divertido ao mesmo tempo, com uma história ducacete e atuações engraçadíssimas? Óbvio que vale o preço do ingresso! Afinal, não é sempre que um filme termina deixando o espectador com a cada vez mais rara sensação de “dinheiro bem aplicado”, não é? Sim, eu sei, tem o Josh Hartnett no elenco, mas vamos dar ao jovem uma chance. Então pode ir sem medo. E cuidado com as corridas de cavalos. E cuidado com a “divergência da cidade do Kansas” (não entendeu, assista e entenderá). E eu queria ter a Lucy Liu como vizinha pedindo uma xícara de açúcar a toda hora só pra me ver de toalhinha. :-P

DICAS! (Para compensar a falta de curiosidades bacanas sobre o filme. Hehehe!)

• Como eu comentei lá em cima, “piscou, perdeu”. Toda atenção é pouca. Repare em cada diálogo e em cada cena; até os momentos mais sem nexo e os diálogos mais bobos têm sua importância na trama.

• Em uma das matanças da seqüência de abertura, se você não desgrudar os olhos da tela, é possível matar uma grande charada.

• A principal regra do cinema de suspense é: nada é o que parece ser. Isto também vale para Xeque-Mate.

LUCKY NUMBER SLEVIN • EUA • 2006
Direção de Paul McGuigan • Roteiro de Jason Smilovic
Elenco: Bruce Willis, Josh Hartnett, Lucy Liu, Morgan Freeman, Sir Ben Kingsley, Stanley Tucci, Sam Jaeger, Mykelti Williamson, Danny Aiello, Michael Rubenfeld, Robert Forster, Dorian Missick.
109 min. • Distribuição: Imagem Filmes.

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