Vozes do Além

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 17/02/2005.

Vozes do Além (White Noite)

Eu não acredito em fantasmas. Nunca acreditei. Respeito a opinião de quem acredita, mas sou meio “ver pra crer” nestes casos. Ainda assim, tenho um borraço tremendo disso. Eu sei, é estranho alguém sentir pavor de algo que tem a convicção de que não existe. Não sei se é meeeedo mesmo, ou se sou apenas uma pessoa “impressionável”. Mas dá uma sensação terrível olhar para aquelas imagens bizarras de fumacinhas no ar, rostos flutuando e aquelas descrições do tipo “esta imagem foi tirada onde fulano morreu em mil, oitocentos e bolinhas”. Na real, qualquer uma daquelas “fotografias de espectros” acaba com minha noite de sono. :-)

Nada mais natural, portanto, que um longa-metragem como Vozes do Além (White Noise, 2005) me faça comprar um pacote de fraldinhas na farmácia da esquina, antes do início da sessão. Digo isso porque Vozes do Além poderia ser apenas “mais uma fita de fantasmas”, mas quando li sua resenha, vi (ou ao menos imaginei) que não era. O motivo: seu enredo tenciona explorar o universo das E.V.P.s (ou F.V.E.s). Para quem não entendeu nada, E.V.P., sigla de Electronic Voice Phenomenal, ou traduzindo literalmente Fenômeno da Voz Eletrônica, é aquele evento que consiste na comunicação dos espíritos por meio de aparelhos eletrônicos, como rádio, TV, câmeras fotográficas e etc.

Sim, não é tão fácil assim: não espere sintonizar um canal e aparecer o rosto do seu tata-tata-tataravô na telinha, né! Dizem os supostos “especialistas” que, para conseguir um contato com alguém que já tenha passado desta para uma melhor, é necessário todo um esquema que, pra falar o português claro, prefiro nem saber qual é. Tudo bem, sou um cara cético e só acredito vendo, mas o problema neste caso é que, se fantasmas realmente existem, eu não quero ver! De qualquer forma, muita gente jura de pé junto que o lance é de fato real – e de arrepiar os cabelos do braço. Logo, um filme assim só poderia resultar num exercício de pavor da melhor qualidade.

Entretanto, como era de se esperar, uma temática tão séria, discutível e que poderia render um troço macabro, se destruiu nas mãos das pessoas erradas. Ou seja: Vozes do Além é uma porcaria. Muito ruim! É chato pra cacete! Tão ruim que, em determinado momento, me deu vontade de arrancar meus olhos…

Tá bom, exagerei um pouco. Mas só um pouquinho. O que acontece é o seguinte: Vozes do Além tem todos os indícios de que será no mínimo um trabalho “mais ou menos” – ou você confia num longa cujo ator principal é o ex-Bruce Wayne, o Michael “Canastra” Keaton? Enfim, mesmo com aquele excelente trailer, a sensação é que “algo fede no Reino da Dinamarca” e alguma coisa dará errado na hora do vamos ver. Quando você se aventura a assistir a fita, descobre que não é tão ruim assim. Pelo menos, no começo. Afinal, o texto-prólogo dá a entender que a produção leva a questão dos E.V.P.s por um caminho digno e respeitável, e os créditos iniciais – desde já, um dos melhores dos últimos tempos – fazem você segurar firme no braço da poltrona.

Então, o filme começa. E você pensa: “Deus, é pior do que eu pensava”…

Vamos ao sub-enredo: o arquiteto Jonathan Rivers (Keaton – Jisuis, como o homem está envelhecido…) vive numa pusta casa com sua esposa, a bem-sucedida escritora Anna (Chandra West, de Soldado Universal 2… bem, quem é esta?) e o filho pequeno do primeiro casamento, Mike (Nicholas Elia, mais uma criança inexpressiva e perigosa solta em Hollywood). O casalzinho têm dinheiro, se ama e blé blé blé. Um certo dia, Anna sai de casa e não volta. Dá um corte de cena e descobrimos que Anna desapareceu num bizarro “acidente de carro” – que não vou contar aqui pra não estragar a surpresa. Só o que digo é: pra desaparecer daquele jeito, tem que ser muito imbecil!

Não demora muito para que as autoridades encontrem o corpo de Anna boiando em algum canto dos arredores da cidade. Tá certa ela, deu um jeitinho de morrer logo no começo pois viu onde amarrou seu jegue! Voltando: arrasado com a morte da mulher – mas sem esboçar nada, porque afinal estamos falando do Michael Keaton, um primor em expressões -, Jonathan se muda para um flat muito do bacana (que eu daria uma perna pra ter um igual, por sinal) e despacha o pivete pra ir passar uns dias com a ex-esposa, Jane (uma tal de Sarah Strange – pois é, ela é mesmo “strange”!) – o bizarro é que parece que o roteirista esqueceu disso, pois o moleque aparece e desaparece de repente, sem explicações!

Pois bem, a coisa dá uma leve engrenada quando Jonathan é procurado por um cara chamado Raymond Price (Ian McNeice, um dos Vogons de O Guia do Mochileiro das Galáxias), especialista em… adivinhem: E.V.P.s! Pois bem, o cara diz que recebeu uma mensagem de Anna. A partir daí, todo mundo já sabe: a princípio, o arquiteto não acredita, depois tem uma prova de que o outro diz a verdade e então fica obcecado, chegando ao ponto de abandonar sua vida para se dedicar a “falar” com a mulher e tal. Se estacionasse por aí, Vozes do Além talvez pudesse ser avaliado como “um filme regular”.

O problema todo é que o tal roteirista, alguém chamado Niall Johnson, insistiu em continuar escrevendo. E o que estava a um ponto de ficar horrível, piorou de vez. Olha só o nível que a trama desce: Jonathan descobre que Anna, através de uma voz no rádio e mais tarde por imagens na TV, está tentando mostrar que seu acidente, na verdade, foi um assassinato. E as imagens de pessoas mortas na TV e as vozes no rádio não são bem espíritos, e sim “visões” que Jonathan tem das futuras vítimas do tal assassino. Ou seja: ele é um predestinado e então rola toda aquela balela de ter que correr pra impedir a morte, e depois acaba levando a culpa por estar sempre no local do crime, e por aí vai… Mas como isso? Quer dizer então que, se a pessoa está prestes a morrer, sua imagem surge como por milagre na TV do individuo?

Se fosse apenas uma questão de “clichês batidos”, não haveria problema. O que estraga tudo são alguns absurdos do script, totalmente incoerente. Vejam só: os espectros aparecem e ninguém se incomoda. É como se acontecesse todo santo dia. Isso porque, em certo ponto, os “fantasmas que não são fantasmas ainda” se misturam com os Gasparzinhos de verdade e a TV vira uma Festa no Apê, com gente passeando de um lado pro outro O TEMPO TODO, como se fosse a coisa mais normal do mundo você ligar o aparelho, colocar num canal de estática, ajustar a antena e bater um lero com aquele parente seu que já bateu as burras há trocentos anos. Na última parte, então, chega a ser engraçadíssimo: os caras ligam o rádio e lá vem presunto jogar conversa fora! :-P Prestem atenção na seqüência final. Ela é constrangedora.

Como se não bastasse, a existência da personagem Sarah Tate (Deborah Kara Unger, de Vidas em Jogo, a única atriz de verdade no filme, mas totalmente desperdiçada) não se explica, os sustos são mais do que previsíveis e o longa a toda hora sugere que um ou outro personagem pode ter algo a esconder, mas fica tudo por isso mesmo e nós ficamos com cara de ponto de interrogação. Por outro lado, o roteirista perde tempo para explicar babaquices, como num momento em que Jonathan vê um armazém na TV e diz: “Oh, é um armazém!”. Não diga. Jura mesmo? Ainda bem que ele falou, senão eu não teria notado. :-P

E a resolução da trama é tão cretina que estraga as pouquíssimas coisas que o trabalho tinha de bom. Ou seja: os caras que fizeram “isto” chamam o espectador de JUMENTO na cara dura. Sério, não melhora nem colocando Bom-Bril na antena.

No resumo da ópera, o erro pior desta tentativa de filme foi desrespeitar e banalizar um tema que tinha tudo pra render um grande trabalho de horror. O diretor de filmes made for TV Geoffrey Sax simplesmente destrói a fita com uma historinha ridícula que, se levada à sério, poderia ser fascinante. Sinceramente? Nem perca tempo. Quer ver terror, entra na sala de cinema ao lado e assiste Jogos Mortais. Bem, agora é que eu não acredito mesmo em espíritos, fantasmas e coisas do gênero. Senão alguém teria aparecido no meu rádio e me avisado pra não perder meu precioso tempo com este lixo! Pelo menos, já adivinhando que não precisaria, não gastei dinheiro comprando as tais fraldinhas… :-P

CURIOSIDADES:

• Alguém aí já ouviu falar em Sarah Estep? Pois ela é simplesmente aquela que os americanos responsabilizam pela disseminação da crença nas E.V.P.s por lá. Estep é presidente da Associação Americana do Fenômeno da Voz Eletrônica, e jura de pé junto que consegue se comunicar com os mortos. Estep afirma que, nos anos 70, começou a captar vozes no gravador do marido. Ela tem certeza de que as vozes são de espíritos e que provam haver vida após a morte. Estep também diz que ouve vozes de alienígenas em algumas de suas fitas (!).

• A gravação usada no trailer (alguém falando “I love you”) é dita real e atribuída a Stanley Searles, político falecido em 2002. Segundo consta, a gravação foi feita pela própria filha de Searles, uma conhecida “especialista” em EVP chamada Karen Mossey.

• Também afirmam que a outra gravação do trailer (“I will see you no more”, traduzindo literalmente, “Não te verei mais”) é real. Ela é atribuída a uma senhora chamada Ruth Baxter, falecida em 1987. A gravação foi supostamente gravada num farol “assombrado” em Maryland. Como o farol foi usado como hospital durante a Guerra Civil, alguns dizem que a voz diz: “I will seeing the war” (“Estou vendo a guerra”).

• A atriz Deborah Kara Unger é a cara da Jenny Sparks, a louca líder do Authority.

WHITE NOISE • EUA/ING/CAN • 2005
Direção de Geoffrey Sax • Roteiro de Niall Johnson
Elenco: Michael Keaton, Chandra West, Deborah Kara Unger, Ian McNeice.
101 min. • Distribuição: Universal Pictures.

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