Tristão e Isolda

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 20/06/2006.

Tristão e Isolda (Tristan + Isolde)

Quem já está saturado de filmes épicos levanta a mão! Ô mania besta esta de Hollywood, é só ver uma fórmula funcionar no cinema e render uma bilheteria gordinha – neste caso, o bacanésimo Gladiador de Ridley Scott – que no mesmo instante lança uma cacetada de longas-metragens moldados nesta mesma fórmula, só para ganhar mais dinheiro. E não contente com isto, ainda precisa esgotar esta fórmula ao máximo, até que só saiam filminhos toscos e o público perca o interesse de vez. O próprio Ridley Scott já tentou repetir o sucesso recentemente com o fraco Cruzada, estrelado pelo insuportável Orlando Bloom.

Sinceramente? Eu até curto filmes épicos, mas a visão de Peter Jackson para O Senhor dos Anéis me soou tão definitiva que, a meu ver, depois desta saga o gênero não terá novidade alguma tão cedo. Não consigo mais enxergar graça em batalhas épicas, lutas de espadas, Idade Média e tralalá. Bem, tudo que é demais enjoa, não é? Para me sentir atraído por um longa desta categoria, é necessário que ele seja realmente muito, mas muito bom.

Este não é o caso de Tristão e Isolda (Tristan + Isolde, 2006). Não é mesmo. O que não significa que a fita seja tão tenebrosa assim. Este drama romântico inspirado na clássica história do amor proibido entre um cavaleiro inglês e uma princesa irlandesa que vivem em reinos rivais, comandado no piloto automático pelo parlapatão Kevin Reynolds (de Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões), não causará convulsões e nem um desejo mórbido de conhecer Jesus o mais rápido possível (!). O problema de Tristão e Isolda é que ele não apresenta novidade alguma em sua estrutura: sua narrativa e seu enredo são tão “cartilha de gênero” e tão infestados de clichês que o espectador fica com aquele gostinho sincero de “já vi isto antes”; por sinal, como grande parte da filmografia deste diretor.

Aliás, me surpreendi quando vi que o filme era dirigido pelo Kevin Reynolds! Este cara andava tão sumido que eu até pensei que o Kevin Costner tinha contratado uns motherf***ing niggas pra dar cabo dele (!)… Se você não entendeu, explico mais tarde, tá? :-D

Então, antes de qualquer coisa, vamos à historinha: após a queda do Império Romano, em plena Idade Média, a Inglaterra está dividida em vários povoados que não se entendem; conflitos internos à parte, todos os militares ingleses são freqüentemente subjugados pelo malévolo, bestial e inumano Rei Donnchadh da Irlanda (David O’Hara, de Hotel Ruanda). Mas o bondoso, angelical e sensível oficial inglês Lorde Marke (Rufus Sewell, A Lenda do Zorro) tenta unificar os povoados para formar uma nação forte e, assim, declarar independência e sair das garras do rei. Como represália, o exército irlandês ataca o povoado, matando uma pá de gente e decepando a mão direita de Marke. Um simpático garotinho perde seus pais neste ataque e é adotado por Marke, o melhor amigo de seu falecido pai. Óóóóó…

Anos mais tarde, Tristão (James Franco, o nosso amigo Harry Osborn de Homem-Aranha), o garoto, torna-se um rapaz calado e o melhor guerreiro de Marke, que ainda acredita na união de todos os povos britânicos e reúne um exército para lutar contra a repressão do Rei Donnchadh. Durante uma batalha, Tristão é mortalmente ferido e dado como morto; com o fracasso de seu funeral viking (cujo fogo em seu barco-caixão apagou-se por causa da chuva), Tristão segue desacordado à deriva, até que acaba numa praia irlandesa e é socorrido pela bela Isolda (Sophia Myles, Anjos da Noite: a Evolução), filha do rei Donnchadh. Claro que ela esconderá sua verdadeira identidade dele… claro que os dois pombinhos se apaixonarão… e claro que não poderão ficar juntos.

A coisa complica quando Donnchadh, que tem tanto amor por sua filha quanto eu tenho pelo Tom Hanks (!), decide dá-la como prêmio em um falso torneio entre os melhores guerreiros da Inglaterra; o torneio é nada menos que um pretexto para fomentar a desunião entre os povos. Tristão inscreve-se com o objetivo de conquistar a mão da princesa para o Lorde Marke, o que representa uma nova unificação em prol da paz. Mal sabe ele que a princesa é Isolda, o grande amor de sua vida. E então… eu paro por aqui, senão entrego o jogo, pô! :-D

Como pode-se notar, o enredo já não traz nenhuma novidade, o que poderia ter sido sanado com uma direção criativa. Mas o roteiro insosso de Dean Georgaris (também autor do novo Sob o Domínio do Mal) e a direção preguiçosa de Kevin Reynolds não se preocupa em sair do lugar comum ou fugir dos clichês batidos deste tipo de filme – a princesa é prometida a um vilão que ela não ama (e que visivelmente tem um parentesco com o Sloth de Os Goonies. :-D), o filho legítimo do Lorde sente-se rejeitado e enciumado com a presença do irmão adotivo, o mocinho sofre por renegar as vontades de seu coração em prol da paz mundial, o guerreiro arrogante do lado do bem tende a virar casaca… enfim, tudo o que você já deve ter visto em muitos outros longas por aí.

Um adendo: um elemento que não chega a ser um defeito mas me incomodou bastante é a necessidade de se deixar claro um “lado bonzinho” e um “lado malvado”: o Rei Donnchadh é construído praticamente como um anticristo, ele é o cúmulo da vilania estereotipada, enquanto o Lorde Marke é exatamente seu inverso, tão nobre e tão bondoso que faz qualquer um vomitar. Só faltou um par de chifres e uma auréola aos dois! Afe.

Enfim, se o problema ainda fosse somente a estrutura padrão, ainda vá lá. Infelizmente, não é só isto: o casal central não tem química nenhuma, as cenas de ação não empolgam, e não há personagens interessantes ou interpretações dignas de nota aqui. A melhor atuação indubitavelmente é a de Sophia Myles, que imprime um ar deliciosamente cativante e jovial à sua Isolda; por outro lado, o Tristão de James Franco é demasiadamente inexpressivo, resumindo-se a uma forçada cara de paisagem durante boa parte da fita – além de possuir em sua primeira aparição um bizarríssimo cabelinho de Caetano Veloso fase-Tropicália (?), mas isto é um mero detalhe… hehehe!

Voltando, é fácil notar a diferença nas cenas em que Tristão e Isolda encontram-se escondidos do Lorde Marke: o espectador sente todo o medo e toda a paixão dela, enquanto ele se limita a manter uma única expressão e uma lágrima forçada no cantinho do olho que nunca cai (!). Chega a ser muito estranho ver Myles, até então uma novata na área, apagar totalmente a presença de Franco, que sabe ser excelente quando quer – quem o viu vivendo James Dean no longa produzido pela TNT em 2001, papel que lhe valeu um Globo de Ouro, sabe do que falo. Mas a culpa aqui não é do ator, e sim da direção.

Para resumir numa única linha, o maior problema de Tristão e Isolda, além dos já citados, é o fato de ser indeciso. A trama fica o tempo todo oscilando entre dar atenção ao lado da ação ou ao lado do romance. Nisso, não desenvolve bem nenhum dos dois. Uma pena mesmo… mas o que esperar de um filme do Kevin Reynolds e de um subgênero tão desgastado, não é mesmo? Se você não é uma adolescente apaixonada pelo James Franco (que passa boa parte do tempo mostrando seu peitinho definido) e está mais preocupado em ver bom cinema, melhor alugar Gladiador. Tá desgastado, ninguém mais agüenta, mas pelo menos é bom. Espero que agora Hollywood deixe os filmes épicos descansarem em paz, nem que seja só por algum tempo. :-)

CURIOSIDADES:

• Quem é familiarizado com o cinema do final dos anos 80/início dos 90, deve se lembrar de Kevin Reynolds, diretor mais famoso pelos conflitos com seu “astro preferido”, Kevin Costner, do que pela qualidade de seus filmes. Ambos mantinham uma relação de amor e ódio, visto que Costner, figurinha difícil, começou a ter sérias crises de egocentrismo durante a produção de Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (1991) e do horroroso Waterworld, o Segredo das Águas (1995). Hoje, não se falam mais. E diz a lenda que Waterworld, que leva o nome de Reynolds nos créditos de diretor, foi finalizado por Costner depois de uma violentíssima briga nos sets de filmagem, acontecimento que teria feito Reynolds mandá-lo tomar “naquele canto escuro onde o Sol não bate” e abandonar o filme com apenas duas semanas de produção. Esta convivência complicadíssima rendeu-lhes o inglório apelido de “Werner Herzog e Klaus Kinski do cinema norte-americano”. Mas sem o talento dos dois consagrados alemães, claro.

• Ridley Scott planejava rodar Tristão e Isolda em 1978, logo depois de seu debut em Os Duelistas (1977). Por uma série de conflitos, precisou adiar seus planos e preferiu investir em um outro roteiro que lhe chegou às mãos: Alien, o 8.º Passageiro (1979). Com o sucesso de Gladiador, mais de 20 anos depois, Scott decidiu que não queria mais dirigir a história de Tristão e Isolda. Aqui, ele aparece como produtor, ao lado de seu irmão Tony Scott (diretor do engodo chamado Domino: a Caçadora de Recompensas).

• Não, o ator que interpreta o arrogante Wictred não é Andy Garcia, e sim Mark Strong, cujos principais trabalhos no cinema até hoje são em Syriana e Oliver Twist. Mas que parece, parece! :-D

TRISTAN + ISOLDE • CZE • 2006
Direção de Kevin Reynolds • Roteiro de Dean Georgaris
Elenco: James Franco, Sophia Myles, Rufus Sewell, David O’Hara, Mark Strong, Henry Cavill, Bronagh Gallagher, Dexter Fletcher.
125 min. • Distribuição: Europa Filmes.

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