Sra. Henderson Apresenta

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 27/02/2006.

Sra. Henderson Apresenta (Mrs. Henderson Presents)

Podem me chamar de problemático, mas não posso negar que simplesmente morro de rir quando ouço um palavrão muito bem proferido em qualquer filme. Sério, acho mó legal! Se a fita é nacional, então, fica mais tosco e melhor ainda – tudo bem, aquele troço chamado O Casamento de Romeu e Julieta é horroroso de tão ruim, mas lá pelos 40 minutos finais, quando o personagem do Luiz Gustavo despiroca e começa a soltar cada frase mais cabeluda que a outra (leia a crítica neste website e saiba do que estou falando!), perdi as contas de quantas vezes precisei abandonar a sessão e sair correndo à procura de um banheiro, para não molhar minhas vestimentas baixas… Mas que fique bem claro que foi só por causa do ex-Beto Rockfeller soltando seu palavreado, tá? Nada a ver com as “tentativas de piada” do filme em geral. :-)

Enfim, se você é como eu e estupidamente cai no riso sempre que ouve um “vá para a pqp” ou palavreado similar, e está pensando seriamente na possibilidade de sair de casa para assistir à divertidíssima comédia musical inglesa Sra. Henderson Apresenta (Mrs. Henderson Presents, 2005), eis um pequeno conselho: leve um pacote de fraldinhas, pois você vai precisar. Sério, em certos momentos não dá pra segurar! Claro que este não é o único mérito deste bacana, alegre e comovente novo trabalho do cineasta Stephen Frears (de Alta Fidelidade). Aliás, num saldo geral a produção encaixa-se mesmo é no drama. Mas inegavelmente faz rir (e muito) por conta do roteiro bem-sacado, das tiradas hilárias de alguns diálogos e da atuação inspirada daquela figuraça chamada Judi Dench. E pô, não dá pra ficar inteiro quando se vê uma senhora de 70 anos, pertencente à alta sociedade londrina dos anos 30 e 40, disparando cada pérola mais assustadora que a outra… Só podia ser filme inglês mesmo, eles é que sabem fazer boas comédias! Viu, Martin Lawrence? Hunf. :-D

A tal senhora de quem falo é a mesma que empresta seu nome ao título da fita: em 1937, Laura Henderson (Dench, a M dos últimos longas do 007) perde seu esposo. Quando todos pensam que ela está triste com o fato, na verdade ela está é irritada (!), já que o ingrato de seu marido fez o favor de falecer, deixando-a sozinha e sem nada de útil para fazer, ainda que herdeira de uma fortuna considerável… Sua melhor amiga, a Sra. Conway (Thelma Barlow), diz que ser viúva não é tão ruim assim, já que agora ela tem tempo para fofocar com as amigas e gastar seu dinheiro comprando coisas… Assim, a Sra. Henderson segue os conselhos da amiga e, agitada demais para se prender a confecção de rendas ou comitês de caridade, decide comprar um teatro abandonado (!), o antigo Teatro Windmill, no Soho, e mandar reformá-lo. O objetivo: reviver a época de ouro dos musicais vaudeville.

O problema é que a Sra. Henderson não faz a mínima idéia de como se administra um teatro. Para isto, ela contrata o carrancudo produtor teatral Vivian Van Damm (Bob Hoskins), que traz consigo uma equipe dedicada – formada pela secretária Maggie (Doraly Rosen) e o dançarino Bertie (Will Young) – e uma idéia um tanto quanto maluca: revolucionar o vaudeville com espetáculos musicais ininterruptos, batizados musicaldeville. A idéia dá muito certo e o Teatro Windmill lota – mas apenas até o momento em que outras casas de shows copiam a fórmula. Com isto, a infame e desprendida Sra. Henderson, doutorada nos espetáculos parisienses do Moulin Rouge, aproveita-se de um pequeno buraco nas leis do país (que libera nudez em cena, desde que as modelos estejam imóveis) para “inovar” e sugerir mais uma insanidade a Van Damm: tirar a roupa da mulherada! Sim, deixar as atrizes nuas em cena, como “quadros vivos”, para “apimentar” as peças…

A trama, lógico, não fica somente nesta linha: neste meio tempo, o espectador conhece as estrelas do Windmill, apelidadas Millerettes e lideradas pela sensualíssima Maureen (Kelly Reilly); acompanha a engraçadíssima convivência entre Henderson e Van Damm, que se amam e se odeiam com a mesma intensidade; e presencia a iminente chegada da 2.ª Guerra, dramático evento que transforma o Windmill no único teatro britânico ativo e a única válvula de escape para os soldados ingleses – além de entregar as verdadeiras razões pelo qual a Sra. Henderson tanto lutou para manter seu estabelecimento funcionando (pois é, nada é por acaso…). O resultado de tudo isto é o fato de que o Teatro Windmill é considerado hoje, na opinião unânime dos historiadores e especialistas, uma das maiores casas de espetáculos do mundo e o único responsável por uma série de inovações técnicas e históricas na maneira de se fazer teatro.

Tá, tá certo. Nem eu mesmo posso negar que Sra. Henderson Apresenta tem um explícito jeitão de drama inglês de época e “mamãe-quero-papar-alguns-Oscars”. E tem mesmo. O legal é que a produção foge deste estigma tranqüilamente por conta da forma despojada com que Stephen Frears conduz a narrativa: ser uma produção de época, neste caso, não tem absolutamente nada a ver com diálogos chatos e ritmo arrastado. O roteiro, escrito por Martin Sherman (Callas Forever), traz uma série de personagens pra lá de carismáticos – destacando aí a ótima atuação da bela Kelly Reilly (de Orgulho e Preconceito), como a meiga Maureen – e seqüências hilárias (mas nunca vulgares ou gratuitas) protagonizadas pela divertidíssima Sra. Henderson de Judi Dench, pouco acostumada a eufemismos, mas dona de um coração de ouro e cheia de boas intenções. Embora não faça sentido algum, dá uma vontade tremenda de ver a personagem protagonizando mais filmes…

Não dá pra ficar inteiro, por exemplo, quando Henderson e Van Damm, vivido com carisma por Bob Hoskins (o Eddie Valiant de Uma Cilada para Roger Rabbit), estão juntos em cena: numa das cenas mais engraçadas do filme, proibida de pisar lá, a senhora invade o Teatro fantasiada de Gueixa (?) e, em outro momento, de urso dançarino (??). Repare também na hilariante conversa entre a viúva e o Lorde Cromer (Christopher Guest), o horrorizado censor oficial de Londres, na qual ela expõe sua idéia de colocar suas meninas peladinhas no palco… A reação do indivíduo ao saber qual a solução da Sra. Henderson para os “países baixos” das moças é batida, mas tão natural e engraçada que qualquer um cai na gargalhada! :-D

A meu ver, a grande sacada do filme é a construção da personagem central. Embora Judi Dench esteja realmente muito bem no papel de Laura Henderson, nota-se que o mérito é mais do roteiro do que do trabalho da atriz. Se já é de fato deveras engraçado ver uma típica socialite londrina dos anos 40 soltar um frase de tipo “E quem se importa com uma m**** dessas?” (sim, ela fala isso!), também é fácil deixar que uma personagem desta natureza caia na vulgaridade – o que não acontece um segundo sequer durante a projeção. E à medida que a narrativa mergulha no drama da guerra (sem tornar-se piegas, diga-se de passagem), o público sente que Henderson não é feita apenas de tiradas espirituosas, e sim de muita profundidade. Some a este detalhe uma reconstituição de época com tudo no lugar – deixando de lado um certo momento em que o cromakey utilizado aparece bem falho – e pronto, temos um filmaço!

Pra resumir, Sra. Henderson Apresenta não é apenas uma fita para os mais velhos ou para aqueles que curtem dramas de época. É um trabalho divertidíssimo, carismático e que pode conquistar qualquer espécie de público. Uma ótima pedida para quem procura um filme gostoso de assistir e também para quem está afim de uma boa história dramática. Portanto, se você já viu tudo o que tinha pra ver nos cinemas, vai fundo! E se ainda não te convenci… bem, tem uma pá de mulher pelada no filme! Hehehe. :-D

CURIOSIDADES:

• O verdadeiro Teatro Windmill foi comprado por Laura Henderson em 1931 e inaugurou suas atividades em 1932, adaptando-se ocasionalmente para a exibição de filmes. Ele foi o único teatro em Londres que permaneceu aberto durante a Guerra; daí seu slogan: “Nós Nunca Fechamos.” Durante alguns dos piores ataques aéreos, de 7 de setembro de 1940 a 11 de maio de 1941, os espetáculos eram apresentados num dos dois andares subterrâneos do Teatro. Muitos artistas consagrados, como Peter Sellers e Tony Hancock, iniciaram suas carreiras em espetáculos no Windmill.

• Mesmo depois da morte de Henderson (em 1944) e de Van Damm (em 1960) e com a decadência do Soho, o teatro continuou funcionando. O Windmill ainda existe, mas hoje ele não é nada além de uma casa de strip-tease e espetáculos eróticos.

• Vários longas-metragens já retrataram a história do Teatro Windmill. Curiosamente, nenhum deles fazia referência a Laura Henderson, a verdadeira dona do lugar.

• O carismático Will Young, que interpreta Bertie, não é ator. Ele foi um dos vencedores da edição britânica do programa American Idol. Já Christopher Guest, o Lorde Cromer, é um conhecidíssimo ator e diretor norte-americano: além de participar do popularíssimo Saturday Night Live como diretor e roteirista entre 1984 e 1985, ele co-escreveu e atuou no clássico This is Spinal Tap e recentemente dirigiu uma das fitas mais legais dos últimos anos, o ainda inédito nos cinemas e em DVD por aqui A Mighty Wind (cujo único e breve contato com os brazucas foi através de exibições esporádicas no canal pago HBO).

MRS. HENDERSON PRESENTS • ING • 2005
Direção de Stephen Frears • Roteiro de Martin Sherman
Elenco: Judi Dench, Bob Hoskins, Kelly Reilly, Will Young, Thelma Barlow, Anna Brewster, Doraly Rosen, Christopher Guest.
103 min. • Distribuição: Buena Vista International.

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