Quem é Morto Sempre Aparece

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 05/12/2005.

Quem é Morto Sempre Aparece (The Big White)

A primeira impressão que se tem ao assistir a comédia de humor negro Quem é Morto Sempre Aparece (The Big White, 2005), dirigida pelo desconhecido Mark Mylod – da besteira chamada Ali G Indahouse -, é a de que estamos assistindo a mais uma pequena pérola dos notórios irmãos Joel e Ethan Coen. Para quem está familiarizado com os filmes dos caras, é impossível não notar a presença de marcas registradas e da influência dos cultuados cineastas, em especial o excelente Fargo: Uma Comédia de Erros (1996), no roteiro desta fitinha independente. Está tudo lá: história esquisita, personagens mais esquisitos ainda, atores legais pra xuxu (um deles, Tim Blake Nelson, é figurinha tarimbada nas produções mais recentes dos Coen), fotografia inspirada e trilha sonora infestada do melhor do folk.

Com todos estes elementos aí, seria óbvio dizer que Quem é Morto Sempre Aparece, mesmo com este péssimo título nacional, é um filmão, não é? Sim, é óbvio. Eu mesmo, embora não estivesse tããão ansioso assim, depositei certa confiança na produção depois de ler sua sinopse.

Entretanto, toda regra tem sua exceção. E Quem é Morto Sempre Aparece é a exceção à regra: ô filminho chato! Chato pra dedéu! Ok, seria demasiadamente injusto afirmar que o longa é tão ruim a ponto de fazer o espectador sair correndo com o rosto em chamas e gritando “MEUS OLHOS, MEUS OLHOS!!!!”. Não, definitivamente não. E nenhuma comédia de humor negro protagonizada por um Robin Williams inspiradíssimo (ele é ótimo para papéis estranhos!) e co-estrelada por talentosos coadjuvantes de luxo como Holly Hunter, Woody Harrelson e o hiper-legal Giovanni Ribisi pode ser tão tenebrosa assim.

O problema é que o longa comete o pior erro que jamais poderia cometer para um exemplar do gênero: não tem graça. Pois é, não tem graça alguma. E não falo de gargalhadas: você não consegue dar um sorriso amarelo sequer! Tudo bem, é um filme de humor negro, e os exemplares desta subcategoria tendem a ser mais sutis, mas até os maiores fãs de piadas macabras, como eu, se decepcionarão feio. A fita começa séria e maçante, e termina… séria e maçante. Para medir o grau de monotonia de Quem é Morto Sempre Aparece, basta que eu diga que precisei enfrentar uma segunda sessão para escrever esta crítica, já que dormi feito um bebêzinho na primeira. Sério mesmo, dei aquela “piscadinha” com meia hora de projeção e, quando notei, já rolavam os créditos finais e a musiquinha esquisita do Mark Mothersbaugh… :-P

E olhem que a trama é bastante sugestiva e interessante: Paul Barnell (Williams) é o dono de uma agência de turismo à beira da falência, localizada em pleno Alaska. Endividado até o pescoço e preocupado com a saúde de sua esposa, a maluca Margaret (Hunter), que sofre de Síndrome de Tourette – aquela doença insana que faz a pessoa soltar as maiores abobrinhas inconscientemente, uma piada pronta por si só -, Barnell precisa de dinheiro com urgência. Ele até tenta descontar o seguro de vida de seu irmão mais novo, desaparecido há cinco anos, mas esbarra no ceticismo do corretor de seguros Ted Watters (Ribisi), louco por uma transferência para um lugar mais quente e em crise com sua namorada, a médium Tiffany (Alison Lohman). Ted é bem claro: sem provas concretas de que o indivíduo bateu a caçoleta, não há nada que se possa fazer.

A sorte (ou azar, dependendo do ponto de vista) bate à porta de Barnell quando este ocasionalmente encontra um cadáver fresquinho num baú de lixo. As semelhanças com Fargo começam aqui: o sujeito arma um plano para que todos acreditem que o presunto é o maninho sumido, falecido num suposto acidente forjado por ele – com o morto devidamente “identificado”, Barnell pode finalmente sacar o seguro, no valor de apenas um milhão de doletinhas… Pouco, não? Se eu forjar meu próprio sumiço, acho que não consigo nem cinco reais. :-)

Todo ato, no entanto, traz conseqüências. Assim, Paul Barnell testemunha o seqüestro de sua esposa pelos matadores de aluguel Gary (Nelson) e Jimbo (W. Earl Brown), os verdadeiros “donos” do defunto, que usam sua própria casa como cativeiro (!); sofre a perseguição de Ted, que desconfia de toda a história e quer porque quer provar que Barnell pode ser, na verdade, um assassino calculista (!); e vê seu mundinho ruir quando a cidade presencia o retorno de ninguém menos que o tal do irmão desaparecido, o violento Raymond (Harrelson, muito mal aproveitado), que ficou sabendo de sua própria “morte” pelos jornais e agora quer tirar a história a limpo. Realmente, o tal Barnell está, como diria minha vovó, com “a vida ilhada”… :-)

Com um plot destes, transformar o roteiro em um filmaço ácido, acelerado e rocambolesco seria batata. Mas a inexperiência do semi-estreante Collin Friesen no desenvolvimento do roteiro e do próprio Mylod na direção não só deixou Quem é Morto Sempre Aparece com um gosto totalmente sem sal como imprimiu uma má impressão de que a direção só quer mesmo é ser tão cool quanto os Irmãos Coen e suas histórias bizarras. Cada um dos personagens é carregado de surrealismo, de uma forma tão exagerada que deixa a trama irreal – justamente o inverso dos Coen, que são tão cuidadosos com seus roteiros que, por mais que os eventos ocorridos em seus filmes sejam absurdamente ilógicos, o público acredita fielmente que poderia acontecer até com seu vizinho. Este é o grande mojo do trabalho dos Coen, e é a sensação que Mark Mylod visivelmente quer passar com seu longa, mas infelizmente não consegue.

Mas como eu disse lá em cima, afirmar que a fita é um lixo do tamanho de um bonde consiste num baita exagero. Os atores até que seguram a trama e garantem um ou outro momento inspirado, principalmente Holly Hunter – um personagem excelente interpretado de maneira excelente, mas que merecia um enredo melhor explorado – e Giovanni Ribisi, mais conhecido da galerinha aqui d’A ARCA como o irmão-gêmeo-separado-no-nascimento do Machine Boy. :-D Aliás, uma perguntinha aos produtores e executivos hollywoodianos que estiverem porventura passeando por este website e lendo esta matéria (hehehe): Por que vocês não dão logo um papel digno para o Ribisi? O cara já provou que é o maior legal! Por favor, dêem um filme decente para este elemento! :-P

Enfim, Quem é Morto Sempre Aparece não chega a valer o dindim torrado na bilheteria. Funciona mais para uma sessão-da-tarde daqueles dias chuvosos em que você está com uma baita preguiça de levantar do sofá para ir à locadora. Ainda assim, não espere algo muito compensador. Ao final, o que deveria (e poderia) ser um ótimo exercício de humor negro, resulta apenas em uma película tão tediosa e gelada quanto as desoladoras paisagens do Alaska. Afe, deu sono só de escrever esta crítica. :-)

CURIOSIDADES:

Quem é Morto Sempre Aparece foi rodado em locações no Alaska e em Winnipeg, no Canadá. Em Winnipeg, a equipe técnica enfrentou um problema curioso: depois de passar um dia inteiro cobrindo um locação externa com neve falsa (já que a fita foi rodada em Maio, fora do período de gelo no lugar), eles foram surpreendidos por uma estranha nevasca que cobriu praticamente 30 cm do solo.

• Diz a lenda que Robin Williams “desaparecia” constantemente dos sets de filmagens para brincar num playground próximo com as crianças do bairro local.

Quem é Morto Sempre Aparece ainda não ganhou as telonas nos States. A fita está programada para estrear no primeiro semestre de 2006.

THE BIG WHITE • EUA • 2005
Direção de Mark Mylod • Roteiro de Collin Friesen
Elenco: Robin Williams, Holly Hunter, Giovanni Ribisi, Tim Blake Nelson, W. Earl Brown, Alison Lohman e Woody Harrelson.
100 min. • Distribuição: Imagem Filmes.

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