O Senhor das Armas

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 08/10/2005.

O Senhor das Armas (Lord of War)

“Há alguma coisa acontecendo aqui. O que acontece não está exatamente claro. Há um homem com um arma ali em cima. E ele está me dizendo que devo me proteger. Eu acho que é hora de parar, crianças, o que é aquele som? Todos olham para o que está prestes a cair.”

A citação acima corresponde à primeira estrofe da belíssima canção For What It’s Worth, da extinta banda sessentista Buffalo Springfield, um dos maiores hits anti-guerra criados pela música. Não à toa, a canção ilustra a fantástica e muito criativa seqüência de créditos de abertura deste O Senhor das Armas (Lord of War, 2005), polêmico longa que finalmente estréia em solo brazuca. A abertura, que percorre a trajetória de um projétil de metralhadora em primeira pessoa – desde sua fabricação, passando pelo seu desvio de rota e culminando em seu trágico disparo -, dita logo de cara o tom que predominará na projeção do filme, mas se você não enxergar além do que é mostrado na tela, o verdadeiro sentido de O Senhor das Armas passará despercebido.

Como assim? Bem, o que acontece é que o responsável pela película, o inventivo roteirista e diretor neozelandês Andrew Niccol, gosta de contar suas histórias nas entrelinhas. E o que se vê é cruel: o cara já destruiu a sociedade que cultua a beleza com o intrigante Gattaca: A Experiência Genética (1997), detonou os reality-shows e defendeu o direito à privacidade na obra-prima O Show de Truman, de 1998 (o único filme da lista que apenas escreveu), e questionou os riscos dos avanços tecnológicos no controverso S1m0ne (2002). E tudo isto mostrando muito pouco.

Em O Senhor das Armas, o negócio não é diferente. Niccol usa os acontecimentos que envolvem o contrabandista Yuri Orlov para criticar sem pudores os horrores da era Bush e os conflitos armados ao redor do mundo – disfarçando suas intenções com uma roupagem de tragicomédia, trilha sonora pop e um clima ágil. O resultado desta miscelânea, ao lado de Três Reis, é simplesmente um dos melhores e mais emotivos manifestos anti-bélicos que o cinema pós-2.ª Guerra já presenciou – e que também funciona muito bem como “entretenimento”, por incrível que pareça.

Vamos à trama: nascido na Ucrânia pré-dissolução da URSS, Yuri Orlov – vivido por Nicolas Cage (Despedida em Las Vegas) – está desiludido com sua vidinha monótona de balconista do restaurante de seu pai em Nova York. Ao testemunhar uma chacina entre mafiosos, lá pelos idos do início dos anos 80, acorda para sua verdadeira vocação: traficar armas. Em pouco tempo, o mercado clandestino é dominado por Yuri e seu sócio e irmão mais novo Vitaly Orlov – interpretado por Jared Leto, de Alexandre e O Quarto do Pânico. Orgulhoso e presunçoso, Yuri não se cansa de declarar que “todos os exércitos do mundo utilizam material seu, à exceção do Exército da Salvação”.

Assim, Yuri faz fortuna e casa-se com o amor de sua vida, a atriz fracassada Ava Fontaine (Bridget Moynahan, Eu, Robô), que por sua vez não faz idéia das reais atividades do marido. Com a chegada dos anos 90 e o conseqüente fim da União Soviética, Yuri, em conluio com seu tio, o general ucraniano Dmitri (Yevgeni Lazarev), dá um salto ainda maior e inicia o processo de venda dos enormes estoques de armas roubados dos países da antiga União – e que estão sem dono. A transação em si, a distribuição de armamentos em países devastados pela guerra e a infalível lábia do contrabandista, mestre em burlar embargos, faz com que ele conquiste a imediata confiança do déspota e perigoso presidente auto-declarado da Libéria, Andre Baptiste Sr. (o ótimo Eamonn Walker, de Corpo Fechado), que torna-se um de seus clientes mais assíduos.

Não tarde muito para que as coisas comecem a dar errado: Yuri precisa, ao mesmo tempo, driblar a curiosidade da esposa, lidar com as crises de consciência e o vício de Vitaly em cocaína, manter em pé o “círculo de confiança” instaurado por Andre, despistar um “vendedor concorrente” – o homicida Simeon Weisz (Ian Holm, Hora de Voltar) – e, principalmente, manter-se sempre um passo à frente do insistente e incorruptível agente da Interpol Jack Valentine (Ethan Hawke, Assalto à 13.ª DP), que não descansará enquanto não colocar Yuri em seu devido lugar: uma cela bem úmida, suja e trancafiada a sete chaves, longe do contato com o mundo exterior.

Pois é, se o roteiro é tão espinhudo assim, imagine o filme, não é? Ahn… Errado. O Senhor das Armas é, por mais estranho que possa parecer, uma delícia de se assistir. Sério! É dinâmico, ágil, claro, engraçado (sim, a fita é recheada de piadas) e tem ótimos atores interpretando personagens pra lá de carismáticos, como o próprio Yuri delineado por Nicolas Cage, um ser tão ambíguo e charmoso que você não sabe se torce contra ou a favor do elemento – aliás, finalmente deram um papel decente ao Jared Leto, hein? O ator, que já demonstrou um talento fora do comum no aterrador Réquiem Para Um Sonho, literalmente rouba o filme de Cage e entrega seu melhor trabalho até então. :-) Em termos técnicos, só o que me incomodou foi a presença de um único mega-clichê que quase destrói a fita. Porém, o final do filme nos mostra que não poderia passar sem ele. Então a gente perdoa! :-D

Por isto, não se sinta culpado se você se divertir com o filme.

Entretanto, a coisa muda quando se assiste a O Senhor das Armas com um pé na realidade. Com a história de Yuri Orlov, Andrew Niccol construiu um roteiro minucioso que mata vários coelhos com uma única paulada. Você o aceita da maneira que melhor lhe convém: ele pode tanto ser interpretado como um pedido de socorro para o descontrole da venda de armas a facções subversivas, assim como pode representar uma incitação à revolta contra o sistema, como também pode ser visto como um irônico tapa na cara da sociedade ianque, tão sedenta de vencedores e pessoas bem-sucedidas que torna-se cega por isto. Yuri Orlov tem o único desejo de ser um homem de sucesso, não importando o que faça ou quantos sejam subjugados por isto. Como ele mesmo diz, “esta guerra não é nossa”.

Muito pelo contrário: Niccol diz que a guerra é, sim, de todos nós. O Senhor das Armas, um dos grandes longas-metragens do ano e desde já um forte candidato a cult no futuro, pergunta ao espectador: até que ponto devemos nos envolver, por mais que estejamos de fora? O que o longa nos revela durante suas duas horas de projeção é que cada um de nós tem o poder de mudar algo para melhor, não importa se é um probleminha típico do cotidiano ou um conflito armado do outro lado do planeta. Mas para isto, é necessário querer. De nada adiantará ficarmos sentados, parados, olhando para o próprio umbigo. Ou não demorará muito para que concordemos com o que Jack Valentine cospe para Yuri Orlov durante um interrogatório: “Só não te mando para o inferno, pois você já está nele.”

CURIOSIDADES:

O Senhor das Armas é baseado em uma colagem de fatos reais e eventos atuais. O personagem de Nicolas Cage é uma junção de cinco traficantes de armas reais, cujos nomes não foram divulgados.

• Embora tenha sido rodado nos EUA (algumas cenas foram filmadas em Nova York e no deserto de Utah, enquanto o restante na África do Sul e na República Tcheca), o longa foi financiado e distribuído por produtoras estrangeiras. Nenhum estúdio americano quis passar perto do filme, e há boatos sobre dois grandes estúdios que simplesmente mandaram seguranças expulsar Andrew Niccol de suas dependências depois de ler o roteiro. Hipocrisia? Que nada, imagine, impressão sua. :-P

• Andrew Niccol confirmou numa entrevista que obteve apoio e consultoria de contrabandistas de armas reais durante a produção de O Senhor das Armas. Os tanques utilizados nas filmagens, segundo o cineasta, foram fornecidos por um traficante que, depois da captação de imagens, vendeu os aparatos em um país não divulgado. Moralismos à parte, Niccol não cansa de dizer que os caras foram mais gentis e simpáticos do que os estúdios e produtores com o qual teve de lidar para conseguir rodar seu filme. E eu não duvido nada que tenha sido realmente assim.

LORD OF WAR • EUA • 2005
Direção de Andrew Niccol • Roteiro de Andrew Niccol
Elenco: Nicolas Cage, Jared Leto, Bridget Moynahan, Eamonn Walker, Ian Holm e Ethan Hawke.
122 min. • Distribuição: Alpha Filmes.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: