O Filho do Máskara

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 13/04/2005.

O Filho do Máskara (Son of the Mask)

Sinceramente? A minha vontade era de não falar absolutamente nada sobre O Filho do Máskara (Son of the Mask, 2005). O que eu queria mesmo era escrever no máximo um ou dois parágrafos, tal qual o Fanboy fez na “excepcional” matéria sobre um negócio podre chamado Débi e Lóide 2: Quando Débi Conheceu Lóide. Porque, em termos de comparação, um vale tanto quanto o outro. Assim como o Fanboy e Débi e Lóide, eu perdi tempo demais assistindo O Filho do Máskara, e sofreria bastante caso fosse forçado a revisitar aquilo. E olhem que os dois são continuações tardias – ou prequels, sei lá – de ótimas fitas estreladas por Jim Carrey. Será que encontramos um padrão aí? Isso significa que toda produção com o Jim Carrey no elenco ganhará uma seqüência grotesca depois de anos? Quer dizer que daqui a oito anos teremos que engolir um Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças Parte 2, estrelado pelo Scott Speedman e pela Penélope Cruz? Deus, juro que enfio dois lápis nos olhos antes que esta tragédia aconteça.

Bem, ninguém conseguiu entender os motivos que levaram os executivos da New Line a aprovar este projeto. Poderíamos deduzir que o estúdio queria simplesmente pegar carona no enorme sucesso de O Máskara, a divertidíssima e insana aventura protagonizada por um Jim Carrey que ainda não usufruia do status que ostenta hoje em dia. Só não afirmo esta hipótese porque O Máskara foi realizado há onze anos atrás; neste meio tempo, a molecada que curtiu as (des)venturas de Stanley Ipkiss e seu alter-ego, o anti-herói Máskara, já cresceu e deu lugar à outra geração de pivetes que mal conhecem o personagem. O que gera uma questão: PRA QUÊ FAZER UMA SEQÜÊNCIA? Até mesmo porque o final do primeiro longa não deixa ganchos para uma continuação – não contarei como é o final, para não estragar a surpresa dos possíveis pecadores que ainda não assistiram à película. :-D

Se este fosse o único “porém” da produção, tudo bem. Mas o buraco é beeeem mais embaixo. É, o lance não pode ser bom quando sabemos que a) ao ser convidado para participar e ler o projeto, Carrey pulou fora e deu lugar à Jamie Kennedy (da cinessérie Pânico), que nem é bom ator e fica ainda pior quando usa a máscara, b) o “vilão” é interpretado por Alan Cumming (o Noturno de X2), pagando mico violentamente e lembrando de imediato outra tosqueira em que atuou, Os Flintstones em Viva Rock Vegas, e c) a direção ficou nas mãos de Lawrence Guterman, cineasta responsável pelo engraçadinho Como Cães e Gatos, que direcionou o filme a um público-alvo: as crianças. Tá certo, focar a história de modo que atinja a molecada não é ruim; mas aqueles que, assim como eu, ainda tinham esperanças de ver o alucinado e psicótico Máskara das HQs retratado fielmente nas telonas, viram seus sonhos irem por água abaixo. E quando o trailer foi divulgado… meu Deus, o que os caras tinham na cabeça quando liberaram isso? O resultado: uma produção não apenas ruim, mas também vergonhosa e com o poder de queimar a carreira de qualquer um dos envolvidos!

E pensar que o Máskara é um personagem que pode render infinitas possibilidades para uma história, e os caras optaram por esta idéia imbecil apresentada aqui… Depois ainda dizem que sou uma pessoa amarga!

Logo no início do filme, sabemos que Loki (Cumming), o deus da travessura e dono da máscara que dá poderes malucos a quem a usa, desceu na fictícia Edge City e está à procura de seu precioso artefato – a primeira cena, aliás, conta com uma pontinha até bacana de Ben Stein como o curador do museu, numa “versão live-action” do cachorro Droopy, uma das mais célebres criações do cartunista Tex Avery. As referências ao artista não param por aí: o objeto de desejo de Loki é finalmente encontrado pelo cachorro Otis e vai parar nas mãos de seu dono, o aspirante a cartunista Tim Avery (Jamie Kennedy). Tim é casado com Tonya (a bonitinha e nada mais Traylor Howard) e o casal mora numa casa que mais parece ter saído de um desenho animado. Fora da realidade! Tudo bem, nós somos idiotas e acreditamos que um cara que trabalha vestido de tartaruga consegue ter uma casa daquelas… Voltando, Tonya quer a todo custo um bebê, mas Tim ainda não está preparado.

Certa noite, Tim resolve usar a máscara para ir à festa de Halloween da empresa onde trabalha – seqüência que rende um dos piores momentos de O Filho do Máskara, quando Kennedy protagoniza um humilhante número musical ao som de Can’t Take My Eyes Of You, do Frankie Valli… em versão hip-hop/country/funky. Enfim, quando Tim retorna da festa, termina na cama com a esposa (numa cena bem leve; não esqueçam que a fita é para crianças!) e, nove meses depois, nasce Alvey (Liam e Ryan Falconer), simplesmente um dos bebês mais feiosos que Hollywood já escancarou nas telas! Nossa, o pivete é uma “forminha de fazer capeta”. E olhem que ele nem precisou usar a máscara pra ficar assim. Vixe! :-P

Justamente quando Tim supera o medo de assumir as responsabilidades paternas, Tonya precisa viajar a negócios. Hein, ela trabalha? Pois é, o roteiro nunca deixa isso claro… Voltando, a garota viaja e Alvey, óbvio, ficará sob a tutela do pai. As confusões começam quando Tim põe o garoto para assistir desenhos animados do Pica-Pau e dos Looney Tunes na TV (o que sempre foi proibido pela mãe), e Alvey resolve “imitar” o que vê, revelando assim ter herdado geneticamente os poderes de Loki. Enquanto a criança dedica-se a enlouquecer Tim reproduzindo números como o do clássico One Froggy Evening, o enciumado Otis, que perdeu seu quarto para o bebê – sim, o cachorro tinha um quarto só dele na casa… -, põe a máscara e dá início a um conflito típico dos cartoons do Coyote & Papa-Léguas… Pra completar a salada, Loki está bem próximo de reaver o artefato, e quando descobre que a máscara gerou uma criança poderosa, decide levar “seu filhinho” junto!

Bem, se fosse relacionar todos os problemas de O Filho do Máskara, teria que contar o filme todo (!). Pois não há um momento que se salve. É incrível como parece que não há NADA no lugar: em termos de elenco, é impossível dizer quem é o pior. Jamie Kennedy, além de fraquíssimo comediante, não tem expressão alguma quando convertido no Máskara da vez; já Alan Cumming, afetadíssimo, não esconde em nenhum momento que está ali somente pra pagar as contas. Nem mesmo o simpático cãozinho Otis, uma réplica deslavada do hilariante Milo do primeiro filme, consegue salvar. E o visual do longa não se decide entre os exageros cartunescos tão bem explorados no filme do Dick Tracy e o tradicionalismo padrão. Em certas cenas, é impossível discernir se o que vemos é um desenho animado mal feito ou um longa-metragem com atores de carne e osso.

Outro ponto negativíssimo é o CGI. Meu, aquilo foi feito nas coxas! Qualquer um consegue enxergar perfeitamente o que é real e o que é virtual – aliás, repararam que a maioria dos longas-metragens lançados ultimamente sofrem deste mesmo mal? Cadê a perfeição de Jurassic Park e O Senhor dos Anéis? O destaque é a horrorosa versão virtual de Alvey. O bebê em CGI só não consegue ser mais feio que os próprios bebês que deram vida ao personagem. Na boa, o moleque é tão feinho que sua escalação para o papel certamente foi arranjada. Vai ver é parente do diretor de elenco. Olha o nepotismo! :-D Se alguém aí acha que estou exagerando, dê uma olhada nas fotos do moleque. Vixe, chega a dar medo de dormir à noite (!). Mas tudo isto, para quem viu os trailers, é chover no molhado. Pô, será que alguém ainda esperava algo de bom deste filme?

Portanto, vamos ao que realmente interessa, que é o que todos querem saber: a dublagem do Supla.

Para quem ainda não sabe, algum “gênio” teve a “brilhante idéia” de chamar o eterno punk e filhote da ex-prefeita para dublar Loki. O que é inexplicável, já que a fase em que o cara tinha um apelo popular junto à criançada – fase pós-Casa dos Artistas – foi embora faz tempo. Bem, na meia hora inicial, o cantor não está tão ruim assim. Não é um dublador profissional, mas também não põe tudo a perder. Depois de um tempo, entretanto, Supla deixa vir à tona todas as suas, er, “particularidades”. O lado bom é que, se você não riu com o filme em si, provavelmente molhará as calças com o festival de horror que é a dublagem do Supla a partir daí. O cara solta pérolas “felomenais”! Em dado momento, por exemplo, ele solta um “Cara, isso tudo é muito LOKO!”, e em seguida, diz “vamos, vamos, C’MON!”. Numa seqüência em que Loki segue um ritual para invocar Odin, a cena em si em conjunto com a dublagem lembra bastante o clássico clipe de Green Hair (é sério!). E sim… ele fala “PAPITO”! E duas vezes, ainda! Socorro!!! :-P

Tá, ok. Então a fita é uma porcaria sem fim? Com certeza! Uma dúvida: funciona para a criançadinha, pelo menos? Hmm, não sei dizer. Assisti este filme numa sessão especial, na companhia de 305 crianças entre 6 e 10 anos; enquanto algumas vibravam e até aplaudiram no final da projeção, outras saíram reclamando. Pode até ser que agrade. Mas sabemos que qualquer flatulência é capaz de matar a molecada de tanto rir (e o R.Pichuebas também!), portanto é impossível considerar este ponto. Tudo bem. Tenho certeza de que ninguém se arriscará a descobrir isso na prática, não é mesmo? :-P

Olha, se continuar assim, depois de tantos sacrifícios que ando fazendo em prol de um bem maior – no caso, este glorioso website-, acredito que tenho chances consideráveis de ser canonizado no futuro…

CURIOSIDADES:

• Poucos sabem, mas o personagem Máskara surgiu nas HQs. Ele foi criado em 1987 para a Dark Horse, e as poucas informações que constam apontam John Arcudi (roteirista de Aquaman) e Doug Mahnke (Batman & Coringa Ano 1) como os criadores do personagem. No gibi, a máscara não era usada por uma pessoa apenas, e aqueles que colocavam o artefato, não só ganhavam os doentios poderes como também eram possuídos por Loki. O clima da HQ era pesadíssimo: só pra se ter uma idéia, Stanley Ipkiss, um dos primeiros a encontrar o objeto, foi assassinado em seguida. E não por alguém usando a máscara, mas sim pela PRÓPRIA máscara!

• O roteiro desta joça é assinado pela “tentativa de roteirista” Lance Khazei, novato no cinema; Khazei responde por vários episódios de CatDog, o terrivelmente insano desenho animado da Nickelodeon. Para quem não conhece, CatDog narra o cotidiano de dois irmãos, um cão e um gato, que nasceram com um único corpo: numa das pontas, é o gato, e na outra ponta, o cachorro. Afe!

• O nome do cãozinho, Otis, é proposital. Tanto ele quanto o nome do cachorro da fita anterior, Milo, são uma referência ao longa-metragem de sucesso The Adventures of Milo & Otis (1986), lançado em terras brazucas como As Aventuras de Chatran. Alguém lembra desse filme?

• O cartoon One Froggy Evening (1955), dirigido pelo saudoso Chuck Jones e mais conhecido como “Hello ‘Ma Baby”, é considerado um dos maiores clássicos dos Looney Tunes. Para quem não associou o título ao episódio – já que tenho certeza de que todos aí assistiram ao desenho -, trata-se do comentadíssimo curta em que um homem encontra um sapo que canta e dança e tenta ganhar dinheiro com ele a todo custo. Só que o sapo não canta para ninguém além dele, o que faz com que todos considerem o mané um pirado da pior qualidade…

SON OF THE MASK • EUA • 2005
Direção de Lawrence Guterman • Roteiro de Lance Khazei
Elenco: Jamie Kennedy, Alan Cumming, Bob Hoskins, Traylor Howard, Ryan Falconer, Liam Falconer, Steve Wright, Kal Penn e Ben Stein.
86 min. • Distribuição: New Line Cinema/PlayArte Pictures.

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Uma resposta para O Filho do Máskara

  1. Herbst disse:

    Exagerou nao, ta certinho… pros que eram crianças na epoca do primeiro filme como eu, esse novo eh um lixo o.O sempre pensei que fossem fazer algo baseado no original dos quadrinhos..pq o primeiro filme foi comedia,mas a historia original eh um tanto sombria..mas esse lixo que fizeram x.x

    Detonou cara xD

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