Déjà Vu

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 14/01/2007.

Déjà Vu

Filmes de ação descartáveis são divertidíssimos, vamos concordar. Sim, sim. Não importa se você é viciadaço em fitas de fantasia tipo Star Wars, Harry Potter ou O Senhor dos Anéis, não importa se você é um cinéfilo cabeça que só quer saber de produções da Lituânia com dez horas de duração e quatro diálogos neste meio tempo, não importa se sua praia é um bom drama intimista… ninguém consegue resistir a uma boa produção de pancadaria que não te deixa respirar por um segundo e, o que é melhor, não exija a menor utilização de sua massa encefálica. Isto, meu caro, é fato. E o produtor Jerry Bruckheimer sabe disso muito bem. Afinal, o cara fez fama e (muita) fortuna financiando fitinhas fast-food bem empolgantes que encaixam-se à perfeição nestes termos, como Bad Boys (1995), A Rocha (1996) e Con Air – A Rota da Fuga (1997).

O que Jerry Bruckheimer ainda não entendeu é que há dois pecados mortais para os filmes de ação descartáveis: a) não dá para ficar inventando muito lenga-lenga no enredo, porque ninguém que vai ao cinema para ver algo do gênero está muito afim de pensar, e b) exemplares deste gênero não foram feitos para se levar a sério. E o que pode acontecer quando o indivíduo inventa de querer contar uma história absurdamente inverossímil e, o que é pior, da maneira mais séria e centrada possível, como se alguém pudesse realmente acreditar que aquilo é real? O que pode acontecer é o que de fato aconteceu: um troço como Déjà Vu (Idem, 2006) infelizmente chegou aos nossos cinemas.

E a película é tão horrível assim?, você deve se perguntar neste momento. Bem, vamos explicar isso direito. Não é que o filme seja ruiiiim, pelo menos não a ponto de despertar instintos suicidas nos corações das pobres pessoas (!). O principal problema de Déjà Vu – digo principal porque não é o único – é que o longa, dirigido no piloto automático por Tony Scott (o irmão sem talento de Ridley Scott e o mesmo que comandou o videoclipe hip-hop de duas horas Domino, a Caçadora de Recompensas), não só conta um enredo incrivelmente sem sentido, daqueles sem pé nem cabeça, como parece acreditar ter um material tão “contundente” e “profundo” em mãos que precisa narrar esta história como se fosse um clássico da ficção-científica.

Mas… ficção-científica? Pois é. Por incrível que pareça, Déjà Vu é uma sci-fi. Ou quase: é um policial rocambolesco que tem toques de sci-fi, como ultra-tecnologia a serviço do governo, viagens no tempo (!) e um esqueminha de prevenção de tragédias que remete diretamente ao mais-ou-menos Minority Report: A Nova Lei, aquele do Tom Cruise sendo acusado de um crime que ainda nem aconteceu.

Sinceramente, não consigo entender por que cargas d’água o público estadunidense adorou esta produção. De certo deve ser pelo fato de Déjà Vu ser o primeiro longa-metragem a ser rodado em Nova Orleans após o esmagamento da cidade pelo Katrina (mais informações, ler as curiosidades, faiz favô), o que deu um ar de renovação, de renascimento ao lugar – tipo de coisa que gringo adora, fazer o quê?

Bem, já que não tenho como fugir de meu destino (é o karma, já dizia o sábio Earl :-D), bora lá para a “história” de Déjà Vu, que começa com a explosão aparentemente acidental de uma balsa que mata mais de 500 pessoas durante o famoso carnaval de Nova Orleans (se não me falha a memória, são exatamente 543 vítimas – sinceramente, não me lembro muito bem). Não tarda para que as autoridades locais desconfiem que o acidente foi premeditado. Assim, o policial Doug Carlin, vivido bem porcamente por Denzel Washington (decepção, hein tio!), aparece na parada para investigar.

A coisa começa a ficar mais complicada quando, no meio da investigação, aparece boiando nos arredores o corpo carbonizado de uma suposta vítima do acidente. Só que esta vítima, que logo descobrimos chamar-se Claire Kuchever (Paula Patton), morreu minutos ANTES da explosão. Simultaneamente, Carlin é convidado pelo agente do FBI Pryzwarra (Val Kilmer – céus, quem inventou este nome para o coitado do personagem?) a integrar sua equipe secreta, que trabalha em um bizarro projeto: um computador capaz de reproduzir, como um programa de TV, todos os acontecimentos de quatro dias no passado (!!!).

É aqui que Déjà Vu começa a perder todo o sentido.

Continuando… suspeitando de que o assassinato de Claire e a explosão da balsa estejam ligados, Carlin sugere que a equipe use o aparato para acompanhar os últimos dias da moçoila. É neste meio tempo que o agente começa a alimentar uma quedinha pela defunta… Sério! E ainda não acabou: um incidente no QG da equipe do FBI leva a outra descoberta, a de que o equipamento não somente permite visualizar os acontecimentos de quatro dias no passado, como também serve como “ponte” para que os sujeitos no presente modifiquem esta realidade paralela. Então, lá vai o apaixonado Doug viajar ao passado (!) para tentar salvar a vidinha medíocre da pobre donzela e, quem sabe, catar o terrorista responsável pelo agora “futuro” atentado à balsa…

Bem, a história não seria tão sofrível se o equivocado roteiro de Bill Marsilli e Terry Rossio (este último, roteirista de Shrek e Piratas do Caribe) não fosse tão redundante. A cada acontecimento que rola na tela, aparece um personagem qualquer dando uma rápida explicação, como se o público não fosse capaz de entender o que acabou de acontecer. Esta mania se faz presente sobretudo nas seqüências ambientadas no QG da equipe do FBI (por sinal, a fita perde MUITO tempo nestes caras): sempre há alguém explicando o processo todo com termos técnicos e, em seguida, o coadjuvante-alívio-cômico aparece para resumir o troço todo em uma única frase e com comparações bobinhas. E as explicações são as mais críveis possíveis! Até dá pra acreditar que isto tudo realmente pode rolar na vida real… :-P

Somam-se a estes “pequenos” detalhes a falta de carisma do elenco, assim como a inexpressividade de Val Kilmer e principalmente de James Caviezel (se eu precisar engolir mais um vilão de filme dizendo “um dia, meus atos serão estudados”, juro que peço DEMISSÃO!), a péssima direção de atores de Tony Scott e a total ausência de química entre Denzel Washington e Paula Patton, ainda que os dois só apareçam juntos lá pela pavorosa meia hora final da película. Sério, Washington e Patton não combinam como pretensa dupla romântica! Por outro lado, há uma ou outra seqüência de pancadaria que até vale uma espiada, como a cena em que Carlin persegue a pick-up de um suspeito… com quatro dias de atraso. Bacana! Pena que estes momentos são parcos em Déjà Vu e grande parte das cenas de ação simplesmente não convencem.

Numa análise geral, contudo, Déjà Vu não passa de uma fita que até tenciona divertir, mas perde-se por ser extremamente enrolada e incrementada enquanto enredo, e séria demais enquanto filme. E isto é a pena de morte para qualquer película cuja proposta é só fazer o povo relaxar e não precisar usar o cérebro numa sala escura de cinema. Mas se o Jerry Bruckheimer aprendeu a lição, tá safo. E bem que eu podia ter tido um déjà-vu denunciando que, no futuro, teria que resenhar isto… teria desaparecido, na certa. :-P

CURIOSIDADES:

Déjà Vu iniciaria sua pré-produção em Nova Orleans. Poucas semanas antes do início do projeto, entretanto, o Furacão Katrina devastou o lugar. Com a cidade em ruínas, o estúdio decidiu correr atrás de outro lugar para filmar, mas entenderam que este fator inplicaria em reescrever boas partes do roteiro. Em determinado momento, a Touchstone cogitou seriamente a opção de cancelar a produção e jogar o roteiro de Déjà Vu na gaveta (o que seria uma sábia decisão…). Finalmente, após três meses de especulação, a produção retornou a Nova Orleans.

• O roteiro de Bill Marsilli e Terry Rossio foi iniciado por Marsilli em 1997. Nossa, quase dez anos para o resultado ser… esse? :-P

• A gracinha Paula Patton, que faz par com Denzel Washington aqui, ainda é uma novata como atriz; por outro lado, ela tem uma vasta experiência como produtora de TV. Depois de muito tempo trabalhando como assistente de produção do talk-show de Howie Mandel, Patton assumiu a produção da série de documentários Medical Diaries, do Discovery Health. Patton também atuou em Hitch – Conselheiro Amoroso (2005) e no controverso musical Idlewild (2006), mais conhecido como “o filme do Outkast”.

• Diz a lenda que alguns membros da equipe técnica desfilavam pelo set de filmagem com uma camisa que trazia a estampa Malcolm X, Jesus Cristo e Jim Morrison em Déjà Vu. Como poderia dar errado?. A estampa, óbvio, é uma brincadeira com seus astros principais, Denzel Washington (que viveu Malcolm X no longa de Spike Lee em 1992), Jamez Caviezel (intérprete de Jesus em A Paixão de Cristo, de 2004) e Val Kilmer (que deu corpo e voz a Morrison em The Doors, de Oliver Stone, em 1992). A estampa da camisa de nada adiantou: deu errado.

DÉJÀ VU • EUA • 2006
Direção de Tony Scott • Roteiro de Bill Marsilli e Terry Rossio
Elenco: Denzel Washington, Paula Patton, Val Kilmer, Adam Goldberg, Elden Henson, Erika Alexander, Bruce Greenwood e James Caviezel.
128 min. • Distribuição: Touchstone Pictures.

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