21 Gramas

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 17/01/2007.

21 Gramas (21 Grams)

Quando se é um cineasta estrangeiro (leia-se: fora dos Estados Unidos) e um de seus primeiros trabalhos é tão violentamente belo que ultrapassa suas barreiras geográficas e conquista o mundo, o próximo passo é, óbvio, trabalhar em Hollywood. Então, se você abriu o caderno de cultura de qualquer grande jornal por aí e leu sobre algum fulano lá da terra-onde-Judas-perdeu-a-meia que virou figurinha premiada ao dirigir um filmaço com F maiúsculo em seu país de origem, pode apostar que o próximo longa assinado pelo sujeito será recheado de astros/estrelas hollywoodianas e trará o inveitável selinho made in USA.

Alejandro González Iñarritú não foi uma exceção à regra. Depois de arrebentar com o excepcional Amores Brutos (2000), não demorou para que o cineasta mexicano fosse convidado a debutar na meca estadunidense de cinema. Mas Iñarritú pode ser considerado uma exceção sim, se enxergarmos a coisa toda pelo seguinte ponto de vista: na grande maioria dos casos, quando um diretor “de fora” realiza um trabalho de impacto lá fora e é convidado a dirigir um longa norte-americano com distribuição de uma major qualquer, a tendência é este diretor “suavizar” seu conteúdo e entregar um trabalho que pode até ser tão contundente quanto seu anterior, mas certamente será mais palpável ao enjoadíssimo público ianque.

Com o indivíduo, aconteceu exatamente o contrário. Enquanto todos esperavam algo mais leve que Amores Brutos, o cineasta usou sua estréia no circuitão para socar o estômago da platéia de forma ainda mais violenta. Com este novo trabalho, 21 Gramas (21 Grams, 2003), o mexicano não se intimidou com as exigências de seus “contratantes” e desenvolveu nada menos que o aterrorizante segundo capítulo de sua “trilogia da vida” – a exemplo do lendário italiano Pier Paolo Pasolini, Iñarritú sempre declarou a quem quisesse ouvir que tinha uma grande vontade de idealizar uma trinca de filmes focados em pessoas comuns imersas em situações-limite; desejo este que, com a estréia de Babel (2006), finalmente se concretiza.

Então, pode esperar em 21 Gramas todos aqueles elementos já característicos do diretor. Câmera no ombro, fotografia granulada e quase sem saturação, personagens lotados de conflitos internos. A própria estrutura dramática da trama de 21 Gramas traz algumas semelhanças com o brilhante roteiro de Amores Brutos. Não à toa, o ótimo script é de autoria do mesmo Guillermo Arriaga que desenvolveu a(s) história(s) do longa anterior.

Assim, temos aqui um trágico evento que influencia drasticamente a vida de três pessoas direta ou indiretamente envolvidas no negócio. A diferença é que, em Amores Brutos, o evento é uma colisão entre dois carros, os três personagens envolvidos nunca se encontram e o desenrolar das três histórias, cada uma delas estrelada por um dos três, acontece de forma independente, sem que os sujeitos compartilhem qualquer instante além do acidente. Já em 21 Gramas, temos um cruel atropelamento que deixa um saldo de três mortos. E os três protagonistas, além do envolvimento com o incidente, encontram-se em determinado momento e tornam-se ligados uns aos outros não só pelo crime, mas também por algumas pequenas e irônicas coincidências. Ao contrário de seu antecessor, o que acompanhamos nesta fita não é somente a trajetória individual de cada um, mas também sua trajetória coletiva.

O primeiro personagem é Paul Rivers (Sean Penn), que também serve de narrador ao longa. Paul é um silencioso matemático, professor nas horas vagas, que não consegue engravidar sua esposa e espera há anos por um coração. O causo é que o cara sofre de uma doença terminal, já está praticamente em seu último estágio antes de encontrar a morte, e um transplante do órgão é só o que pode salvar sua vida. O segundo personagem é Jack Jordan (Benicio Del Toro), ex-presidiário que converteu-se radicalmente ao cristianismo como forma de “se purificar” e redimir-se de seu passado de crimes e, hoje, vive uma vida tranqüila ao lado da esposa e dois filhos, ainda que lute para superar o preconceito da sociedade. O terceiro personagem é Cristina Peck (Naomi Watts), ex-viciada em drogas que conseguiu superar seus vícios ao casar-se e ter duas filhas e, hoje, é uma dona-de-casa de classe média-alta feliz e completa.

O destino de Paul, Jack e Cristina chocam-se subitamente com o acidente. O elo entre os três e o acidente? Bem, isto é um SPOILER que faz toda a diferença na hora de assistir à fita. Mas se você está tão curioso assim, leia o que acontece selecionando o parágrafo escondido abaixo com o cursor do mouse. Se você ainda não assistiu 21 Gramas e pretende fazê-lo em algum momento de sua existência neste plano terreste, faça o favor de não sucumbir à tentação! :-D

Jack acidentalmente atropela e mata três pessoas, e passa a questionar a existência de Deus após o infortúnio. Os três mortos são o marido e as duas filhas pequenas de Cristina, que vê sua vida desmoronar e entrega-se às drogas e a uma vida de promiscuidade. Paul ganha uma segunda chance na vida ao receber o coração transplantado do marido de Cristina. Curioso para saber mais sobre o dono do órgão, Paul conhece Cristina e inicia um caso com a jovem senhora; ela, por sua vez, pede que ele a ajude em seu plano: matar Jack.

Se a trama já é complicada por natureza, a fantástica direção de Alejandro González Iñarritú trata de bagunçar o côro ainda mais com sua montagem. O que acontece é que a narrativa de 21 Gramas não segue uma projeção linear: a montagem, de Stephen Mirrione (o mesmo de Boa Noite, e Boa Sorte.), é totalmente fragmentada, vai e volta no tempo e pula a cronologia dos atos de cena em cena, misturando tudo sem qualquer aviso prévio. É um enorme quebra-cabeças, e o espectador só se dá conta disto lá pelos 20 ou 30 minutos de projeção. Não é, entretanto, como um Amnésia, que conta sua história ao contrário, e também não é como um Irreversível, cuja primeira cena é a conclusão do enredo e a partir daí é um retrocesso gradativo no tempo: aqui, é tudo embaralhado. Vemos Paul no presente e, em seguida, Jack anos depois e, em seguida, Cristina anos antes – e tudo só fica claro quando o longa acaba. Não pense, contudo, que esta forma de narrativa é mero exercício de estilo. Serve sobretudo para identificar o público com a enorme confusão na cabeça dos três.

É incrível como um troço tão fragmentado é tão claro e fácil de se entender.

À exemplo de Amores Brutos, entretanto, os maneirismos técnicos de 21 Gramas pouco importam em comparação à sua história e o poder das interpretações dos atores centrais. Sean Penn, como o submisso Paul, entrega mais uma atuação de gênio em sua carreira (curiosamente, em 2003 Penn concorreu ao Oscar por seu papel em outro filme, Sobre Meninos e Lobos). Benicio Del Toro, como Jack, causa arrepios com a ambigüidade de seu personagem, que ainda sofre com os resquícios de seu tenebroso passado. E Naomi Watts, como Cristina, é um turbilhão de sentimentos contraditórios e transita entre estes sentimentos com uma naturalidade fora do comum – repare na pesadíssima e angustiante cena de sexo protagonizada por Watts em certo momento: aquilo dói, mesmo. Não consigo pensar em um elenco melhor para compor este filme, sinceramente.

Mas a maior qualidade de 21 Gramas não está em seu elenco, ou em sua estrutura (ou a proposital falta dela). Está, sim, na incrível habilidade de Alejandro González Iñarritú em mexer com um vespeiro tão grande quanto a incapacidade do ser humano em superar perdas e ignorar a suposta necessidade de vingança, e extrair mensagens tão otimistas daí. Uma prova disso é a impressionante conclusão da trama, que acontece lá no início e não parece ser tão complexa e dramática até que o público chegue ao final da projeção e tenha em mãos todas as peças do quebra-cabeça.

Ao final, 21 Gramas é exatamente aquilo que Amores Brutos também é: seco, difícil de assistir, doloroso quando se testemunha os esforços dos personagens centrais em superar e consertar o que não pode ser consertado. Mas que deixa no espectador mais atento uma bela sensação de que não há traumas que não possam ser deixados para trás, não há situação, por mais terrível que seja, capaz de nos fazer deixar de ter esperanças. A solução está em nossas mãos, só depende de nós. Maldito Iñarritú, me fez chorar de novo. :-P

Em tempo: segundo Paul Rivers, 21 gramas é o peso de um beija-flor, de uma barra de chocolate, de cinco moedas de cinco centavos de dólar. 21 gramas é, também, o peso que o ser humano perde no exato momento da morte. Uns ousam dizer que estas 21 gramas perdidas quando se morre correspondem, na verdade, ao peso da alma. Se é verdade, não se sabe. Mas é uma intrigante e poética metáfora que torna-se ainda mais memorável e faz todo o sentido do universo quando as luzes se acendem e os créditos finais rolam na tela.

21 GRAMS • EUA • 2003
Direção de Alejandro González Iñarritú • Roteiro de Guillermo Arriaga
Elenco: Sean Penn, Benicio Del Toro, Naomi Watts, Charlotte Gainsbourg, Melissa Leo, Danny Huston, Clea DuVall, Eddie Marsan.
124 min. • Distribuição: Focus Features.

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