A Pantera Cor de Rosa

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 15/02/2006.

A Pantera Cor de Rosa (The Pink Panther)

Vamos aos fatos: Peter Sellers era um gênio. Ponto. O ator, falecido em 1980, encaixa-se numa boa entre os cinco maiores humoristas de todos os tempos, e ainda sabia ser um ator dramático como poucos – quem assistiu aos maravilhosos Dr. Fantástico (1964) e Muito Além do Jardim (1979), entre muitos outros, sabe muito bem do que falo. O cara já foi até 007, veja só (para quem não sabe, ele dividiu o papel com vários atores na primeira versão de Cassino Royale, de 1967).

Portanto, uma refilmagem de um clássico da comédia protagonizado por Sellers seria, no mínimo, um ultraje muito, muito grave. Primeiro, porque remakes não valem pilomba alguma (à exceção de uma pequenina refilmagem de um filme que ninguém conhece, chamado King Kong). Segundo, porque simplesmente não há uma viva alma no cinemão norte-americano atual (e em nenhum outro lugar, na verdade) capaz de ser tão genial e tão divertida quanto Peter Sellers foi. Simples assim. Aquele ser insuportavelmente sem-graça chamado Roberto Benigni até já tentou – no fracassadíssimo O Filho da Pantera Cor-de-Rosa, lembra desta coisa? –, mas só pagou mico. Como quase sempre, diga-se de passagem. Alguém aí já viu Pinóquio? Aquilo é uma prova concreta de que o inferno existe. Ugh. :-P

Então tá. Sendo assim, vamos ao que interessa. Alguns instantes antes de conferir a sessão de imprensa de A Pantera Cor de Rosa (The Pink Panther, 2006), que como todos sabem é um remake do longa-metragem homônimo de 1964 – por sinal, uma das grandes comédias do cinema estadunidense (embora seja uma co-produção com a Inglaterra) e justamente a produção que alçou Peter Sellers à condição de gênio –, minha preocupação maior, além de ter que assistir a esta coisa por conta do trabalho (!), era tentar não ser tão enjeitável, justamente para não passar uma imagem de cult bastardo que odeia tudo que é comercial. Sei lá, vai que desse pra dar pelo menos algumas risadinhas, né… :-)

Infelizmente, foi impossível não se render ao meu ódio e às minhas tendências suicidas… A nova versão de A Pantera Cor de Rosa, que levou quase um ano depois de “pronto” para chegar aos cinemas – provavelmente o estúdio estava com MEDO de lançar esta bomba –, ultrapassa todos os limites do bom gosto e do bom senso. E não, não estou exagerando. Até o Fanboy consegue ser mais engraçado que este filme. :-D

Antes de mais nada, uma explicação: quando se trata de um remake, é óbvio que as comparações aparecem naturalmente. Se você assistiu ao terrorzinho japoronga Ringu, por exemplo, não adianta tentar enxergar sua contraparte gringa O Chamado como um longa independente; cedo ou tarde acabará tecendo uma ou outra comparação. Isto é FATO. E olhe que eu até tentei: não tive tempo hábil e, para ser sincero, nem me preocupei em rever o A Pantera Cor de Rosa original (que assisti há tempos e não me lembro de muuuita coisa) para evitar comparar as coisas. Ao final, nem adiantou. Comparando ou não, esta nova fita é um lixo do começo ao fim. Lógico que jamais seria tão bom quanto o original, mas não achei que o negócio fosse tão ruim assim! :-P

Aí é que reside o grande pecado desta tentativa de filme: parece que o pseudo-diretor Shawn Levy (minha tartaruga de estimação tem mais talento que ele) não levou em consideração o fato de trabalhar com uma refilmagem não apenas de um filme, mas de um clássico do cinema. E o que é pior: um clássico do cinema cujo personagem central foi imortalizado por um ator e é lembrado até hoje, 42 anos depois de sua estréia. Para sair algo no mínimo “assistível”, seria necessário um cineasta de calibre, e não oindivíduo que dirigiu aquela coisa ridícula chamada Doze é Demais, pô! Credo.

Assim, o cara mandou ver num roteiro totalmente equivocado – escrito por Len Blum e (pasmem) Steve Martin, também protagonista – e, ao invés de basear-se na atmosfera sutil e nas gags divertidíssimas do primeiro filme e de suas seqüências, preferiu utilizar piadas grosseiras, escatológicas ao extremo e absurdamente batidas. O Inspetor Jacques Clouseau vivido aqui por Steve Martin não é em momento algum engraçado espontaneamente como Peter Sellers foi. O resultado não arranca gargalhada alguma do espectador; aliás, nem sorrisinhos de leve. Apenas constrange. Se você é fã da versão original, então, prepare-se para ficar bastante OFENDIDO com este projeto de filme. O próprio Sellers (ou seu pó) deve ter dado umas oito voltinhas dentro da tumba a esta hora.

A história deste novo A Pantera Cor de Rosa, na verdade, tenta funcionar como um prequel: durante um movimentadíssimo jogo de futebol, o técnico da seleção francesa é assassinado, e seu valioso diamante (conhecido como “Pantera Cor de Rosa”), roubado sem que ninguém consiga descobrir como. Para não ser incomodado pelamídia e resolver o caso o mais rápido possível, o policial responsável pela investigação, o Chefe Dreyfus (Kevin Kline), põe Clouseau para distrair a imprensa. E só: este é o enredo. Viu só quanto detalhezinho e quanta profundidade o roteiro nos traz? Uau. Alguém por favor dê um Oscar, um Globo de Ouro, um Urso de Prata e um Leão de Ouro a estes caras. :-P

O resto é mera desculpa para uma série de trapalhadas bestas e totalmente perdidas no contexto da trama. Portanto, prepare-se para muitas cenas de tombos, flatulências (sim, eles ainda apelam para peidos – isso não tem graça, céus!)… Simplesmente não dá para acreditar que há gente legal envolvida neste meio, como Kevin Kline, o francês Jean Reno e principalmente Steve Martin, que todos nós sabemos ser um grande comediante quando quer. Aqui, o ator não faz nada, e resume-se apenas a fazer muita careta (coisa que o Clouseau original NUNCA FEZ). Deus, jura que este é o mesmo cara que estrelou os maravilhosos Cliente Morto Não Paga e Os Safados? O sujeito não precisava desta mancha no currículo.

Sobre a participação de Beyoncé Knowles, só o que posso dizer é: onde estes executivos enxergaram qualquer talento nela? Eu não consigo nem mesmo achá-la bonita! Ela é péssima atriz, péssima cantora e pronto! Bem, pra falar a real, não posso comentar muito sobre a Beyoncé. Eu estava muito ocupado vomitando nesta hora. :-P

No mais, não há muito que comentar sobre este A Pantera Cor de Rosa. É uma fitinha desnecessária, grosseira, mal dirigida, mal escrita e péssima em suas interpretações. Um filme que existe apenas para comprovar que Hollywood não tem um pingo de criatividade e só pensa mesmo no punhado de moedas que o público ingênuo gasta no ingresso. E acima de tudo, uma produção com um poder enorme de ofender a memória de um dos grandes atores que o cinema viu e destruir até mesmo uma intocável obra-prima da sétima arte como A Pantera Cor de Rosa original. Deixem Peter Sellers descansar em paz, por favor. >:-(

Só uma observação: dizem que os críticos de cinema em geral são chatos e só gostam dos ditos “filmes-cabeça”. Isto não é verdade, sério. Pelo menos, não em alguns casos. Mas convenhamos: como curtir o cinema comercial se esta categoria é entupida de troços como este? :-(

CURIOSIDADES:

• Atores como Kevin Spacey (Os Suspeitos) e Mike Myers (Austin Powers) foram sondados para viver o Inspetor Clouseau. Sabiamente recusaram. Outro que recebeu convite, mas pulou fora rapidinho, foi o jogador de futebol e superstar David Beckham. E o filme seria dirigido inicialmente por Ivan Reitman (Os Caça-Fantasmas), que deve ter rasgado o contrato ao ler o roteiro…

• Por mais que A Pantera Cor de Rosa seja uma “inhaca”, devemos agradecer aos céus de joelhos por ter saído assim, pois a idéia original do estúdio era entregar o papel do Inspetor Clouseau a… Chris Tucker. É verdade! E ainda falam mal das baratas e dos advogados? As piores pragas da Terra são os executivos de Hollywood! :-P

THE PINK PANTHER • EUA • 2006
Direção de Shawn Levy • Roteiro de Len Blum e Steve Martin
Inspirado no roteiro do longa-metragem “A Pantera Cor-de-Rosa”, escrito por Maurice Richlin e Blake Edwards
Elenco: Steve Martin, Kevin Kline, Jean Reno, Beyoncé Knowles, Emily Mortimer, Henry Czerny, Clive Owen.
93 min. • Distribuição: Columbia Pictures.

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