Uma Vida Nova

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 16/07/2005.

Uma Vida Nova (The Beautiful Country)

Depois de assistir ao belíssimo drama Uma Vida Nova (The Beautiful Country, 2004), estréia do aclamado cineasta norueguês Hans Petter Moland em solo ianque, só o que posso dizer é que a) no meio de tantos remakes e comédias escatológicas, ainda há vida inteligente no circuito cinematográfico ianque, e b) o sistema de distribuição de filmes aqui no Brasil é algo tão estranhamente incompreensível quanto o gosto da Srta.Ni pelas visões um tanto carnavalescas daquele herói mascarado pelo senhor Joel Schumacher. Afinal, não há NADA que justifique a demora de dois anos para o lançamento da película aqui no Brasil – tanto que, se você reparar, a data na qual escrevi a primeira versão desta resenha é julho de 2005, ocasião na qual o longa, inicialmente agendado para este mesmo mês, foi exibido para a imprensa. Vai entender, não?

Bem, o importante mesmo é chegar aqui no Brasil. Antes tarde do que nunca! E a espera realmente vale a pena: trata-se de uma produção singela, humilde, sem maiores atrativos. Mas muito, muito encantadora, e que não precisa fazer esforço algum para deixar o espectador com os olhos mareando durante suas quase 2 horas e 20 de projeção. E o que é melhor: com um tema altamente universal, embora pareça ser meio regionalizado à primeira vista. Logo, sinta-se à vontade para conferir este pequeno longa sem medo de sair da sessão com a cara vermelha e inchada! Aliás, só uma pequena observação: não consigo entender como Uma Vida Nova não apareceu no Oscar de 2005 para dar trabalho ao meu amado senhor Clint Eastwood e seu Menina de Ouro. Pois a meu ver, as duas películas, exibidas na mesma época lá fora, competem pau a pau em termos de roteiro, qualidade e “abalo psicológico do público”… Hehehe! ;-)

O enredo acompanha a sofrida e comovente trajetória de Binh (o promissor Damien Nguyen). Binh, rapaz ingênuo e bondoso, é o que costumam chamar de bui doi, ou seja, um filho da desnecessária Guerra do Vietnã. A única coisa que Binh carrega de seu passado é uma fotografia de seu pai e sua mãe: um soldado americano e uma vietnamita. Binh vive num pequeno e paupérrimo vilarejo no Vietnã, na companhia de parentes adotivos. Estes o odeiam e tratam-no como um empregado, e na primeira oportunidade, tocam o jovem para fora. E é neste ponto que Binh empacota suas poucas roupas e cai no mundo quando, ao conversar com uma aldeã, descobre que sua mãe está viva e mora em Saigon. O verdadeiro desejo do rapaz, porém, é chegar na América, terra das oportunidades, e encontrar seu pai. Binh quer, acima de tudo, sentir ao menos uma vez na vida o real sentido da expressão “ter uma família”.

A partir daí, o espectador é brindado com uma verdadeira sucessão de fracassos e injustiças na vida do cara: Binh encontra sua mãe, Mai (Thi Kim Xuan), presa num trabalho quase escravo e sofrendo humilhações em cima de humilhações na mansão de uma odiosa senhora rica. Um incidente faz com que Binh seja forçado a fugir de Saigon na companhia de seu irmão mais novo, o doce Tam (Dang Quoc Thinh Tran), deixando Mai para trás.

A viagem clandestina, na companhia de dezenas de imigrantes, leva Binh e Tam a um deplorável campo de refugiados na Malásia, onde o ingênuo jovem conhece o simpático Chingmy (Chapman To) e nutre uma paixão inocente pela sedutora Ling (Bai Ling), que faz as vezes de “alívio” para os soldados do campo e alimenta certo desprezo pelo bui doi. Influenciado por Chingmy que, assim como ele, fala um pouco de inglês, Binh logo planeja sua fuga do campo. E acaba num navio cargueiro, em condições subhumanas ao lado de muitos outros imigrantes ilegais, rumo aos Estados Unidos.

O caminho de Binh rumo à América – e à sua própria identidade – ainda é atravessado por diversos personagens, como o detestável comerciante de imigrantes clandestinos apelidado The Snakehead (Temuera Morrison, assustador); o reservado e razoavelmente complacente Capitão Oh (Tim Roth, excepcional); e finalmente, aquele que pode ser seu pai, o ex-combatente Steve (Nick Nolte), que provavelmente está perdido em algum lugar de Houston, Texas. Se Binh conseguirá completar este trajeto, se sobreviverá aos percalços de sua passagem pelos EUA e se sairá incólume disso tudo, ninguém sabe – e se alguém aí sabe, não fale nada! :-)

Uma trama como esta, que poderia tornar-se maçante e folhetinesca nas mãos de roteiristas e cineastas errados, assume aqui um ar surpreendentemente sóbrio, real e centrado. As desventuras de Binh são narradas com clareza, sensibilidade e muito pé-no-chão; cortesia do ótimo roteiro escrito pela “marinheira de primeira viagem” Sabina Murray, que evita cair no clichê barato e entrega seqüências realistas e comoventes sem apelar para a sacarina pura. Aliás, já aviso desde já que Uma Vida Nova traz pelo menos duas cenas que farão qualquer um derreter-se em lágrimas. Uma delas em especial – no caso, um terrível acontecimento no navio cargueiro – pode pegar de surpresa até mesmo os mais insensíveis. Se até este ser que atende pelo nome de Zarko (que, como todos sabem, carrega um pedra negra no lugar onde deveria existir um coração) se emocionou, qualquer um poderá sentir o mesmo! :-)

Entretanto, não há dúvidas de que o maior mérito de Uma Vida Nova, além da excelente atuação do estreante Damien Nguyen, seja a maturidade com que Hans Petter Moland conduz sua narrativa. Nada de pirotecnia, nada de tomadas extraordinárias. Um filme rodado de maneira simples, com tomadas simples, mas totalmente bem-tratado e significativo. Moland prova com esta história de um homem em busca de seu passado que, para emocionar e realizar um ótimo trabalho, não é preciso muito. Basta uma história coerente e um pouco de sensibilidade aguçada. E o final otimista mostra que não importa o tamanho do buraco na qual você está metido. Há redenção para todos. Até mesmo para um bui doi. E tem como não se comover com uma mensagem tão reconfortante como esta? ;-D

CURIOSIDADES:

• O termo local bui doi significa “less than dust” (da tradução literal “menos que pó”). É uma gíria pejorativa para denominar os mestiços de americanos e vietnamitas gerados durante a Guerra do Vietnã.

Uma Vida Nova concorreu a dois prêmios no Amanda Awards, da Noruega: Melhor Roteiro e Melhor Filme. A fita também foi indicada ao Leão de Ouro no Festival de Berlim de 1994, onde competiu com películas consagradas como Maria Cheia de Graça, de Joshua Marston, Violação de Privacidade, de Omar Naïm, e Antes do Por do Sol, de Richard Linklater. Perdeu para o ótimo suspense turco Contra a Parede, de Fatih Akin.

• Hans Petter Moland é um semi-desconhecido por aqui, mas um roteirista e cineasta de respeito em seu país natal, a Noruega. Lá, Moland realizou duas películas bastante elogiadas: O Último Soldado (1993) e Zero Kelvin (1995). Uma Vida Nova é seu primeiro trabalho nos EUA.

• A excepcional trilha sonora de Uma Vida Nova (desde já, uma das melhores do ano) é de autoria do polonês Zbigniew Preisner, ex-colaborador do saudoso cineasta Krzysztof Kieslowski em fitas como Não Amarás (1988), A Dupla Vida de Verónique (1991) e a aplaudida Trilogia das Cores: A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha (ambos de 1994).

THE BEAUTIFUL COUNTRY • EUA/NOR • 2004
Direção de Hans Petter Moland • Roteiro de Sabina Murray
Elenco: Damien Nguyen, Bai Ling, Tim Roth, Temuera Morrison, Thi Kim Xuan, Dang Quoc Thinh Tran e Nick Nolte.
137 min. • Distribuição: Buena Vista International.

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