Pi

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 05/05/2006.

Pi

Parágrafo um:
Um garotinho de apenas seis anos, encantado com os mistérios da natureza, ignora solenemente os cuidadosos conselhos de sua mãe e decide olhar para o Sol. O garoto não consegue evitar; a existência de um astro-rei responsável por toda forma de vida na Terra lhe é deveras complexo, excitante e misterioso, e ele precisa (tentar) entender aquilo tudo, custe o que custar. Enfim, o menino desvia o olhar direto ao Sol. Sua imprudência lhe causa distúrbios irreversíveis, cujas conseqüências ficarão marcadas e se manifestarão com freqüência, mesmo depois de trinta anos.

Parágrafo dois:
O Pi (símbolo π) é um símbolo aritmético presente desde os primórdios da matemática que, em números, corresponde ao resultado simplificado 3,14. Em uma curta definição, é a razão entre o perímetro e o diâmetro de qualquer círculo. Para obter o π, basta dividir a circunferência de um círculo (medida da linha que delimita o mesmo) pelo seu diâmetro – e se você curte trigonometria, o π marcará presença em toda sua rotina de trabalho (assim como em Informática, visto que o símbolo é usado para analisar e encontrar erros em estruturas de programação). Embora o valor simplificado limite-se a 3 dígitos, o π é um número infinito e totalmente sem padrão: há notícias de que já foi calculado com o assombroso número recorde de 206 bilhões de casas decimais – leve em consideração que, se um bilhão de casas decimais fossem impressas em seqüência, corresponderia à distância entre São Paulo e Recife.

Dos parágrafos descritos acima, um não tem absolutamente nada a ver com o outro, certo? Hmm, errado. Pelo menos na visão de um pretendente a cineasta chamado Darren Aronofsky que, com apenas três curtas-metragens – a saber, Supermarket Sweep, Fortune Cookie (ambos de 1991) e Protozoa (1993) -, resolveu usar um dos maiores mistérios da matemática como ponto de partida de um thriller que seria também sua estréia na direção de longas. Assim nasceu Pi (π, 1998), um dos mais aclamados longa-metragens independentes dos últimos anos – e bota “aclamado” e “independente” nisso: rodado em 16mm e com o orçamento extremamente babaca de US$ 60 mil (!!!), Pi faturou os prêmios de Melhor Diretor no cultuadésimo Sundance Film Festival, o festival do titio Robert Redford, e de Melhor Roteiro de Estréia no não menos importante Independent Spirit Awards – só para citar as premiações mais significativas. E pra completar, alçou Aronofsky à categoria de “queridinho do cinema independente”.

A razão de tanta festa em cima de Pi e do nome de Aronofsky justifica-se. Com um plot extremamente inusitado, o diretor/roteirista construiu um pesadelo kafkiano que consegue ser tão assustador como roteiro quanto como exercício visual – tendo consciência do quão baixo foi o orçamento do filme, é de se louvar que o resultado final traga efeitos de câmera e de montagem utilizados de forma tão criativa. Resumindo em uma linha batida mas funcional, Pi é um ótimo representante da máxima imortalizada pelo finado Glauber Rocha: “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. E que idéia insana! Quantas substâncias químicas ilegais o Aronofsky terá ingerido/injetado/inalado para conceber este enredo? :-D

Soltando o português claro, Pi é nada menos que um thriller. Mas um thriller inteligente, complexo, criativíssimo e muito, mas muito eficaz. Pô, se o cara conseguiu fazer meio mundo ter medo de matemática (o que não é muito difícil, hehehe!), imagine o que ele não faria com Geografia ou História do Brasil! Afe, que piadinha ruim… :-)

Ok, então vamos à história, partindo do princípio definido pelo parágrafo número um deste texto: nas primeiras cenas da fita, conhecemos Max Cohen (Sean Gullette, co-roteirista do longa e habitual colaborador de Aronofsky). Max é um gênio da matemática e consegue fazer de cabeça cálculos extraordinariamente complexos em questão de segundos. Em contrapartida, é um sujeito perturbado, instável, amedrontado por constantes delírios, às vezes violento, com uma terrível mania de perseguição e anti-social a ponto de quase nunca sair de seu apartamento/cubículo – estes são apenas alguns dos muitos efeitos permanentes que assombram Max; conseqüências do tal evento protagonizado pelo Sol, que lhe traumatizou anos atrás.

Ao início do longa, o espectador descobre que Max Cohen empenha-se na obcecada busca por um padrão no sobe-e-desce da Bolsa de Valores. Para Max, a matemática é uma linguagem presente na natureza. Ou seja, tudo à nossa volta pode ser compreendido e interpretado através de números. Se há números, há padrões: logo, há padrões em tudo. Na verdade, Max não quer somente descobrir um padrão para o mercado de ações, o que lhe tornaria capaz de prever toda e qualquer queda ou alta no sistema. Ele quer provar que existe um ponto de partida numérico para cada elemento vivo na Terra.

Contrariando as opiniões de seu tutor Sol Robeson (Mark Margolis) – um antigo professor que também é a única pessoa no universo que consegue aproximar-se da figura -, Max aproveita-se do financiamento que recebe de um figurão misterioso para construir um supercomputador, batizado Euclid, em seu próprio apartamento. O tal supercomputador (um maquinário gigantesco que toma praticamente 75% do espaço de sua casa) é usado por Max para tentar chegar ao número que pode ou não ser o que ele tanto almeja. O problema é que Max é consumido cada vez mais por sua obsessão pelos números, o que aumenta gradativamente seu estado de insanidade.

Achou confuso até aqui? Você não viu nada! ;-)

Bem, as coisas começam a ficar um pouco mais complicadas quando Max é procurado paralelamente por uma corporação de Wall Street, representada pela ambiciosa Marcy Dawson (Pamela Hart), e por um grupo de judeus ortodoxos liderado pelo estudioso Lenny Meyer (Ben Shenkman). Marcy diz que quer contratar os serviços de Max, mas o que pretende é se apoderar do tal código numérico que supostamente definiria um padrão para a Bolsa de Valores; já Lenny quer que Max o ajude a desvendar, através da numerologia, um suposto segredo que pode estar escondido no Torá – para quem não sabe, o conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia. Não tarda muito para que a insistência dos dois grupos torne-se uma alucinada e perigosa perseguição. Ao menos, é assim que Max vê o troço todo.

Pra deixar Max com a vida mais ilhada ainda, o supercomputador entrega uma bizarra seqüência numérica de 216 dígitos – seqüência tão complexa que nem mesmo o aparato desenvolvido pelo matemático suporta sem sofrer uma pane. Este código de números distintos não é o número que Max busca incessantemente. A princípio, o sujeito acredita se tratar de um bug. Por outro lado, a seqüência fornece nas entrelinhas a resposta definitiva para um tenebroso segredo… um segredo que faria muita gente se dispor a matar para tê-lo em mãos…

Tá curioso pra saber o que é, afinal, o número descoberto por Max? Veja o filme, oras! Ou então, selecione o parágrafo escondido logo abaixo com o cursor do mouse, seu curioso! Mas digo logo: é um pusta de um senhor spoiler que faz toda a diferença. Se você ainda não assistiu Pi e pretende fazê-lo, resista à tentação! :-P

Max descobre nada menos que o sentido da vida e a origem do universo.

Parece bizarro? Sim, Pi é extremamente bizarro. Entretanto, é construído com o máximo de coerência possível, e de qualquer forma, a descoberta do protagonista não é, de modo algum, o mote central da fita. Neste seu primeiro longa, Darren Aronofsky explicita sua predileção a um tema já explorado em seus curtas: a paranóia humana. A odisséia de Max Cohen é um pesadelo que começa pequeno e cresce vertiginosamente a cada minuto de projeção, culminando em uma aterrorizante conclusão de deixar qualquer um de cabelos em pé. Muito ajuda os maneirismos de câmera, a montagem aceleradíssima e a exploração de elementos insignificantes com um sentido metáforico gigantesco – no caso, as formigas e o cérebro humano que aparecem para Max a todo tempo; elementos que Aronofsky aperfeiçoaria em seu longa seguinte, o genial Réquiem para um Sonho, e que hoje já se transformaram em suas marcas registradas.

Na verdade, a real intenção de Darren Aronofsky em Pi não é contar uma trama com começo, meio e fim – ainda que tenha sido extremamente bem-sucedido neste quesito. Pi é um thriller construído com o principal objetivo de incomodar o espectador. A edição e a espetacular fotografia em preto-e-branco (que é REALMENTE em preto-e-branco, e não em tons de cinza) servem principalmente para posicionar o público na pele do protagonista: em seus pesadelos, vemos exatamente aquilo que Max Cohen vê, e a adrenalina da câmera de Aronofsky nestes momentos, somada à delirante salada de gêneros que é a trilha sonora composta por Clint Mansell, traduzem a loucura e a angústia do personagem à perfeição. Quem viu Pi na tela grande sabe que o buraco é beeeeeem lá embaixo. :-D

Hoje, oito anos depois da estréia de Pi nos cinemas ianques – e quatro depois da chegada às telonas brazuquinhas -, Darren Aronofsky é um cotadíssimo cineasta na indústria das grandes superproduções estadunidenses, com o poder de escolher a dedo seus atores, pouco importando se são grandes estrelas ou não. Por outro lado, não há como negar que Pi, uma produção tão amadora que quase chega a ser caseira, nos lembra a todo instante que a verdadeira casa de Aronofsky é mesmo o cinema independente, o cinema anti-convencional, o cinema construído não com um orçamento inflado, mas com uma dose cavalar de inteligência e criatividade. Se ele conseguirá equilibrar estas qualidades no circuitão hollywoodiano? Só o tempo vai dizer. Competência para tanto, Pi prova que ele tem. E muito.

Ah sim: a tal seqüência numérica de 216 dígitos descoberta por Max, na verdade tem 218 dígitos, e é este: 94143243431512659321054872390486828512913474876027671959
23460238582958304725016523252592969257276553643634627271
84012012643147546329450127847264841075622347896267285928
58295347502772262646456217613984829519475412398501. O número 216 é o resultado da equação 6 x 6 x 6. E o número 666, como todos sabem, é o número da besta… Sai fora! E o resultado de 748 dividido por 238, que Max tenta responder em certo momento do filme, é simplificado para a fração 22/7, cujo resultado é… 3,14.

PI • EUA • 1998
Direção de Darren Aronofsky • Roteiro de Darren Aronofsky • História de Darren Aronofsky, Sean Gullette e Eric Watson
Elenco: Sean Gullette, Mark Margolis, Ben Shenkman, Samia Shoaib, Pamela Hart, Ajay Naidu, Joanne Gordon.
84 min. • Distribuição: Europa Filmes.

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